Domingo, 29 de Novembro de 2009

 

só assim poderia ler o livro que lhe oferecera naquele dia de aniversário. Depois de ter procurado nos lugares mais óbvios, em vão, decidiu-se pelo toucador - conhecia bem as distracções da avó...; talvez os tivesse guardado naquela pequena gaveta... Não viu os óculos, mas chamou-lhe a atenção um estojo branco, com rosas cor-de-chá gravadas. Abriu-o e deparou com o leque mais bonito, mais delicado, que alguma vez vira, Em seda cor de marfim, com ramagens da mesma cor em baixo relevo. A avó tinha de contar onde, e quando, o adquirira; parecia uma peça antiga... Enquanto assim pensava, viu os óculos em cima da cadeira. Agarrou neles e desceu, sem esquecer o estojo do leque. Na sala, no andar térreo, estava a família toda reunida. Dirigiu-se à avó, a quem entregou os óculos, e, sentando-se aos seus pés, pediu-lhe lhes contasse a história daquele leque, desconhecido de todos os netos. Que memórias me trazes, minha neta! Este leque deu-mo o teu avô quando fomos em lua -de- mel a Paris. Uma tarde, passávamos nós numa pequena rua perto da Ópera, quando parámos frente a um antiquário. Encantei-me com este leque, mas nada disse, porque devia ser uma peça cara. Fomos para o hotel, que era quase hora de jantar. Lá chegados, o avô disse-me para subir, que não demoraria : ia só comprar o jornal da tarde... Com efeito, passado algum tempo chegava com o jornal. Foi só o tempo de mudar de roupa, e descemos para jantar. Quando voltámos ao quarto, aguardava-me a maior das surpresas - em cima da cama estava o leque, aberto, ao lado deste estojo... .O avô tinha reparado no meu deslumbramento e fora comprá-lo, com o pretexto do jornal...; é quase como se ele estivesse entre nós, neste dia que nunca esquecia.


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publicado por Cristina Ribeiro às 20:01

 

Quatro gerações, e ela continuava a ser o centro do pequeno mundo que tinham feito dentro de muros, mas sempre com a porta escancarada para quem nele quisesse entrar, e que viesse por bem: e, também aí, a avó era única, exímia a ler o carácter de cada qual - um leve assentimento com os olhos, e o recém chegado passava a ser dos seus: a vida que a ensinara a reconhecer quem lhe chegava a casa.

E como estava cheia. Gente que subia escadas, outros as desciam, numa azáfama pouco habitual, para quem se habituara à calma voz de comando da matriarca. Nesse dia, porém, delegara todos os afazeres caseiros, e retirara-se para o jardim, logo rodeada pelos netos mais pequenos, e pelos bisnetos, que agora reclamavam mais uma das histórias por ela vividas na sua já longa vida. Alegrias e tristezas, por igual, mas o dia era de festa e a famosa selectividade da memória não o deixaria macular. E vendo uma cena assim, com os filhos tão atentos às palavras da aniversariante, os adultos olhavam-se comovidos - lembraram as vezes em que eram eles a pedir outra história.


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publicado por Cristina Ribeiro às 19:57
Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...
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