Segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

 

escreve, pensativo. De quando em quando olha o rio, tristemente. Eis que surge por detrás um bando de estudantes, em barulhenta cavaqueira.

- Mais uma vez a cabra da torre tocou, e o senhor António Nobre refugia-se entre os seus papéis; que escreves?

- " O livro mais triste que há em Portugal " ...

 

Um dos que chegavam agora, arranca de supetão o papel onde António acabara de escrever, e declama, com gestos largos

 

" Quando cheguei aqui, Santo Deus! Como eu vinha Nem mesmo sei dizer que doença era a minha, Porque eram todas, eu sei lá! Desde o ódio ao tédio, Moléstias d'alma para as quais não há remédio "

 

- Só teu, poeta da nostalgia e do sentimento...; se queres remédio para os teus males de coração, anda connosco ver as tricanas!

Que não. Tinha de acabar o que começara, pedia-lho esse sentir de que os colegas escarneciam. Os estudantes abalaram, a rir, e António, de novo só, pôde escrever o que a alma lhe ditava.



publicado por Cristina Ribeiro às 13:09
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