Quarta-feira, 21 de Abril de 2010

 

 

Gaste assim as suas economias, não as malbarate em fofas novelas gafadas de galicismos ".

( Camilo, « Cancioneiro Alegre » )

 

Também nos livros temos os nossos pilares, a que nos seguramos quando surge a dúvida, a incerteza: determinadas enciclopédias, dicionários...; entre estes o último recurso, o tira-teimas é, para mim, o Dicionário de Morais.

Quando se me pôs a questão de, por razões práticas, ter de  " desterrar " alguns deles para outra casa, logo se tornou claro que destes cinco volumes ( é o Compacto ) não poderia nunca separar-me: sem eles, como ler alguns dos livros do homem de Ceide, ou outros de linguagem com a mesma, ou semelhante, vernaculidade?

Quando o busquei, há já uns quinze anos, tive de percorrer Ceca e Meca, e lamentei-me ao livreiro não encontrar os doze volumes que vira na estante paterna, mas quando ele me disse o custo dos cinco que levava, fiz como a raposa que disse imprestáveis as uvas que não estavam ao seu alcance " também não tinha espaço para tantos ".



publicado por Cristina Ribeiro às 22:41

 

Fora com as duas mãos que agarrara o convinte dos amigos dos pais.

Era Junho, e estava mesmo precisada daquelas férias. Toda a tarde vagueara por entre searas verdes , mas que, pelo que lhe haviam contado os seus anfitriões, depressa se tornariam douradas. Ia neste pensar, quando pela frente lhe surgiu uma casa abandonada que logo lhe lembrou a casa da Menina dos Rouxinóis, que encantara Almeida Garrett; também ali havia uma janela, coberta de verdes trepadeiras que lhe atiçava a imaginação. Como o escritor, interrogou-se quem teria lá vivido. Mas não viu ninguém que pudesse satisfazer-lhe a curiosidade. O sol começava a pôr-se já, e achou por bem encetar o caminho de volta, mas a sua cabeça ia conjecturando segredos guardados para sempre por aquelas paredes.


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publicado por Cristina Ribeiro às 22:16

 

 

Duas a três horas sem electricidade, numa noite de muito vento e chuva, naquele tempo que se segue ao jantar, passado a ver televisão, a ler ou a navegar pela internet. De repente ficámos sem saber o que fazer.

Juntámo-nos na sala, mudos e quedos, até que o silêncio foi quebrado pela minha mãe: que até os 15/16 anos ( não soube precisar ), os seus serões eram assim- no Inverno, em que escurecia mais cedo, a minha avó cozinhava à luz de uma candeia presa num gancho que pendia do tecto. A mesma luz que alumiava o jantar e o arrumar da cozinha, enquanto os homens jogavam à sueca.

No final, o meu avô tirava a candeia e, à frente de todos, ia abrindo caminho até aos quartos. No móvel de cada um deles havia um castiçal de latão, com uma vela e fósforos que cada um acendia à luz da candeia, que o avô levava. Dava-lhes um tempo determinado para terem a vela acesa, até que ia de quarto em quarto verificar se todos a tinham apagado.

Até que um dia a electricidade chegou. Parece que a inauguração foi de arromba, com discurso do regedor, muito aplaudido.

A  primeira compra dos avós foi um rádio, grande, que ainda cheguei a conhecer. Os vizinhos iam todos ouvir, principalmente quando havia jogos de hóquei em patins, desporto que parece ter gozado de muita popularidade naquela altura.

No momento em que a minha mãe contava que a avó quase colava o ouvido ao aparelho, antes d'o avô, mais viajado, lhe dizer não ser necessário, acenderam-se as luzes, e cada um de nós retomou a rotina de todas as noites, mas contente por ter ouvido mais uma das histórias que a minha mãe conta.



publicado por Cristina Ribeiro às 22:12
Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...
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