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O Tempo Esse Grande Escultor

Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...

O Tempo Esse Grande Escultor

Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...

Adenda a « Tomaz de Figueiredo »

Cristina Ribeiro, 09.10.09

Volto a ele, porque encontrei, adormecido na estante, um livro de António Manuel Couto Viana que se debruça sobre vários escritores, entre os quais Figueiredo: «Coração Arquivista». Lido há alguns anos já, mas mal lido, passou-me despercebido este pedaço: "Ao lê-lo («A Toca do Lobo»), senti que tinha encontrado o romancista que melhor se identificava com a minha sensibilidade; esse que eu gostaria de ser, se tivesse qualidades de ficcionista. Aliás, aqueles climas, aquelas personagens, conhecia-os eu de sempre; encontrara-os por toda a Ribeira-Lima, em minha casa, ou nas que frequentava, nas ruas e nas feiras ou quintas de lavoura e recreio- exactos, vivos, com a nobreza e o pitoresco que o Tomaz poderosamente retratava.(...) Também não escapava à lupa bem focada do discípulo de Camilo o português de certos discursos de eminências políticas."

 

 

  Abril de 2008

A loucura da guerra

Cristina Ribeiro, 09.10.09

Tenho-o por cima da lareira. Debaixo de um céu muito azul, uma menina de cabelo castanho-dourado, contempla a paisagem que alcança da janela, no fim de um rio de águas calmas. Aparentemente, tudo é paz e há uma grande harmonia no conjunto... Paz aparente, porque no céu surge um avião torpedeiro a lançar bombas, nesse cenário idílico... O Nuno ( Castelo-Branco ) deu-lhe o título «Momento de Civilização»...

 

 

Abril de 2008

Fins-de-semana

Cristina Ribeiro, 09.10.09

 

Hoje, na Feira do Livro, de Braga, encontrei, num alfarrabista, um Livro de Leitura da 3ª Classe, igual ao que um dos meus irmãos tinha. Foi com alegria que nele encontrei uma lengalenga que, fiquei agora a saber, é a adaptação de um Romance popular, e que o ouvi declamar muitas vezes: - À guerra, à guerra, mourinhos! Quero uma cristã cativa! Uns vão pelo mar abaixo Outros pela terra acima. - Venha uma cristã cativa Que é para a nossa rainha. Uns vão pelo mar abaixo, Outros pela terra acima. Os que foram mar abaixo Não encontraram cativa; Tiveram melhor fortuna Os que foram terra acima: Deram com o conde Flores Que vinha da romaria Vinha lá de Santiago, Santiago da Galiza Mataram o conde Flores, A condessa foi cativa A rainha mal que o soube, Ao caminho lhe saía: -Em boa hora venha a escrava, Boa seja a sua vinda! Aqui lhe entrego estas chaves Da despensa e da cozinha, Que me não fio de mouras Não me dêem feitiçaria. -Aceito suas chaves, senhora Por grande desdita minha... Ontem condessa jurada, Hoje moça de cozinha Duas irmãs que nós éramos. Ambas de mouros cativas! -Dize-me tu, minha escrava. Tua irmã que nome tinha? -Chamava-se Branca Rosa Branca Flor de Alexandria Foi cativada de mouros Dia de Páscoa Florida Andava apanhando rosas Num rosal que meu pai tinha -Ai triste de mim, coitada Ai triste de mim, mofina Mandei buscar uma escrava, E trazem-me uma irmã minha! Deram beijos e abraços, E uma à outra dizia: Quem se vira em Portugal Terra que Deus bendizia! Juntaram muita riqueza De ouro e pedraria; Uma noite abençoada Fugiram da Mouraria Foram ter à sua terra Terra de Santa Maria Meteram-se num mosteiro, Ambas professaram num dia.

 

 

 Abril de 2008

Viagens na nossa terra

Cristina Ribeiro, 09.10.09

 

"Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como S. Petersburgo- entende-se. Mas com este clima, com esse ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ia ao menos até o quintal." Já Almeida Garret sabia "porque não ficava em casa".Com este sol de Primavera, com a Natureza de braços abertos.

 

Abril de 2008

Caravelas ( 1 )

Cristina Ribeiro, 09.10.09

 

Acordara bem cedo e , a cada minuto, urgia a mãe : era mister porem-se a caminho de Belém, pois que ouvira dizer que a largada seria bem cedo, e queria arranjar um lugar de onde abarcasse toda a movimentação dos homens que se faziam ao mar... Chegaram ao Alto do Restelo quando já lá se encontrava muita gente, num bulício que denotava ansiedade. Lá em baixo, na Barra do Tejo, a azáfama era grande. De repente, um velho que se encontrava ao seu lado começou a vociferar negros vaticínios para aquela empreitada. Assustada, apertou mais a mão da mãe, cruzou os dedos, e rezou para que ele não tivesse razão.

 

 

 Abril de 2008

Camilo e Gertrudes da Costa Lobo

Cristina Ribeiro, 09.10.09

 

As minhas últimas férias foram enriquecidas pela leitura de um livro, da autoria de Manuel Tavares Telles, que trata da paixão platónica que por Camilo Castelo Branco manteve, três anos antes do encontro deste com Ana Plácido, em 1856, uma poetisa portuense, a qual viria a traduzir-se numa razoável quantidade de cartas de amor e num diário íntimo, reunidos em «Os Manuscritos Gertrudes». Começou Gertrudes por se dirigir ao escritor, solicitando a publicação de duas poesias, no jornal em que este trabalhava à época, 1853,- «O portuense». Seria a partir deste primeiro contacto que se iria desenvolver a dita paixão. "Que sentes?" é o título do segundo desses poemas. "Que sentes por mim? amor extremoso Ou fria indif'ença tua alma gelar?... E, quando meus olhos teus olhos encontram, Não sentes mil chamas teu peito escaldar? Se um brando sorriso de meiga ternura Meus lábios agita, que sentes então? Não sentes de orgulho, prazer e ventura No peito agitado profunda emoção? Se vai revelar-te furtivo suspiro Esta ânsia d'amar-te, em vão reprimida, Não sentes...oh! Dize...não sentes, qual sinto, De amar um desejo, uma ânsia insofrida? Se rápida foge uma hora a olhar-te, Em êxtase ardente, em vago ansiar De mil corações não sentes a vida Nessa hora em delírio viver e gozar? Se, às vezes,ao peso de mágoas ocultas, Eu pendo a cabeça febril e cansada Quiseras que eu fosse, buscando refúgio Poisar-te no ombro a fronte abrasada? Se, alegre me rio, se, triste, suspiro, Não sentes, qual sinto, pesar ou ventura? Se enfado, ou amor meus olhos revelam Não sentes, não sofres, , enfado ou ternura? Se olhando das nuvens as formas aéreas Contemplo, absorta, do espaço a amplidão Seguindo esse olhar, não sentes, qual sinto, A mente confusa, turvada a razão? E, quando se escuta do bronze a pancada, Que à prece nos chama, e as mãos ergo aos céus, Não sentes também de impulso suave Tua alma elevar-se aos tronos de Deus? Que sentes ao ver-me...que sentes oh! dize... Por mim o que sentes?...não queiras calar... Preciso que o digas...preciso...compreendes?... Que a vida ou a morte me dês n'um olhar!

 

 

 Abril de 2008

" Que Castelo vamos ver hoje, avô? "

Cristina Ribeiro, 09.10.09

 

 

Desde bem cedo o meu pai incutiu em todos nós o gosto pelas visitas ao nosso património histórico e a museus. Esse gosto passou, depois, para os sobrinhos, pelo que todos os fins-de-semana e "pontes" lá íamos conhecer mais um bocado de Portugal. Num desses fins-de-semana prolongados foi a vez de rumarmos até Almeida, onde ficámos na Pousada Senhora das Neves, para, partindo dali, visitarmos a região: vimos todas as praças fortificadas da raia, desde Figueira de Castelo Rodrigo, Castelo Bom, Castelo Mendo, Castelo Melhor No dia em que preparámos o regresso, um dos sobrinhos mais pequenos perguntou ao avô qual seria o castelo a visitar nesse dia, de tal maneira lhe estava a agradar o programa...

 

 

 Abril de 2008

Duas viagens na Linha do Tua

Cristina Ribeiro, 09.10.09

 

Das duas vezes que viajei nesse comboio fiquei na Pousada de Alijó. Na primeira, nos fins de Setembro de há uns anos, fomos- toda a numerosa família- do Pinhão até Mirandela, num daqueles dias dourados de começo de Outono. Tinha acabado a azáfama das vindimas, mas a alegria que a faina acarreta ainda era evidente nas gentes que viajavam connosco. Dia de feira , viam-se as mulheres com açafates cheios de frangos e coelhos. Voltei lá em Novembro do mesmo ano, por altura do Dia -de -Todos- os- Santos, e agora já caía uma chuva fraca, mas não suficiente para nos impedir de irmos até ao Pocinho. A paisagem, sendo a mesma era outra- nas cores e na quantidade de folhagem, mas o encanto não era menor. O fascínio do Douro é eterno. A Linha do Tua é que não vai estar lá muito tempo.

 

 

 

Será?

Cristina Ribeiro, 09.10.09

 

A ler o primeiro romance de Camilo, «Anátema», que escreveu na verdura dos vinte e cinco anos (ou terá sido na dos vinte e dois, como diz no prefácio da segunda edição  ? ), deparo, a dado passo, com a frase " Não pulsa,  debaixo do céu, um coração que não sofra "; e dou comigo a sair do universo da ficção para o da realidade crua que nos cabe viver: será que o mesmo se pode dizer - e para não irmos mais longe - com a mãe e o tio da pequena Joana, ou do pai e da avó da pequena Vanessa?

Ninguém me convence de que em certos indivíduos, no lado esquerdo do peito existe mais do que um músculo que apenas bombeia o sangue.Não; debaixo deste nosso céu há corações que não sentem nada

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 Março de 2008