Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

 

 

 

 

 

 

e com muitos quartos, porque era grande a prole. Descendia de uma família de moleiros e padeiros, e quando casou com o avô, carpinteiro que trabalhava então no Teatro Circo de Braga, começaram a construi-la, e aí montaram uma padaria, onde a avó iria dar continuidade ao negócio familiar. Alguns anos passados, e já com três filhos, o avô rumou ao Brasil, onde trabalhou numa fábrica de tabaco na Baía. Enquanto isso a avó, uma mulher cheia de garra, criou uma mercearia, onde, além do pão de trigo e das broas que cozia, vendia azeite, café e bacalhau. Era a Venda da avó, onde eu comi as primeiras bolachas Maria... Na altura da II Guerra, quando os alimentos eram racionados, o meu avô, que entretanto regressara, e era " um Homem bom" nunca deixou que nenhum vizinho passasse fome, mesmo quando não tinha com que pagar: como dizia a avó, " tinha os seus protegidos". A minha mãe e tios dizem o melhor possível desse avô, de quem não guardo lembrança, pois que morreu cedo. A avó viveu ainda por muitos anos, sempre a trabalhar na Venda. Nos seus últimos tempos, já eram os próprios clientes que se serviam: "Srª Aninhas vou levar um litro de azeite; assento no livro e pago no próximo mês". Sentada num banco a avó acenava com a cabeça: "Está bem". Quando, há tempos, fui em busca da minha Escola Primária, para a fotografar, passei pelo lugar onde estava a casa, mas agora estava lá outra, bem diferente; e pensei "ainda bem que o nosso amigo pintor a fixou naquela aguarela".

 

Novembro de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 22:34
Sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

 

 

a chiar sob o peso de uma qualquer carga, corríamos para nos pendurarmos nele, largando o que estávamos a fazer, fosse uma tarefa em casa, fosse uma brincadeira. Quem se atrasasse já não tinha lugar".

 

Setembro de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 13:06

 

Acaba de contar a minha mãe, uma vez mais. -"Comecei por ler «A Rosa do Adro», ainda era solteira, um presente do vosso pai, quando uma tarde me foi esperar ao rio, e, depois, já casada, e enquanto não tinha filhos, seguiram-se outros. Preferia o Júlio Dinis; lembro-me de ter gostado muito de ler «A Morgadinha dos Canaviais». Depois acabou-se, quando vieram vocês. Nunca mais tive tempo, mas lembro-me de que gostava..."

 



publicado por Cristina Ribeiro às 12:19
Domingo, 11 de Outubro de 2009

 

 até que a luz do sol o permitiu, as mulheres da vizinhança reuniam-se, à volta da lareira se já fazia frio, e, na dobadoira, transformavam as maçarocas de linho em meadas, primeiro, e novelos, depois. A fim de tornarem mais leve esta tarefa, afinavam as vozes e cantavam

 

Doba, doba, dobadoira,

Não m'enrices a meada,

Quero dobar o novelo,

Tenho a minha mão cansada.

 

O novelo já é grande,

Já me não cabe na mão.

Doba, doba, dobadoira,

Dentro do meu coração

 

 ( Junho de 2018 )



publicado por Cristina Ribeiro às 16:15

 

Era por esta altura do ano, quando o linho tinha sido já "arrincado" e ripado, que, com as amigas, fugia à minha avó, e às tarefas de casa, para se juntar ao cortejo festivo que levava as plantas de flor azul ao rio, a "enterrar". Leio n«Os Mesteres de Guimarães»: " Quando o carrego é a preceito, vai o jugo dos bois enfeitado, e a carrada tem seu ar de festa. No alto, por sobre os molhos de linho, ergue-se um ramo de oliveira, com flores, que é obra da moçarada de saias. Sim, porque as raparigas também vão á "enterra". À dianteira vai a tocada, com tamboril, ferrinhos viola e armónica" (e cavaquinho, acrescenta a minha mãe)." É de ver que havendo viola e mulheres há cantadoria e dança. Feita com as enxadas a cama ao linho, na areia lavada do rio, aí o enterram". Mas a festa continuava quinze dias depois, quando se "erguia" o linho, para que ele secasse "à torreira do sol".

 

 

( Junho de 2008 )



publicado por Cristina Ribeiro às 15:49

 

amanha-se a terra, que há-de ser, leio n«Os Mesteres de Guimarães», «mimosa e regadia (...); no lus-ca-fus da minhã, mal se enxerga, já o lavrador amante do trabalho anda na carrega dos estrumes, feito o que, vem o arado» que se atou a um jugo de bois. Só então, se fará a sementeira : «arrojando para a extrema do campo seu chapéu o lavrador faz o sinal da cruz, e o primeiro punhado de linhaça é arrimado à terra».

 

 

Atirado o último, «ergue a sua idea ao céu e murmura: -Que Deus te ponha a virtude e me dê a mim saúde!»

 

 

Fins de Junho o linho deitou a flor «pequeninha e anzur, é o regalo dos olhos»; quando esta já foi desfeita pelo vento, é «sinal de que está maduro para ser arrincado».

 

 

/Começos de Julho: «O sol bebeu o orvalho do linho. São muito hórinhas de o arrincar». E canta-se «Trabalhos do linho querem sol e vinho" porque este é, como é regra nos trabalhos de lavoura, mais um momento em que do árduo se faz festa.

 

Junho de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 12:49
Sábado, 10 de Outubro de 2009

 

 

 

"Ainda que meu pai me bata

E minha mãe me tire a vida

Minha palavra está dada,

Minha mão está prometida"

 

Não seria muito diferente o cantar da roda de amigas, entre as quais se encontrava a minha mãe,que acompanhava o esfregar da roupa nas pedras do ribeiro que atravessa a aldeia, enquanto os moços as olhavam do cimo da pequena ponte.

 

Maio de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 20:22

 

" Não dávamos ponto sem nó; vocês agora não sabem divertir-se", diz a minha mãe quando recorda o tempo em que, com as amigas, ia lavar roupa ao rio. Era a ocasião sempre esperada, pois que era então que, já depois da roupa lavada, e estendida na erva para corar ao sol, os rapazes vinham ter com elas e aí namoravam até começar a escurecer...

 

Maio de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 20:16
Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...
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