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O Tempo Esse Grande Escultor

Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...

O Tempo Esse Grande Escultor

Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...

Saíra de casa com a ideia de errar sem destino

Cristina Ribeiro, 21.04.10

 

Fora com as duas mãos que agarrara o convinte dos amigos dos pais.

Era Junho, e estava mesmo precisada daquelas férias. Toda a tarde vagueara por entre searas verdes , mas que, pelo que lhe haviam contado os seus anfitriões, depressa se tornariam douradas. Ia neste pensar, quando pela frente lhe surgiu uma casa abandonada que logo lhe lembrou a casa da Menina dos Rouxinóis, que encantara Almeida Garrett; também ali havia uma janela, coberta de verdes trepadeiras que lhe atiçava a imaginação. Como o escritor, interrogou-se quem teria lá vivido. Mas não viu ninguém que pudesse satisfazer-lhe a curiosidade. O sol começava a pôr-se já, e achou por bem encetar o caminho de volta, mas a sua cabeça ia conjecturando segredos guardados para sempre por aquelas paredes.

Era um rádio assim.

Cristina Ribeiro, 21.04.10

 

 

Duas a três horas sem electricidade, numa noite de muito vento e chuva, naquele tempo que se segue ao jantar, passado a ver televisão, a ler ou a navegar pela internet. De repente ficámos sem saber o que fazer.

Juntámo-nos na sala, mudos e quedos, até que o silêncio foi quebrado pela minha mãe: que até os 15/16 anos ( não soube precisar ), os seus serões eram assim- no Inverno, em que escurecia mais cedo, a minha avó cozinhava à luz de uma candeia presa num gancho que pendia do tecto. A mesma luz que alumiava o jantar e o arrumar da cozinha, enquanto os homens jogavam à sueca.

No final, o meu avô tirava a candeia e, à frente de todos, ia abrindo caminho até aos quartos. No móvel de cada um deles havia um castiçal de latão, com uma vela e fósforos que cada um acendia à luz da candeia, que o avô levava. Dava-lhes um tempo determinado para terem a vela acesa, até que ia de quarto em quarto verificar se todos a tinham apagado.

Até que um dia a electricidade chegou. Parece que a inauguração foi de arromba, com discurso do regedor, muito aplaudido.

A  primeira compra dos avós foi um rádio, grande, que ainda cheguei a conhecer. Os vizinhos iam todos ouvir, principalmente quando havia jogos de hóquei em patins, desporto que parece ter gozado de muita popularidade naquela altura.

No momento em que a minha mãe contava que a avó quase colava o ouvido ao aparelho, antes d'o avô, mais viajado, lhe dizer não ser necessário, acenderam-se as luzes, e cada um de nós retomou a rotina de todas as noites, mas contente por ter ouvido mais uma das histórias que a minha mãe conta.

Vi-o em Munique.No momento em que já não podiam ocultar

Cristina Ribeiro, 20.04.10

 

 

o amor que os inflamava, Francesca e o seu cunhado Paolo, lêem o romance entre Lancelot, o primeiro dos cavaleiros da Távola Redonda, na corte do rei Artur, e a futura rainha, Guiniviere, são surpreendidos pelo marido daquela, e irmão deste, Giovanni.

Razão pela qual Dante os irá situar no Inferno da sua « Divina Comédia » como " pecadores adúlteros ".

Dez de Agosto. Primera tarde na praia.

Cristina Ribeiro, 20.04.10

 

                                                                                                 

 

Do saco tiro o livro de Camilo «  O Senhor do Paço de Ninães » .Começa o escritor por dizer que " Estamos no Minho, o leitor e eu ". Ora eu tinha-o deixado de manhã bem cedo, mas foi fácil a ele voltar, tão fresco estava na retina, e andar " um quilómetro, em vinte minutos, se não ( parei ) algumas vezes a respirar o acre saudável das bouças, e a ver o pulular dos milharais e a ouvir as toadas das seareiras que cantam. ".  Não, acho que demorei mais tempo, não só para este cheirar, ver e ouvir, mas também porque o calor de Agosto pedia que molhasse os pés em todos os riachos que fosse encontrando, que muitos são na " légua andada de Vila Nova de Famalicão até Guimarães ".O espírito voou até lá; o corpo, esse, continuava a sentir o sol de fim de tarde.Na região mais longínqua do país. Os dois, espírito e corpo, haviam de se encontrar, quando guardei o livro no saco.

" Já não leio; releio ",

Cristina Ribeiro, 20.04.10

                                                                               

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 dizia José Luís Borges; mas o escritor argentino já tinha, quando assim falava, na sua conta corrente milhares e milhares de páginas lidas, pelo que podia dar-se a esse luxo. Não é, evidentemente, o meu caso, pelo que ainda há à minha espera muitos livros a serem folheados pela primeira vez. Não obstante, é uma das coisas de que gosto: reler. Voltar aos livros de que gostei, e que me garantem uma segunda leitura que me mostrará coisas passadas despercebidas, porque por elas passei quase como raposa por vinha vindimada. Pormenores ricos, que se escondem nas entrelinhas. Tenho feito isso com os dois grandes do século  XIX - menos com Eça, é verdade -, mas, do mesmo modo, com escritores mais próximos de nós no tempo, com a balança a pesar mais para os seguidores da Escola Camiliana

Hoje, porém, os meus olhos pararam num outro livro, do sécu XIX também: voltar a acompanhar Almeida Garrett, nas viagens que fez pela nossa terra.

Claro que não lembro como passava a noite do dia seis para sete de Outubro

Cristina Ribeiro, 20.04.10

 

                                                                                         

 

no tempo em que frequentei a Escola Primária. Noites agitadas, muito provavelmente, porque, impreterivelmente, na manhã desse dia começavam as aulas.

Não retenho o primeiro dia das outras classes, mas tenho muito nítida a minha ida à escola na 1ª Classe: acompanhava-me o segundo irmão ( o mais velho estaria já a preparar, talvez, o regresso às aulas, mas no Liceu ) e lembro de a D. Maria ter dito ao meu irmão, que passara também ele pela Escola de S. Martinho de Sande, e já era, pois, seu conhecido, que eu era mais bonita do que ele: a forma que encontrou para que me sentisse bem.

" Lá têm ido todas, umas atrás das outras, as nossas casas.

Cristina Ribeiro, 20.04.10

                                                                                                 

 

 

Nunca me conformei com perdermos a que fora dos meus avós maternos, onde viveu a minha madrinha, a tia Micas. Belas tardes lá passei em criança, ou quando lia Camilo! "

 

É por aqui, pelas casas que amou na sua Vila do Conde natal, e para onde voltará, depois de andanças muitas, que o levariam ao Porto, Coimbra e Portalegre que, em mais um dia de chuva, aceito o convite para viajar com um escritor nortenho; desta feita é José Régio quem me guia os passos, ele que em tempo assim, do mesmo modo,  se " enterra na cadeira de lona, ouvindo em redor a monotonia da chuva " deixando que o  seu espírito flutue " ao sabor do que ia lendo ".

 

Mas Vila do Conde seria para o escritor um mundo muito maior do que as casas, de onde partia para outros lugares vividos, como o café e o club, até chegar à praia e ao mar que, aliado ao sol , ao rio e ao céu , o " impede de cair na negrura " que nele " sobe ", quando confessa nas « Páginas do Diário Íntimo » viver na " intimidade do Mar e dalguns livros queridos ", esse Mar onde vê " o resumo da Natureza ".

             Até que a necessidade de ganhar a vida o faz rumar, começava o ano de 1929, ao Sul, a Portalegre, aonde vai leccionar no Liceu Mouzinho da Silveira, depois de o ter feito, provisoriamente, no Porto.

Só em 1962 voltará, definitivamente, pois que a ela regressava sempre que podia, à terra que tanto o inspirou.

Tinha dez anos quando rebentou a II Guerra Mundial.

Cristina Ribeiro, 20.04.10

                                                                                 

 

 

Conta que por esses dias, todas as tardes se dirigia a casa do Professor Marques, que o acompanhava desde os seis anos, o ensinara, entre outras coisas, a ler, escrever e fazer contas, a fim de ler o jornal que, diariamente, relatava da evolução do conflito, e que, como bónus extra, ainda comia bolachas no lanche que a empregada do senhor Marques sempre providenciava.

Dele diz ter sido o grande Mestre que o preparou para a vida, e lhe pegou o bichinho do amor aos livros, desde o momento em que lhe abriu a porta da sua biblioteca.Uma pessoa de quem fala amiúde, e entusiasticamente: uma 4ª  Classe melhor que muitos 12ºs anos !...

Do baú do meu pai

Cristina Ribeiro, 20.04.10

 

Vizinho do professor, o senhor Marques, com ele aprendera a ler na Cartilha Maternal, de João de Deus, ainda antes de entrar na escola, em 1935, mas quando nesse ano começou a ir para aquela mesma casa grande, oferecida à aldeia pelos senhores de Lisboa, donos da quinta ao lado, que também eu frequentaria muitos anos depois, era este o livro que levava na sacola de pano, que cruzara no peito. Ao carinho natural que se dedica ao nosso livro da primeira classe, acresce o facto de na contracapa estar inscrita uma data para ele especial, porque foi o ano em que nasceu: 1929.

A educação de um Príncipe Real.

Cristina Ribeiro, 20.04.10

 

« Meu Senhor

 

Quando Vossa Alteza chegou á idade em que a superintendencia da sua educação tinha que ser entregue a um homem houve por bem El-Rei nomear-me ayo do Principe Real. Foi Sua Magestade buscar-me às fileiras do exército. ( ... )

Escolhendo um soldado para vosso ayo que fez El- Rei? Subordinou a educação de Vossa Alteza ao estado em que se acha o paíz. N'esta epocha de dissolução, em que tão afrouxados estão os laços da disciplina, entendeu Sua Magestade que Portugal precisava mais que de tudo de quem tivesse vontade firme para mandar, força para se fazer obedecer ( ... )

Tão bom Rei, tão bom soldado foi D. Pedro V nos hospitaes como outros no campo de batalha, porque a coragem e abgnação são sempre grandes e nobres seja onde fôr que se exerçam e tudo que é grande e nobre è proprio de Rei e de soldado.

Não faltará ensejo a Vossa Alteza de revelar aquellas qualidades.  Não lhe escassearão por certo provações e cuidados, revezes que trazem o desconforto ao espírito. Para todos eles carece Vossa Alteza de estar preparado temperado pela educação, pelo estudo dos bons exemplos pela firme vontade de vir a ser um Principipe digno d'esse nome e do da sua Caza. E para ser Principe é preciso primeiro que tudo ser homem (... )

 

Do seu ayo muito dedicado »

 

Este excerto duma carta, dirigida por Mouzinho de Albuquerque a D. Luíz Filipe de Bragança, realça a importância da educação num futuro Chefe de Estado, relevando o crucial da autoridade ( que não autoritarismo ) que advém do exemplo.

Numa época em tudo semelhante à que então carecia desmedidamente de um homem de pulso, espera-se que esta carta não caia em saco roto...