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O Tempo Esse Grande Escultor

Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...

O Tempo Esse Grande Escultor

Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...

« Na obra de Júlio Dinis, o Minho, a raia minhota, o entre Douro e o Minho e o Porto

Cristina Ribeiro, 23.05.10

 

( Silva Porto e a Natureza )

 

tiveram um singular pintor ( ... ) Escritor popular, pode dizer-se, pela adesão que mereceram sempre, temas eminentemente sociais, na medida em que reflectiam a vida da sua época, e porque tudo é povo- sejam a sua burguesia finissecular, os seus lavradores, ou os seus fidalgotes rústicos.

Uma certa candura que não perdeu encanto com o tempo, apesar da candura ter passado de moda. Um certo romantismo, mas também um instinto psicológico afinado... »

 

( Luís Forjaz Trigueiros -« Paisagens Portuguesas, Uma Viagem Literária » )

Só podia ser isso...

Cristina Ribeiro, 23.05.10

 

( Lagoa de Santiago-freguesia das Sete Cidades-S. Miguel )

 

 

Quando cheguei ao continente, mais do que uma pessoa me disse: - quando falávamos contigo por telemóvel estavas com uma outra voz, de felicidade; agora...; o que aconteceu? Encolhia os ombros, mas para mim pensava que isso só podia acontecer porque, aliado ao facto de estar rodeada de tanta beleza, por uns tempos esqueci o mal que vai corroendo este país, sem apelo nem agravo.

Foi um comentário no Estado Sentido,

Cristina Ribeiro, 22.05.10

 

 

deixado pelo António: " Pelo que apreendo do seu pensamento que tenho acompanhado ao longo dos tempos, deduzo que a Cristina não se revê em qualquer modelo actualmente existente ".

Depois de ter respondido que, obviamente não, reconhecendo o meu idealismo, o de viver numa monarquia constitucional como a que ( por tão pouco tempo! ) foi protagonizada por D. Pedro V, fiquei a pensar: não é só em termos políticos que me sinto desenraizada - vejo-me a viver num país cuja História me enche de orgulho, ainda que, vistos à luz d'hoje, alguns dos seus episódios não sejam motivo de orgulho, mas, quando olho à minha volta me entristece - muito -: antes do mais porque já tenho idade para ter visto como ele era antes; quando olho para os pedaços da minha aldeia que resistiram à avalanche destrutiva lembro que toda ela era assim, e recordo que, antes desta onda gigante de consumismo, tudo era mais simples, e éramos mais felizes. E lembro que, de certo modo, a qualidade de vida das pessoas era muito melhor: havia muitos menos automóveis nas estradas, mas havia transportes públicos, sem se ouvir a toda a hora buzinadelas, e o caminho, a estrada, era quase toda nossa.

Quase toda a gente na aldeia tinha o seu pedaço de terra, a cujo cultivo se dedicava em exclusivo, ou acumulava com o trabalho nas fábricas vizinhas, enquanto a mulher, em casa, ia trabalhando nessa mesma terra- quem não a tinha, contava muitas vezes com a solidariedade dos vizinhos, para quem, muitas vezes, trabalhava ao jornal.

É a perda deste tipo de vida que explica que já não haja, com poucas excepções, como quanddo os emigrantes vêm de férias, tantos bailaricos, tantas romarias.

Não é saudosismo, é constatar que o desenvolvimento do país poderia ter sido feito sem perda de identidade.

E começar os estudos no secundário

Cristina Ribeiro, 19.05.10

 

 

num antigo convento, construído no século XVI, no início da « Rua de Elite », que sempre foi a Rua de Santa Maria, por iniciativa de um cónego da Colegiada de Guimarães, em honra de Santa Clara, essa companheira na Caridade do Santo de Assis?

Nesse edifício, onde funcionara já o Liceu, e onde agora está instalada a Câmara Municipal.

 

Por essa altura, a  paz, que agora associo aos claustros, só podia sentir-se quando estávamos nas salas de aula, porque nos momentos de recreio, o silêncio, que lhes é próprio, esse dava lugar à algaraviada dos bandos de rapazes e raparigas, de dez e onze anos, que éramos então

 

 

 

Alguns anos mais tarde haveria de lá voltar, quando, a estudar já no Liceu, e em horário pós-aulas, com a Professora de História, e alguns colegas, estudava documentos guardados no Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, na altura ainda a funcionar na Capela do Convento.

O destino primeiro era Ribeira Grande, a segunda cidade da ilha,

Cristina Ribeiro, 17.05.10

 

 

( Ermida do Espírito Santo- Ribeira Grande - S. Miguel )

 

 

e capital do município do mesmo nome. Passadas muitas freguesias piscatórias, pois que confrontam com o Oceano Atlântico, como Rabo de Peixe, onde testemunhei a simpatia dos habitantes: batemos à porta de um senhor desconhecido, para que nos deixasse fotografar o  Império, em honra do Espírito Santo, que é celebrado com muita devoção em todo o arquipélago, mas com preponderância em S. Miguel, e logo as portas se escancararam, sem perguntas.

 

 

" Império ", em honra do Espírito Santo

 

 

As pessoas todas se conheciam, pelo que o cumprimento era normal, mas eu, uma forasteira, fui tratada como um deles.

 

 

 

Estava na cidade a comprar umas peças típicas de cerâmica, e o meu telemóvel não parava de tocar; diz-me o guia: - bem, era suposto eu receber mais telefonemas...

- Sabe, respondi-lhe, é que hoje faço anos e todos me estão a dar os parabéns...

- Ah! diz o Paulo, então os meus Parabéns!

E ofereceu-me este azulejo pintado à mão

 

 

 

 

para que não esquecesse as ilhas que, como diria Raul Brandão, ainda me são desconhecidas...

Acabáramos de almoçar no concelho do nordeste

Cristina Ribeiro, 15.05.10

e dirigimo-nos para  Povoação, onde desembarcaram os primeiros colonos;  foi a caminho da vila onde melhor vi o porquê de se chamar a esta a Ilha Verde, apesar de verde ser toda ela:

 

 

 

 

 

as vacas pastavam preguiçosamente nos prados, onde não se via um espaço de outra cor, por pequeno que fosse, nas lombas do Cavaleiro, do Carro, do Botão e dos Pós ;  deverão esse nome - Lombas - talvez ao facto de se tratar de pequenas elevações no terreno.

 

 

Chegados à vila, inundada de sol, uma surpresa me aguardava: uma aldeia de simpáticos macacos, que não se coibiram de mostrar o seu contentamento por verem humanos a chegar - era a promessa de uma gulodice...

E foi um momento de ternura: estender uma batata frita e uma mãozinha pegar nela com uma delicadeza imensa...

Quando viemos embora, disse-lhe adeus com a mão, e ele, ou ela, correspondeu ao gesto com uma meiguice indizível.

 

O nevoeiro matinal dizia-me que a não veria, mas...

Cristina Ribeiro, 13.05.10
( Lagoa do fogo -Serra de Água de Pau .S.Miguel )

 

 

 

" (...) e o mar largo reflecte a brancura das nuvens até se confundir com a névoa no

horizonte. Isto de repente, lá em baixo, isolado do mundo e perdido no mundo... Parece

um sítio onde ninguém pôs os pés depois que os navegadores aqui abordaram – verdeazulado,

em catadupas de verde-azulado, com as quedas despenhando-se de toda a

altura do paredão entre silêncio e nuvens. É uma paisagem imaculada. Esta água ainda

não trabalhou para ninguém: está aí para completar o quadro virgem que os montes

parecem contemplar em silêncio. É um sonho verde que ameaça fundir-se na grande

nuvem cinzenta que se arrasta nos píncaros – é um sonho que vive numa solidão

integral, ele e as névoas que descem devagar e vão submergi-lo. Às vezes descobre-se o

sol, mas o sol é um acto brutal de impudor, como o de arrancar um véu e desnudar uma

virgem. Aqui só a luz velada, que cheira a água e a bravio, e quase não distingo da

flauta mágica que ouço lá para o fundo, desta música das aves que não cessa – rechio,

bio – rechio, bio – e que nunca ouvi assim. Chego a confundi-la com a voz da paisagem

húmida e verde, da paisagem casta e melancólica, a que só o canto dá vida e cor ".

 

( Raul Brandão, « As Ilhas Desconhecidas » )

Uma « Crónica Romanceada »

Cristina Ribeiro, 11.05.10

 

 

 

o primeiro livro que li de Aquilino Ribeiro - «Casa Grande de Romarigães », leitura em que reconheci os passos do tão estimado Camilo, indo ainda mais longe, até criar um estilo próprio.

É sobre o escritor de Sernancelhe, que ao livro antes citado de Luís Forjaz Trigueiros vou buscar as seguintes linhas:

    " Ao cabo decidimo-nos pela visita a Romarigães, atirada agora por Aquilino Ribeiro para as bocas do mundo. Lera precisamente agora o seu livro e a visita à Casa Grande seria a ilustração viva da leitura.(...) Ao começo da tarde metêmo-nos a caminho.

 Passámos Ponte de Lima, os seus solares, eidos e velhas quintas.

( ... ) Levávamos um fito certo. Por isso não nos detivemos lá em baixo em Aurora, não demos um salto a Bertiandos, não parámos no Cardido, nomes amigos no leque da paisagem limenha. Dentro em pouco avistámos o planalto de Coura e já se deparava a torre restaurada da capela de Romarigães: carvalhos, salgueiros, olmos, tudo isto faz a mata que envolve a Casa Grande e tornou a Aquilino esta « abertura » sinfónica que são as primeiras páginas do seu livro: « de um pinhão que um pé de vento arrancou ao dormitório da pinha-mãe e da bolota que a ave deixa cair no solo, repetido mil vezes, gerou-se a floresta »

(... ) Eis Aquilino num quadro que está longe de ser o seu, as terras do demo são bem diferentes daquelas. (...) Porque ele, homem de serras beiroas ia ali de vez em quando. (...) Não me disse Aquilino, nem eu lho perguntei, se a famosa resma que descobriu «  num armário não maior que o nicho dum santo embutido na ombreira da janela » existiu de facto, assim mesmo, ou faz parte também da ficção..."

 

 

       Esse seria o primeiro, na verdade, mas logo a estante começou a encher-se com os livros deste escritor regionanalista, onde a fala do povo emerge em cada frase numa pureza castiça e sã.

O melhor Museu de Artes e Ofícios

Cristina Ribeiro, 10.05.10

 

 

 

que vi até hoje está em Ponta Delgada, muito a fazer lembrar aquela aldeia típica regional, em Mafra, do saudoso Mestre José Franco.

A escola primária com as tradicionais carteiras e quadro na parede, a velha botica-farmácia, a mercearia com a velha balança que sempre me lembro de ter visto na venda da minha avó, a alfaiataria, a cozinha com os utensílios de então, o estúdio fotográfico, a tipografia, a casa do ferreiro, com elementos que me são tão familiares, como a bigorna e o torno, a retrosaria, onde fui balconista por momentos; ...tudo a lembrar a minha infância.

Quando entrámos na oficina de tecelagem, não me contive sem contar ao Paulo das fugas da minha mãe ,

                                                                        Foi uma breve incursão ao passado, que terminaria mal passámos a porta do museu.

 

 

 

 

Mas antes tirou-me esta fotografia no tear, dizendo " esta é para a tua mãe "