Sexta-feira, 20 de Setembro de 2013
" Preciso de ir beber à fonte dos nossos Cancioneiros a água fresca da Língua donzela, a que canta como zagala, nas bailias ágil, matinal nas albas, marinha nas barcarolas. Verbo que ensaia as asas e chalreia, linguagem a fresco, ela me limpa de crostas sobrepostas de adjectivos, da lazeira dos lugares-comuns.
Ei-la, a mezinha adorável - a nossa língua românica, de linho grosso, a doce e rude. E quantas vezes, lendo autores sábios, me lembro dela como o poeta da namorada: " Que soydade de mha señor hei..."


publicado por Cristina Ribeiro às 23:03

Cumprindo um desejo de meu Pai - que mantivéssemos e, se possível, acrescentássemos a biblioteca que nos legou -, no sábado um irmão adquiriu mais um livro, a que bastava o título para o tornar apetecível. Versa, nem mais nem menos, o excelso labor do padre inglês da congregação religiosa fundada por S. Caetano de Thiene, Rafael Bluteau, que no século XVIII coligiu a lexicografia portuguesa no monumental « Vocabulario Portuguez e Latino ».

Com efeito, na obra de João Paulo Silvestre, ora editada pela Biblioteca Nacional de Portugal, lê-se a dado passo: " Compôs o mais extenso repositório da memória da língua até ser progressivamente substituído pela obra moderna de Morais Silva ".

   Tem tudo para ser um livro daqueles que prendem a atenção de todos quantos se interessem minimamente pela Língua Portuguesa. 

Mas eis que, logo nas primeiras páginas, deparo com um senão que tenho, e felizmente nisso sei que estou muitíssimo bem acompanhada, por intransponível: aderiu ao chamado acordo ortográfico, sendo frequentes os " mamarrachos " como « expetativa ».

                       

                               Meu Deus, até a Biblioteca Nacional!...


Apenas posso desejar que a sensatez resolva visitar aquele palácio para as bandas de S. Bento, que essa monstruosidade seja reduzida a cinzas, e, consequentemente, tal Biblioteca volte a editar este livro, agora em termos decentes...


publicado por Cristina Ribeiro às 22:42
" A historia da origem da lingua portugueza é como a historia de todas ou de quase todas as linguas: amalgama de muitos idiomas, rude em sua infancia, polida e culta e mais e mais engrandecida pelos escriptores, pela philosophia e pela necessidade "..
Assim escrevia, em 1870, António Francisco Barata no seu « Advertencias Curiosas sobre a Lingua Portugueza »
                         E se é certo ter ela origem nessa amálgama, viu-se já que a sua fonte primeira é o chamado latim vulgar. É com esse passado matricial que os " desertores " querem acabar. 
Como referiu um comentarista sobre postal versando o mesmo tema, " Com este governo não se pode contar, pois nada da cultura lhe interessa.
Temos de ser nós, os anónimos Portugueses, a escorraçar o aborto ortográfico ! "; mesmo! apenas nos resta resistir, e nessa resistência encontramos, felizmente, nomes de peso nos meios culturais, que nos dizem que a luta não terminou ainda, seja qual for a deliberação dos políticos.


publicado por Cristina Ribeiro às 22:39

" ( ... ) Agora, para as Alturas, é a cavalo, através da serra quase sem árvores, em chão roxo pelas flores das queirogas e amarelo pelas flores da carqueja: - montes de mosto onde chovesse saraiva de enxofre...

Ao redor, montanhas altas e varridas. Começa a ver-se, à esquerda, em baixo, um longo vale abeberado de verdura e de fartura, que se prolonga, formando o planalto da aldeia das Alturas, e se estende para lá, até às veigas fartas de Boticas. Serras em torno. ( ... )

E neste ondulante mar esverdido, de montes vagueiros e baldios, sobe aos céus, contra os homens, a queixa amargurada das terras que querem ser mães de florestas úteis e belas, que aproveitam às gentes e, em sua beleza basta e religiosa, agradem a Deus. "

« Jornadas em Portugal »


publicado por Cristina Ribeiro às 22:34
 

Desta feita é a visão da serra do Gerês, passava o Autor por Terras de Bouro, que inspira a Domingos M. da Silva esta « Apologia da Montanha »:

" A sua presença obriga a estacionar aqui, ao menos por uns momentos, na arrebatadora contemplação de uma das mais caprichosas formas e belezas da Terra.

    O perfil gigantesco e bizarro da serra geresiana, sem parelha no sistema orográfico das montanhas peninsulares, deixa impressão indelével na alma do visitante. .............................................................................................................................................................................................................
 
É a montanha boa inspiradora e conselheira. Na profundeza dos vales isolados entre montanhas, à funda solidão a que voltava sempre que  precisava de inspirar-se, saindo depois com o ânimo confortado e a vontade decidida para trovejar contra os desmandos da sua época, o abade insigne de Claraval, o intensificador da vida monástica, o que ditou as leis da cavalaria das cruzadas, o homem que recusou o supremo pontificado e foi mais glorioso na sua grande humildade e simplicidade, deveu o segredo da sua descomunal estatura moral ao retiro do mundo. Altíssimo monte de santidade, como lhe chama Frei Luís de Sousa na História de S. Domingos, também a estas longínquas paragens dos vales de Bouro, nas solidões do áspero Gerês, chegou o eco da sua incomparável actividade, quando o primeiro Afonso interveio na restauração do  velho mosteiro das montanhas. "

« Entre Homem  e Cávado »


publicado por Cristina Ribeiro às 22:29
A dignificação política do nosso País conseguir-se-á quando os homens bons de Portugal se resolverem a arrancar os Municípios das mãos em que caíram, cortando pela raiz o partidismo."
António Sardinha

         Num ensaio que intitulou de « Teoria do Município », António Sardinha, depois de evocar o Municipalismo de Alexandre Herculano - " O estudo do Município, nas origens dele, nas suas modificações como elemento político, deve ter para a geração actual subido valor histórico, quando a experiência tiver demonstrado a necessidade de restaurar esse esquecido mas indispensável elemento de toda a boa organização social " - , e de asseverar que a concepção de sociedade que viria, pelo contrário, a triunfar " gerou, como não podia deixar de gerar, o cesarismo - e com ele o absolutismo mascarado de centralização ", ' convoca ' os depoimentos de pensadores tais como Savigny ( " Se se analisam e decompõem os elementos orgânicos dum Estado, encontraremos em toda a parte o município " ), Tocqueville ( " É a primeira escola onde o cidadão deve aprender os seus deveres políticos e sociais " ), Royer-Collard ( " O município, tal como a família,existiu antes do Estado. Não foi a lei política que o constituiu, porque foi achá-lo já formado " ) ou Cânovas del Castillo - fundador do Partido Liberal Conservador de Espanha - ( " Um pueblo que no tiene liberdades locales, carece de hogar " ).
                                              ( antes editado no blogue Guimarães da Liberdade )


publicado por Cristina Ribeiro às 22:25
" Quando o anno de 1868 pertencia já ao passado, scismavas á meia noite sobre o mau rumo que te pareceu levarem as nossas letras. Eu sou um pouco mais crente, e menos atrabiliario: á entrada de 1869, estendo os olhos ao futuro, e espero e creio muito, porque já não são de pouca monta as primicias que nos offerece o anno litterario de 1869. Falo das Flores do campo de João de Deus. ( ... ) não escolho, para te escrever, a hora lugubre dos phantasmas. Coméço a escrever-te ás horas d’uma esplendida manhã, espalhando os olhos por aquellas duas margens do nosso Mondego: a relva rasteira que as veste, e que me fala de vagas esperanças, ha de desentranhar-se em flores e frutos. Deixa-me crer muito no dia de ámanhã.
E porque não virão as flores da poesia derramar perfumes sob este céu de Portugal, neste jardim da Europa, onde já suspirou melodias Bernardim, Camões, Garrett, Castilho! Não morre a poesia portugueza: a estaturada deusa ainda não tremeu na peanha; e quando os iconoclastas do bello quizessem contra ella erguer braços profanos, a quantos apostolos da arte não teriam de suffocar a voz!
Deixa pois cantar os poetas que levantaram a vista do pó da terra, onde tudo é limitado como a materia, e vil como o gusano das ossadas. Deixa que eu te fale de um poeta, cujo espirito é aguia que raro avisinha a ponta das azas aos marneis da sociedade. A gente pasma da altura a que se eleva aquelle espirito, e acontece ás vezes que a nossa vista não pode acompanhar tão levantados vôos: perde-se elle no vacuo, e, quando divaga em mares de luz, ficamos nós em trevas, sem ver a direcção que elle toma…
João de Deus não canta para a sociedade, canta para si. Quer discorra por vergeis de poesia singela e perfumada, quer se eleve a alturas desmedidas, não se importa de que não lhe oiçam nem entendam o canto sempre harmonioso. É talvez por isso que elle não publicou, nem publicaria as Flores do campo.
Ao amigo que lh’as estampou, muito devemos nós todos os que presamos as nossas boas letras. "

Cândido de Figueiredo," Cartas a J. Simões Dias ", in « A Folha »


                   * « Flores do Campo »


publicado por Cristina Ribeiro às 22:18

" Hoje, quando teríamos de reconcentrar a seiva da velha raça, como as árvores que se restauram no Inverno, eis-nos pulverizando em vis discórdias as forças sobreviventes, esgotando-as em lutas fratricidas, desnacionalizando-nos em contacto com doutrinas dissolventes, apossadas de um delírio suicida, atraiçoando as virtudes tradicionais.
Chegou a hora intransferível de voltarmos a ser portugueses, despojando-nos das várias denominações sectárias que nos esfarrapam, pois só na unidade da acção e patriotismo encontraremos as forças resistentes e estimulantes da salvação. "



    Escrevia assim, em 1925, Carlos Malheiro Dias na « Exaltação à Mocidade », mas, como acontece com tantos escritos contemporâneos, ou anteriores, estas palavras poderiam bem ser proferidas em dias de hoje, flagrante que é a similitude entre os tempos então vividos, com os mesmos males a afligirem a sociedade portuguesa, e os que hoje, desgraçadamente, vivemos.

Nada aprendemos.


publicado por Cristina Ribeiro às 20:22
Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...
mais sobre mim
Setembro 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
19
21

22
23
24
27
28



links
pesquisar neste blog
 
tags

todas as tags

subscrever feeds
blogs SAPO