Sexta-feira, 20 de Dezembro de 2013


" Dezembro. Véspera de Natal. Quasi meia-noite. 

Na mesma casa, na aldeia. Interior a um tempo sala e lareira, parte em sobrado, parte em ladrilhos. 

Porta e janelas dando para o vale, mas agora cuidadosamente fechadas.

Ao cimo, contra a parede, a enorme chaminé de granito, avançando sobre o lar em esteios de pedra lavrada. Sob a chaminé arde um grande fogo, esperto e doirado como o sol de Junho. À roda, bancos de encosto, negros pelo fumo de muitos anos. Pertences domésticos: - a masseira, a talha da água, armários envidraçados onde alvejam as toalhas de linho, ou fartam os olhos abundosas e morenas boroas de pão ( ... ) . Em volta da fogueira um pequeno e familiar grupo de gente rústica. Os homens aquecem ao lume as mãos endurecidas pelos trabalhos da terra, consolados e felizes. As mulheres fiam, no mesmo gesto luminoso e rítmico, o linho das suas rocas.

( ... ). Sente-se que, lá fora, a noite é um vivo e glacial arrepio de frio e luar. O fogo da lareira incensa a casa no seu resinoso, sadio aroma........................................................................................................................................................................................................................ " 

António Corrêa d'Oliveira, « Auto das Quatro Estações »


E vêm-me à memória aquelas noites de Inverno passadas ao redor da lareira, na saudosa Casa -do- Forno da minha meninice. As noites de Natal, em que o Pai era o perfeito maestro, tentando disciplinar as vozes infantis que entoavam os cânticos que, pacientemente, nos ensinara. 

No espírito de cada um de nós, a esperança de que, mais uma vez, o Menino se não esquecesse de deixar um presente nos sapatinhos que, " com muito carinho e cheios de fé ", iríamos pôr na chaminé...


publicado por Cristina Ribeiro às 15:43
Domingo, 19 de Dezembro de 2010

 

 

 

que um burrinho ajudara a aquecer aquele menino que há muito tempo havia nascido em Belém, lá longe, num país desconhecido, mas o menino, esse, conhecia-o ele, pois que todos os anos, em noites frias assim, ficava lá em casa deitado numa caminha de palha que o pai lhe arranjava, pertinho da lareira, onde o frio não entrava. Tinha agora de fazer o mesmo pelo Castanho, o burro que lá no curral, junto ao gado que todos os dias pastoreava, devia estar a tremer de frio; o Castanho tão amigo, que o olhava com aqueles olhos tão meigos...

Levantou-se, e depois de trocar um olhar cúmplice com o menino na caminha de palha, foi buscar uma manta: o Castanho ia ficar quentinho.


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publicado por Cristina Ribeiro às 19:27
Quarta-feira, 01 de Dezembro de 2010

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- Jogar a pinhões...; temos de jogar a pinhões na noite de Natal. Os mais pequenos não conhecem essa tradição, de que tanto gostávamos na idade deles...

- Precisamos então de comprar um Rapa, e arranjar pinhas.

 

Enquanto saboreávamos as batatas com bacalhau, as pinhas, bem no meio do borralho, na lareira, aqueciam até se abrirem, e delas podermos, depois da ceia,tirar os pinhões, que submergíamos na água de um alguidar: só os que iam ao fundo entravam no jogo- os outros eram lançados ao fogo.

               Reuníamos os pinhões e lançávamos um dado de madeira, com as letras R, T,D e P- sorte a daquele que Rapava os pinhões todos e azar daquele a quem só saía a letra P, de " põe".

Fosse qual fosse o resultado, o saldo era sempre divertimento certo.



publicado por Cristina Ribeiro às 16:11

 

Já todos em férias escolares, primeiro os mais velhos, que já frequentavam o Secundário, em Guimarães, depois nós os que ainda éramos alunos da D. Maria ou da D.Laurinha, na Escola Primária de Sande. Nesse dia, que é também o do aniversário duma irmã, a programação televisiva, até ao cair da tarde, era preenchida pelo " Natal dos Hospitais ".

Bem agasalhados, lá nos dirigíamos para o Souto, aqui perto, para apanharmos musgo, o melhor das redondezas: rasteiro e muito verde, era difícil arrancá-lo dos penedos onde crescera- lembro-me de uma vez ter dito ao irmão mais velho que " aquele " era realmente o mais bonito, mas o  quão dificultoso ele era, e ele me ter respondido, com o saber de rapaz que já estudava na Cidade, " tudo o que é bom, é difícil"-

             Musgo  na caixa de papelão, chegara a hora de começar o Presépio: primeiro, desembrulhar as figuras, que a mãe tinha guardado no ano anterior, e eram muitas- além da Sagrada Família, havia os Reis-Magos, os pastores, as ovelhas...

A cabana, sempre muito elaborada, feita com canhotas, era o pai que a fazia.Depois podíamos dar asas à imaginação: lagos com papel de prata, caminhos  demarcados com serrim...

 

                   Com o passar dos anos, o Presépio foi-se simplificando, até chegar à forma actual, em que só a Sagrada Família, o burrinho e a vaquinha aparecem, mas à volta dela os pequeninos ainda  se extasiam.

 



publicado por Cristina Ribeiro às 15:44
Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...
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