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O Tempo Esse Grande Escultor

Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...

O Tempo Esse Grande Escultor

Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...

Hoje, a Maria Teresa,

Cristina Ribeiro, 01.12.10

a sobrinha de quatro anos, a graciosidade em pessoa pequenina, de beleza difícil de descrever, tanto na fisionomia como nos gestos, de uma meiguice que rapidamente se transforma em teimosia- já tinha dito que também é Touro? :) -, foi ao " Senhor Doutor Simpático", numa consulta de rotina: que estava " óptima, uma futura top-model "...; não, Senhor Doutor: fosse Botticelli vivo e teria nela a mais formosa das Musas, com um rosto e uns cabelos que fariam a própria Vénus ficar pálida de inveja.

Uma " Boticelli" de lágrima fácil, como hoje, durante o almoço, mais uma vez confirmámos- vale a solícita presença do irmão, o Zé João, sempre pronto a consolá-la, a protegê-la dos   grandes males que já a atormentam.


E foi num dia assim,

Cristina Ribeiro, 01.12.10

 

 

em que do azul cinzento e frio do céu caíam farrapos brancos e frios, aos quais se vinha agora juntar uma chuva miudinha, que o  Zé Miguel, pequenino ainda, nos mostrou que já sabia ler.

                 Devidamente couraçados contra o frio, que por esta altura é muito intenso na cidade mais alta de Portugal, deambulávamos 'preguiçosamente pelo centro, quando começou a juntar as letras abaixo da estátua d'«O Povoador». Que aprendera com « A Rua Sésamo». Era a estreia em público.


" Eta " história deliciosa!

Cristina Ribeiro, 16.11.10

 


De manhã, a caminho do trabalho, vimos uma senhora dos seus sessenta anos, a trabalhar na horta, e diz o António: " É uma das irmãs que fugiram para casar "

Claro que já não descansei até saber do que falava...

Há anos, aqui na aldeia, havia um lavrador com um rancho de filhas, todas elas a trabalhar no campo. De todas o pai desdenhava do namorado- resultado: todas elas acabaram por fugir, para casar com quem muito bem tinham escolhido; de uma delas contou que de manhã, e para que ninguém desconfiasse, se dirigira, normalmente para o campo, por via de ceifar o milho, para, mais tarde, e com conhecimento das irmãs, ir a casa , só o tempo de mudar de roupa,  e  meter se a caminho da Igreja, onde a esperava já o noivo...

E conclui o António: " Aqui na freguesia começou a falar-se que o lavrador tudo isto armava por mor de não lhes pagar a bodo ".

 

Fosse ela do conhecimento de Camilo, e que belo Romance não escreveria, Meu Deus!...

Um dos foliões que, nas décadas de quarenta e cinquenta

Cristina Ribeiro, 17.06.10

 

 

 

 

do século passado, no meio daquele carvalhal " pintavam a manta ", é hoje um dos meus tios, e continua o exímio tocador de cavaquinho, que já era então.

Desde pequena lembro-me dele a alegrar qualquer reunião com o som desse pequeno instrumento musical, mormente a grande romaria que ainda hoje faz as alegrias da população local, principalmente dos muitos emigrantes, que nessa altura - 29 de Julho- se encontram cá de férias - a da Santa Marta da Falperra.

Mestre também no " cantar ao desafio ", esse tio, que agora se empenha em ensinar a arte aos netos, ainda pequenos, é um daqueles a quem os tempos modernos não mataram a imaginação exigida pelos ócios agradáveis, de que fala Nemésio.

Foi graças ao muito trabalho dos meus pais (2)

Cristina Ribeiro, 27.02.10

 

 

 

 

 

 

 

Mas desta vida árdua ressalta a heroicidade de uma Mulher, da minha mãe.

Morava a cinquenta metros da Escola Primária, mas não lhe foi permitido ir além da Terceira Classe: os pais precisavam que ajudasse em casa e na Venda, enquanto a minha avó cozia fornada de broa, atrás de fornada...

Algum tempo passado, e com muitos irmãos homens, competia-lhe a ela ir lavar ao rio, e quando o meu avô começou a fabricar talheres, muitas vezes lhe coube levá-los à cidade, na camioneta que apanhava na vila mais próxima, não tão próxima assim...

Quando casou, começou por ajudar na economia doméstica cozinhando petiscos, como antes fizera na Venda da avó, e criando galinhas, coelhos e porcos que vendia na feira.Até que decidiu trabalhar com o meu pai. Começou aí uma odisseia que ainda perdura. Levantava-se muito cedo, por mor de abrir a fábrica aos trabalhadores ; no Inverno, quando o frio era muito, e eles chegavam enregelados, mandava acender as brasas que enchiam alguns bidões, enquanto lhes fazia café bem quente. Habituaram-se a ver nela uma amiga, que nunca esqueciam no aniversário, altura em que a minha mãe lhes fazia sempre um lanche, boa cozinheira que sempre foi... Ainda hoje, antigos trabalhadores, que saíram porque emigrararam, ou porque se reformaram, vêm, amiúde, visitá-la, e não raro despedem-se com os olhos cheios de lágrimas...

Em 2007 foi-lhe diagnosticado um cancro. No dia 11 de Dezembro desse ano retiraram-lhe meio pulmão, mas um mês depois lá estava no seu posto de sempre. Continua a ser a Mulher do Leme, quer no trabalho, quer na família.

Foi graças ao muito trabalho dos meus pais

Cristina Ribeiro, 27.02.10

 

Que eu e os meus irmãos passámos mais ou menos " incólumes " a , na altura já mais amainada, semi-tormenta do final dos anos sessenta, sem as privações que víamos nos vizinhos, mas apenas com privaçõezinhas. É verdade que nunca então vi, como há dias, a miséria extrema, a mesma de que ouvi falar os mais antigos. Quer a família de um quer de outro tinham começado por ser moleiros, mas ambas acabariam por se entregar à indústria local, a de garfeiros, e foi nela que o meu pai, feita a tropa em Lisboa, se lançou em negócio próprio. Começou aí, para ele e para a minha mãe, com quem entretanto casara, uma vida árdua, que se foi tornando mais custosa com a chegada dos filhos. Foi uma época difícil, essa, em que todos os dias se ouvia de mais um que fora a monte para França ou para a Alemanha, em busca de uma vida melhor. Como agora.. Lembro os serões que passávamos a fazer aqueles pequenos trabalhos que a nossa tenra idade permitia, muitas das vezes numa luta gigantesca com o sono . Uma vida muito disciplinada, em que nos contentávamos com o pouco que nos podiam dar.

Aquando da recente ida a Israel,

Cristina Ribeiro, 09.01.10

 

um sobrinho pediu-me lhe trouxesse um mapa antigo de Jerusalém. Trouxe um mapa e uma gravura da cidade antiga, mas, quando cheguei a Portugal, cansada, guardei-os na grande caixa das fotografias, e nunca mais deles me lembrei. Quando, no início da tarde de hoje, ele me telefonou- que não me esquecesse do mapa, fui buscá-lo à tal caixa: a perdição! Com efeito, guardo nela as centenas de fotografias tiradas na época " antes da digital ", fruto do gosto de documentar em imagens todos os passeios: os que fiz só, e os feitos em família; apreciar as alterações por que cada sobrinho ia passando, de ano para ano; lembrar as circunstâncias em que cada uma tinha sido tirada, e " rever " a terra em que tinha sido tirada. Depois de todo esse exercício memorialista, que provocou muitos sorrisos, concluo que, depois que comecei a usar a nova máquina, tenho descurado esse trabalho minucioso, mas gratificante, de etiquetar, com todas as referências, cada postalzinho mais ou menos colorido, que fixou cada instante nosso, cada momento meu.

E foi num dia assim,

Cristina Ribeiro, 05.11.09

 

em que do azul cinzento e frio do céu caíam farrapos brancos e frios, aos quais se vinha agora juntar uma chuva miudinha, que o Zé Miguel, pequenino ainda, nos mostrou que já sabia ler. Devidamente couraçados contra o frio, que por esta altura é muito intenso na cidade mais alta de Portugal, deambulávamos 'preguiçosamente pelo centro, quando começou a juntar as letras abaixo da estátua d'«O Povoador». Que aprendera com « A Rua Sésamo». Era a estreia em público.

 

Dezembro de 2008

E o Outono chegou também ao Paul.

Cristina Ribeiro, 22.10.09

 

Foi para aí que me dirigi, já o sol começava a esmorecer no horizonte. Não esperava outra coisa, quando encontrei aquele que foi o lugar de todas as brincadeiras vazio e silencioso. Mas encontrei as cores que lá me habituei a ver nesta época do ano , e, no chão, as folhas de tília que amorteciam o som das corridas infantis. Penso que também essas velhas árvores se terão conformado já com a ausência das gargalhadas, mas continuam a maravilhar-nos com estas vestes que sempre lhes conhecemos, antes de, em chegando o Inverno, as despirem, apesar dos pesares.

 

 

 

 

Novembro de 2008

Depois do almoço sentámo-nos à roda da mesa a descascar castanhas.

Cristina Ribeiro, 21.10.09

 

 Ao lanche, em pleno Verão de S. martinho, iríamos comer castanhas cozidas. E logo se desfiaram memórias da nossa infância, quando a Sr'Ana chegava a casa, todos os Domingos, à hora do lanche, com um cântaro de barro cheio de castanhas, que fumegavam ainda.. É esse sabor que vamos buscar, agora que ouvi dizer: "-Venham; estão cozidas".

 

Novembro de 2008