Quinta-feira, 19 de Junho de 2014
 

" Oh! mas que immensa riqueza naquelle immenso valle!. Esse valle que naquelle dia estava coalhado de cabras e ovelhas. Onde o valle é mais largo, suamos as estopinhas para fazer parar aquelle exercito de chifres, anciosos por se deitar à urze e ao matto.

Ao deixar Lamalonga encontra-se uma chã enorme  e nella o maior carvalhal que temos visto. Antes de deixar Campos, vamos mais uma vez provar que não se trata de um lugarejo para se desprezar. Antes pelo contrario.Alem da sua riqueza em cereais, lá, a poucos metros do concelho de Montalegre, houve mminas de volframio ( ... )

Padre Alves Vieira, « Vieira do Minho »

 

Havíamos deixado para trás a freguesia de Ruivães e agora, antes que iniciasse a província de Trás-os-Montes, uma placa indicativa de que entrávamos na ultima freguesia do concelho, que o mesmo é dizer que era o fim da província do Minho. E de novo aflorou à minha mente: isto é uma festa! Uma festa de granito e de verdes campos.


publicado por Cristina Ribeiro às 13:10
 

" A chamada Terra de Basto, genuíno átrio de Trás-os-Montes, é um quadrilátero montanhoso e austero, recortado por alguns vales verdejantes de recatada feição rústica, humedecidos por frescos regatos afluentes do rio Tâmega e pelo próprio Tâmega. ( ... )

Meio ocultos entre os possantes raizeiros das serras da Cabreira, do Barroso e de Alvão, dois dos concelhos de Basto - Cabeceiras e Celorico -, situados na margem direita do Tâmega, consideram-se ainda dentro dos limites do velho Entre Douro e Minho; na margem esquerda, o de Mondim diz-se já em Trás-os-Montes. "

 

  Assim escrevia Sant'Anna Dionísio em 1965, acerca da região onde me perdi, muito recentemente; e digo " perdi " porque estava pensada apenas como local de passagem, a caminho de outro destino. Mas ou era uma placa apelativa que nos fazia entrar por um caminho diferente, um rio, visto ao longe, que nos fazia mudar de rota, ou, ainda, a vista de um mosteiro ou de uma linda casa apalaçada que nos fazia parar.

 

No essencial foi o mesmo " quadrilátero montanhoso e austero, recortado por alguns vales verdejantes  humedecidos por frescos regatos " que fomos encontrar. Apenas as casas de habitação já não são como as que o escritor viu, por certo. Com algumas excepções, principalmente fora dos centros urbanos, onde ainda pudemos descansar os olhos, magoados com a visão de " kafkianos pombais ", nas formosas e velhas casas de minhoto granito.


publicado por Cristina Ribeiro às 12:08
 
Saíramos de Braga com um ventozinho, é verdade, e tinha ouvido que vinha aí " uma frente polar " e com ela uma vaga de frio, de muito frio, pelo que até íamos preparados para o enfrentar. Mas, mesmo assim, não a esperávamos, não no último fim-de-semana de Abril. É certo, também, que quanto mais nos aproximávamos das terras altas mais negras víamos as nuvens e quando fomos almoçar naquele restaurante junto ao castelo começámos a sentir uma baixa acentuada da temperatura. 
Ainda no concelho de Montalegre, seguimos para Tourém; lá perguntaríamos o caminho para a agora espanhola Rubiás, outrora um microestado, espécie de terra de ninguém, o Couto Misto encravado entre Portugal e Espanha, até que, pelo Tratado de Lisboa de 1864, foi integrado no município galego de Calvos de Randin.
E foi precisamente na aldeia de Randin, já na província de Ourense, que começou a cair, primeiro " leve, levemente ", depois nem tanto assim. Rapidamente se formou à nossa volta um lençol branco que nos fez adiar a busca do antigo Couto para tempos mais propícios a explorações pedestres. 
Regressávamos à cidade de Montalegre, repetindo-se o mesmo cenário branco por toda a serra.
Na cidade o frio continuava a ser muito, mas só voltámos a reencontrar a neve na belíssima e típica aldeia de Padroso. 
Na mala vinha o pretexto para voltar a terras de Barroso.
 
 


publicado por Cristina Ribeiro às 11:37
 

" À entrada da aldeia transpõe-se a pequena ribeira da Ponte Pequena ( ... ). Tourém , terra de gente dotada de virtudes genuinamente trasmontanas [ aquando ] da eliminaçãodo « couto misto » e da consequente da linha de fronteira, optou pela nacionalidade de aquém-Gerês e aquém Larouco, muito embora estivesse, como está, ao Norte da linha da cumiada do Larouco e do Gerês, a cavaleiro do rio Salas, castiçamente galego.

Por uma espécie de referendum o povo de Tourém quis continuar a ser português "

Sant'Anna Dionísio

 

Daqui resultou o actual desenho cartográfico, em que essa aldeia agro-pastoril, por então foreira do Duque de Bragança, donde que o seu nome tenha sido aí perpetuado em nome de rua, surge como um dedo a entrar em território de Espanha.
 
     Hoje, diversamente do que sucedia no século XIX, as relações entre ela e a vizinha aldeia galega de Randim caracterizam-se pela boa vizinhança.


publicado por Cristina Ribeiro às 11:28
Quarta-feira, 18 de Junho de 2014
 
" O domingo era também o dia do barbeiro. Fui lá depois do almoço, no primeiro domingo em que assisti à Missa. Já tinha feito a barba de manhã, mas a ida ao barbeiro era, para além de tudo, um acontecimento social importante. É verdade! Até barbeiro tínhamos na nossa pouco sofisticada aldeola, para além de muitas outras coisas igualmente necessárias, como mais tarde viria a saber. Não era um barbeiro a tempo inteiro, porque era agricultor e caçador como todos os outros homens. "

 

                                        Trata-se de um pequeníssimo excerto de um relato de viagens. Uma viagem pelo Douro, levada a cabo por um inglês, em 1939. Antigo funcionário do British Museum, John Gibbons tornou-se um pouco conhecido escritor, a quem o editor sugeriu esse relato. Escolheu Portugal porque o baixo custo de vida era mais consentâneo com a sua modéstia, e o Douro por ter aí nascido, e aí possuir uma pequena casa, um seu amigo, que vivia por então em Londres, para onde emigrara muito jovem ainda.

Um livro cativante, onde se espraia a vida no dia-a-dia das gentes dessa região, escrito depois de uma estadia de quatro meses na povoação de Coleja, na freguesia de Seixo de Ansiães, concelho de Carrazeda de Ansiães. Livro que lhe valeu um prémio, dado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, " para a melhor crítica em língua estrangeira sobre o nosso país ".  

                          Foi sem saber ainda da sua existência que, começos deste ano, visitei Coleja. O que vi não o encontro espelhado, totalmente, no « Não Criei Musgo », mas, aqui e ali, dou conta de que " nem tudo o vento levou ", lá, no pequeno povo bem encravado na serra, onde o progresso encontra ainda alguns baraços.


publicado por Cristina Ribeiro às 17:39
Quarta-feira, 14 de Maio de 2014
 
Estávamos na região da Beira Interior, em terras de Riba-Côa.
No distrito da Guarda, depois de visitarmos Castelo Mendo, e antes de chegarmos a Almeida, sede do município, uma encantadora aldeia, de granito também. É Castelo Bom, que, no século XIII, e após ser assinado o Tratado de Alcanizes por Fernando IV de Leão e Castela e D. Dinis, passa a integrar o território português, tornando-se, consequentemente, e tal como todas as praças daquela zona, num importante baluarte de defesa contra futuras invasões do estrangeiro - primeiro do castelhano, depois fazendo frente ao francês.


publicado por Cristina Ribeiro às 23:01
Terça-feira, 06 de Maio de 2014

 
" O primeiro documento que alude a uma fortificação data de 960, ano em que Numão aparece integrada na lista de fortalezas doadas por D. Flâmula ao Mosteiro de Guimarães. Por essa altura, é já claro que o topo do monte albergava uma estrutura militar, ainda que se desconheça, por completo, quais as suas características.
No século XII, a vila integrou o primeiro momento de organização portuguesa, passando pouco depois (1130) para a posse de Fernão Mendes de Bragança, principal nobre vinculado à autoridade de D. Afonso Henriques no nordeste do reino. Nos reinados seguintes, multiplicam-se os novos forais e as sugestões de obras no conjunto. O principal diploma data de 1291 e foi passado por D. Dinis, atribuindo-se às décadas imediatamente seguintes a redefinição do sistema militar. ( ... ) Durante o século XIV, Numão desfrutou de alguma importância, certamente motivada pela posição estratégica face ao rio Douro e à recentemente consolidada fronteira com Leão. No entanto, logo no início do século XV, existem indícios de dificuldades de povoamento, a ponto de D. Duarte ter determinado a instituição de um couto de homiziados. Em 1527, a vila muralhada possuía apenas 15 moradores e, pouco depois, há a referência à habitação permanente do alcaide em Freixo de Numão e não no castelo. Os séculos da Idade Moderna assinalam a progressiva decadência da fortaleza medieval, processo parcialmente invertido pela acção da DGEMN na década de 40 do século XX, que logrou estancar a ruína do conjunto. "
 
 
 
 
O Verão estava no fim e mais uma vez estávamos na sub-região do Douro. Nas cores dos vinhedos o Outono já se fazia sentir, mas o calor era o mesmo de Agosto.
Terras de Foz Côa. Da quinta do Vesúvio, bem lá no cimo do monte fronteiro, uma torre, umas ruínas; " - É o castelo de Numão ", disseram quando perguntámos. E fomos. 
Logo à entrada da aldeia, o busto do nobre Fernão Mendes, a quem todas as terras em redor haviam sido confiadas pelo primeiro Rei de Portugal, e que tem na mão a carta de foral que vai conceder a esta vila.
Um cenário grandioso, não obstante o aspecto arruinado. Velhas amendoeiras ladeavam os velhos caminhos que conduziam ao castelo, que, adivinhava-se, terá sido imponente nos seus tempos áureos. Dentro das muralhas, uma igreja românica, a que foram acrescentados alguns arcos em estilo gótico: é a Igreja de Santa Maria. Ali perto, várias colunas que terão, talvez, pertencido a romano forum.
O silêncio, a sensação de paz são indescritíveis, num lugar que parou no tempo, para dar maior protagonismo à vizinha Freixo de Numão
Mais uma boa surpresa nestas deambulações por pátrias terras.
 


publicado por Cristina Ribeiro às 22:06
Sexta-feira, 29 de Novembro de 2013

Mas que frio!...
Sair do carro, depois de transposta uma das portas da vila, foi, por si só, um grande feito; mas ali estava Miranda do Douro, e havia que nos aventurarmos. E como valeu a pena!
Começamos por visitar a Sé, onde logo perguntei onde encontrar o famoso Menino Jesus da Cartolinha: comovente, a ingenuidade da imagem, e espantoso o enxoval feito com as roupas que os habitantes têm oferecido ao longo dos 90 anos que ela tem.
Cá fora, o vento assobiava, e foi quase embuçados que nos embrenhamos por estreitas e encantadoras ruelas, onde, ao lado de típicas casas de habitação, elegantes construções de índole religiosa e civil chamavam a atenção.
Hora do almoço, e para combater a baixíssima temperatura, teríamos de fazer jus à afamada posta mirandesa; a acompanhar o delicioso naco de carne o também delicioso vinho do Douro, pois então...
Que repasto, Deus meu!...

Tudo visto, demoradamente visto, apesar da inclemência climatérica, foi tempo de passarmos a outra porta da muralha, não antes de " lermos ", ali ao lado, a história da vila no mirandês dialecto.



publicado por Cristina Ribeiro às 19:54
Segunda-feira, 28 de Outubro de 2013
" É um belo percurso, com admiráveis relances panorâmicos. Os olhos não se cansam de percorrer montes e vales, despenhadeiros e barrancos, verdadeiros trechos de pintura romântica, a par de fugitivos quadros de penetrante intimidade. ( ... )
A paisagem duriense é inteiramente diferente de toda a paisagem do País..Como desenho é forte e doce; pela cor,azul e verde; pela expressão, violenta e carinhosa ( ... )
Onde o Marão avança, logo o Montemuro recua. No fundo, o vale do Douro nasceu da luta entre estas duas serras tremendas. (... )
Em boa verdade, o Douro é talvez a região onde se trabalha mais em Portugal. A terra áspera e íngreme, onde, pela disposição, nenhum mecanismo agrícola pode ser empregado, é toda laborada a aço e a pulso.
De grandeza nem falemos. Quem vê o Douro do Alto de Mesão Frio ou do Vale Claro, na estrada de Resende a Lamego, é como seolhasse uma gigantesca taça de bordos de bronze "                              
                                    Pina de Morais, « Guia de Portugal »
 
 
 
 
 
 
 
 
Havia já a intenção de voltarmos ao concelho de Lamego, e, depois, perdermo-nos por essa prodigosa Província do Alto Douro. Mas o propósito foi antecipado por repto lançado aqui na caixa de comentários do blogue: " aconselho as cerejas de Penajóia! ".
 
                                O Marão, vestido com as cores de Maio, ficara para trás já. Depois de Mesão Frio, era o Douro Vinhateiro que avistávamos, a caminho de Peso da Régua. Almoço rápido, e seguimos para Lamego. A Sé que está em obras, mas que pudemos visitar. O castelo, ao cimo de um caminho muito íngreme, em obras também. Dentro do recinto amuralhado, ruelas estreitas levam-nos até à lindíssima igreja de Santa Maria de Almacave, onde se terão realizado as primeiras cortes do Reino de Portugal, corria o ano de 1143, logo após a assinatura do Tratado de Zamora.
Hora de buscar as afamadas cerejas da última freguesia do concelho de Lamego, antes de iniciar-se o de Resende, famoso também pelas mesmas razões frutícolas. E que vistas se alcançam dos seus miradouros sobre o vale!
Deliciosas as cerejas!!!
 
Voltamos a Peso da Régua e tomamos a estrada para o Pinhão. Pelo caminho placas a indicar que por ali poderíamos ir a Tabuaço, S.João da Pesqueira e Armamar. É Tarde já e alguns destinos ficam adiados: na volta do Pinhão iremos a Armamar.
 
Subíamos a serra, já no regresso de terras de Alijó, e ficávamos " sem fôlego " perante tanta beleza que da encosta avistávamos!
Na freguesia, sede de município, uma construção medieval a obrigar uma paragem: é a igreja matriz, dedicada a São Miguel.
 
Perguntamos pela ermida de São Domingos:  fica no alto do monte que dali se avista. Mais, que não maior, porque " melhor é impossivel ", deslumbramento!
Pena a ermida, situada em lugar paradisíaco, se encontrar em obras, tendo em vista, talvez, próxima romaria, e totalmente escondida dos olhares curiosos por altos taipais. Havemos, se Deus quiser, de voltar!
Mas agora a noite aproxima-se já, e é tempo de regressar.
 

 

 


publicado por Cristina Ribeiro às 18:44
Terça-feira, 22 de Outubro de 2013







 

" Rubiães para além das belezas ribeirinhas do rio Coura, possui encantadoras vistas panorâmicas, observadas dos montes da Mourela e tem um património edificado de grande valor cultural. São notáveis  as marcas deixadas pela cultura romana."

 

Este um excerto do texto acabado de, por mero acaso, encontrar no sítio informativo da freguesia do concelho de Paredes de Coura.

 

                            Ora eu passei, durante anos, desde a adolescência até há pouco tempo, semanalmente, a Rubiães; a caminho de Valença do Minho, aonde ia passar todos os fins-de-semana, e, depois, todo o mês de Agosto. Sempre me chamou a atenção a igreja românica, ali mesmo junto à estrada. Mas ficava por aí. Nunca tive curiosidade de conhecer o interior de Rubiães.

Há dias, quando fui à serra d'Arga, foi por lá que fiz o caminho de regresso, e, já debaixo de algumas gotículas de chuva, fui fotografá-la.

Quando quis saber o nome da igreja - S.Pedro -, li que naquelas paragens encontraria um mundo de beleza.

                         Como é que soe dizer-se? ao virar da esquina... 



publicado por Cristina Ribeiro às 15:11
Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...
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