Quarta-feira, 01 de Dezembro de 2010

- tinham saído bem cedo, mal raiava a aurora -e com uma fome de cão, mas contentes.Porque se assim tinham pensado, melhor o fizeram, e o cesto de vime que levava a tiracolo ia agora cheio, com os  peixes que acabara de pescar naquele rio que continuava a conhecer tão bem. Não, não perdera o jeito...

Pelo caminho que levava a casa da tia, e enquanto o primo, num despreocupar muito seu, assobiava a moda da carrasquinha, ia pensando o quanto necessárias lhe eram estas estadias na aldeia, mas na certeza do regresso à cidade grande, onde, quando de lá saíu,  lançara raízes; era aí que estava o seu trabalho, e era aí que encontrava os amigos com quem se reunia para falar de outras coisas para além da pesca e da vida, forçosamente limitada, que ali se desenrolava, num ritmo que não era já o seu.



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publicado por Cristina Ribeiro às 15:08

 

cortava a mudez da noite. Pedira-lhe um cigarro, ele que pouco antes lhe dissera andar a lutar contra o vício.

Não quis interromper o monólogo interior que, adivinhava-o, começara logo que deixaram para trás a povoação, aonde tinham ido encontrar os amigos . Há quanto tempo não os via ele? Quinze anos? Vinte?

Deixara a aldeia para ir estudar na cidade grande, e nunca mais voltara. Era verdade que ainda o via amiúde, pois que com frequência tinha papelada a tratar por lá, mas ele...; ele não reconhecera ninguém;  teve de lhe reavivar a memória lembras-te? é o Tónio Melro, que andava sempre à cata dos ninhos..., e acabava por se lembrar de todos.

Por lá ficara, e até tinha montado banca de advogado, por sinal muito concorrida, tinha-lho dito a tia, quando os foi visitar havia pouco tempo...

E agora, de um momento para o outro, aparecia-lhe ali em casa... ; que precisava de férias...

 

Quando entravam em casa, virou-se o primo: prepara as canas; amanhã vamos pescar. A ver se ainda lhe não perdi o jeito...


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publicado por Cristina Ribeiro às 15:02

 

As horas custavam a passar, e o sol demorava a romper por entre a escuridão. Calma! há-de chegar! dizia-se a cada momento. E, como a Primavera, que se segue sempre ao Inverno, ele acabou por surgir, bem luminoso, e com a promessa de tudo aquecer.

E começou por lhe iluminar o  coração, que até aí só enxergava o lado negro da vida.

Sentia-se agora com forças para escolher, naquela encruzilhada que o fizera hesitar, o caminho a seguir, seguro e esperançoso.

Era bem verdade que o amanhã é sempre outro dia!



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publicado por Cristina Ribeiro às 14:56

Saíra de casa para espairecer. Tentar, consultando os seus botões, encontrar uma saída airosa para o buraco negro que se tornara a sua vidinha, tão sem raios de sol a aquecê-la. As nuvens negras tinham vindo do nada, sem grandes avisos prévios, ou então eles tinham surgido, mas, na grande distracção em que mergulhara nos últimos tempos, não parara para os ouvir; e agora sentia-se assim, um traste. Naquela manhã levantara-se com mais ânimo: tinha de sair daquele beco escuro, e, assim pensando, meteu os pés ao caminho.

À sua frente, uma encruzilhada; que caminho seguir, dos quatro possíveis, interrogava-se.

Enquanto assim cogitava, sentava-se numa pedra que lhe pareceu um bom sítio para descansar, depois da grande  caminhada. E olhou o horizonte, sem que nele encontrasse a resposta que esperava. Ficou por ali, enquanto o sol ia declinando, até que se fez noite.

Hoje já não vou adiante. Amanhã será outro dia!

E voltou para casa, mesmo sabendo que a solidão que nela ia encontrar seria mais negra que a própria noite sem luar.



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publicado por Cristina Ribeiro às 14:53

 

 

e, enchendo-se de coragem, aproximaram-se, dizendo-lhe que o seu homem não voltava, que o mar o guardara para sempre. Olhou-as, com um olhar alucinado, e chamou-as de loucas; que tinha de  pôr-se bonita porque  o barco devia estar a chegar, e a areia, onde passara a noite à espera, colara-se-lhe ao corpo - não queria que ele a visse assim.



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publicado por Cristina Ribeiro às 14:47

Mas então acontecera aquela tragédia. Esperar que o tempo aliviasse a dor...

Agora, três anos depois, dissera à mãe: ia ser pescador; o tio arranjara-lhe um lugar no seu barco...

Cheia de receios, a viúva do Tónio Mestre acatava a vontade do filho. Fazer o quê? rezar para que tudo corresse bem...

   Chegada a madrugada da primeira largada, as mulheres, como sempre, acompanhavam os seus homens à praia, e dentre elas destacava-se o vulto negro da mãe, que tratava, sabe-se lá a que custos, de mostrar um semblante calmo e encorajador.

Enquanto o barco se afastava ergueu os olhos ao céu, numa preçe -  Que volte cedo, e bem! - para logo os fixar de novo no mar, onde só se via já, ao longe, um pequenino ponto,como que a suplicar-lhe se mantivesse calmo, como calmo estava agora...


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publicado por Cristina Ribeiro às 14:43

 

 

nem por isso se impediu de confessar à árvore, que sempre a ouvira em silêncio, quase um ombro onde podia chorar as mágoas, a causa da tristeza que a afligia. Estava, ao fazê-lo, ciente de que quando o vento viesse abanar as folhas, estas não conseguiriam esconder-lhe o que lhes segredara; que quando este fosse agitar as águas do rio, também  este ficaria a saber do seu estado de espírito, e que  quando as andorinhas nele fossem beber, partilhariam do seu segredo.

Mas até se sentia menos só, porque sabia de antemão que o ombro a que se confiara se multiplicaria por muitos, todos eles confiáveis.



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publicado por Cristina Ribeiro às 14:39

 

 

Parou o carro e, descalçando-se, foi em direcção ao mar, o qual se divertia naquele fazer e desfazer de ondas que vinham morrer na areia. Há tanto tempo que  não enterrava nela os pés....

Uma vontade súbita de volltar à infância, e procurar as conchinhas que ficavam dessas idas e vindas da espuma branca. Um sorriso, ao lembrar-se da alegria então sentida, sempre que encontrava um beijinho de amor, raros que eram...

E  foi agachada que repetiu os gestos de outrora; a mão que revolve a areia  molhada, como molhado ficou o  vestido, quando até ela chegou uma onda mais forte, num exame minucioso, onde não faltava a expectativa; como dantes.


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publicado por Cristina Ribeiro às 14:32

 

Ia passá-lo a casa dos avós. Lembrou a última vez que lá fora, com a Primavera a anunciar a sua chegada nas folhas verdes, pequenos rebentos ainda, do centenário carvalho plantado por um antepassado ( a avó dissera-lhe o seu nome, mas não o retivera - havia de lho perguntar... ), à sombra do qual lera aquele livro que tanto a intrigara...; tinha pertencido a esse avô longínquo, oferta de uma noiva que tivera antes de casar, e que morrera quando ambos preparavam o casamento. Não chegara, pois, a fazer parte da família, mas, depois que a avó lhe contou esta história, lido já o livro e decifrada a dedicatória, sentiu-a tão próxima...



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publicado por Cristina Ribeiro às 14:23

 

se divertia a pisar, bem forte, aquele tapete de folhas caídas. De mãos dadas, lembrava-se, a sensação era melhor ainda. Escutar o crepitar. Começaram aí a sulcar juntos as estradas da vida.

Mas agora o Nelo estava longe; que não demoraria, prometera-lhe.

Apeteceu-lhe escrever um poema para quando voltasse, mas tudo lhe parecia tão prosaico: a única rima de que se lembrava era " amores " e " flores - as flores que ele lhe prendia no cabelo... Não, a poesia estava no que sentia, não nas palavras, e isso saberia comunicar ao Nelo. Quando ele viesse; logo que ele viesse.



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publicado por Cristina Ribeiro às 03:28
Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...
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