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O Tempo Esse Grande Escultor

Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...

O Tempo Esse Grande Escultor

Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...

Estava tudo pronto para os receber.

Cristina Ribeiro, 01.12.10

 

Não era a primeira vez que o genro vinha de Lisboa, com a sua filha, com quem casara havia já cinco anos, passar aquele dia e noite de 31 de Dezembro à aldeia trasmontana. Mas este ano a excitação era maior, porque com eles vinha o seu neto de três anos; decerto que nunca vira neve, e tudo estava tão lindo! Estava frio, mas toda a tarde do dia anterior o seu homem estivera a rachar canhotas para alimentar a lareira durante todo o dia e toda a noite. E já verificara um sem número de vezes se nada faltava para fazer daquela passagem de ano uma noite inesquecível, que não os fizesse arrepender de terem aceitado o convite.


E lembrou-se da Primavera...

Cristina Ribeiro, 01.12.10

 

Quando olhou a fotografia, recuou um tempo e foi buscar ao fundo da memória aquelas tardes de doce vaguear, em que, depois dos trabalhos escolares feitos, tinha todo o tempo do mundo, e nele encontrava tempo para fazer tudo de que gostava.

No campo cheio de florinhas brancas e amarelas encontrava sempre o sítio ideal para se entregar à leitura, até que o cantar de um pássaro a fazia fechar o livro, para o olhar entre os ramos de uma árvore ou junto ao rio que por ali passava.

Pouco depois era uma borboleta que lhe distraía o olhar: uma daquelas borboletas muito coloridas, que nunca mais vira.

Agora a Primavera estava à porta, mas passava as tardes enfiada no escritório.

Não podia esquecer-se de mandar ampliar a fotografia: tê-la na parede, em frente, seria a forma de estar sempre entre as flores, e junto ao rio.


« Esta é a Ditosa Pátria Minha Amada »

Cristina Ribeiro, 01.12.10

 

 

Era a frase que ajuntava à imagem de um homem a segurar numa mão, fora da água, por mor de o não molhar, um rolo de papéis, enquanto que com o outro braço nadava, e enfrentava as ondas que ameaçavam engoli-lo.

             Esta uma das capas dos cadernos pautados, azuis, verdes ou laranja onde ia desenhando as letras que, esforçadamente, a D. Maria nos ia revelando, e que adquiria na Venda da avó.

Como um Poema na noite escura

Cristina Ribeiro, 01.12.10

 

 

«Noite de agonia. Sofrimento moral e sofrimento físico conjugaram-se para castigar-me a alma e o corpo. O demónio da solidão veio visitar-me e tive de acender a luz para expulsá-lo.  Manhã abominável como a noite. Mas bastou uma palavra tua para deter-me no caminho a que regressava. Foi como se a clara luz dos teus olhos dissipasse as minhas sombras»

(João Bigotte Chorão, in « Diário Quase Completo)

« Ah!, mundo esmagador das recordações, Emendadas umas nas outras, aboiando como de mar sem fundo ! »

Cristina Ribeiro, 01.12.10

     

 ( Tomás de Figueiredo, in « A Toca do Lobo » )

 

 

 

 

       Uma  simples alusão ao ramo de cheiros fez com que o pensamento voasse até Évora Monte, até junto de umas senhoras vestidas de preto, sentadas no degrau da casa branca, com quem há anos mantive um a animada conversa, num  Domingo de Páscoa; em frente da casa, um jardim, pequeno, cheio de flores de muitas cores, mas com lugar para as ervas aromáticas; os cheiros que delas emanavam.


E a Gala,

Cristina Ribeiro, 01.12.10

 

 

que, de tão meiga, me lembra  a Susana de que fala Tomaz de Figueiredo: « A cadela encostou-lhe a cabeça aos joelhos, levantou uma das patas, maneira de pedir licença de se atirar por ele acima, no seu jeito de abraçar. Os olhos húmidos perguntavam-lho ».

Hoje, a Maria Teresa,

Cristina Ribeiro, 01.12.10

a sobrinha de quatro anos, a graciosidade em pessoa pequenina, de beleza difícil de descrever, tanto na fisionomia como nos gestos, de uma meiguice que rapidamente se transforma em teimosia- já tinha dito que também é Touro? :) -, foi ao " Senhor Doutor Simpático", numa consulta de rotina: que estava " óptima, uma futura top-model "...; não, Senhor Doutor: fosse Botticelli vivo e teria nela a mais formosa das Musas, com um rosto e uns cabelos que fariam a própria Vénus ficar pálida de inveja.

Uma " Boticelli" de lágrima fácil, como hoje, durante o almoço, mais uma vez confirmámos- vale a solícita presença do irmão, o Zé João, sempre pronto a consolá-la, a protegê-la dos   grandes males que já a atormentam.


E foi num dia assim,

Cristina Ribeiro, 01.12.10

 

 

em que do azul cinzento e frio do céu caíam farrapos brancos e frios, aos quais se vinha agora juntar uma chuva miudinha, que o  Zé Miguel, pequenino ainda, nos mostrou que já sabia ler.

                 Devidamente couraçados contra o frio, que por esta altura é muito intenso na cidade mais alta de Portugal, deambulávamos 'preguiçosamente pelo centro, quando começou a juntar as letras abaixo da estátua d'«O Povoador». Que aprendera com « A Rua Sésamo». Era a estreia em público.


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