Quinta-feira, 13 de Maio de 2010
( Lagoa do fogo -Serra de Água de Pau .S.Miguel )

 

 

 

" (...) e o mar largo reflecte a brancura das nuvens até se confundir com a névoa no

horizonte. Isto de repente, lá em baixo, isolado do mundo e perdido no mundo... Parece

um sítio onde ninguém pôs os pés depois que os navegadores aqui abordaram – verdeazulado,

em catadupas de verde-azulado, com as quedas despenhando-se de toda a

altura do paredão entre silêncio e nuvens. É uma paisagem imaculada. Esta água ainda

não trabalhou para ninguém: está aí para completar o quadro virgem que os montes

parecem contemplar em silêncio. É um sonho verde que ameaça fundir-se na grande

nuvem cinzenta que se arrasta nos píncaros – é um sonho que vive numa solidão

integral, ele e as névoas que descem devagar e vão submergi-lo. Às vezes descobre-se o

sol, mas o sol é um acto brutal de impudor, como o de arrancar um véu e desnudar uma

virgem. Aqui só a luz velada, que cheira a água e a bravio, e quase não distingo da

flauta mágica que ouço lá para o fundo, desta música das aves que não cessa – rechio,

bio – rechio, bio – e que nunca ouvi assim. Chego a confundi-la com a voz da paisagem

húmida e verde, da paisagem casta e melancólica, a que só o canto dá vida e cor ".

 

( Raul Brandão, « As Ilhas Desconhecidas » )


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publicado por Cristina Ribeiro às 23:28
Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...
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