Sábado, 10 de Outubro de 2009

 

descaradamente, um título a João Marchante, do blogue Saudades do Futuro, trouxe da livraria este "Livro para Hoje». A Agustina é uma escritora que aprecio, integrando-a na Escola de Camilo- o autor que elejo entre todos-, e que é também, afinal, a de outros que considero, como Tomaz de Figueiredo ou António Manuel Couto Viana... Até na temática vejo essa proximidade, quando leio numa das badanas: "Maria Adelaide é uma mulher munida de uma alegria negra que é a de escapar ao amor da lei e às cumplicidades que a rodeiam".

 

Maio de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 23:49

 

anos a do Porto foi a única Feira do Livro que conheci. Quase sempre debaixo de chuva, que naqueles anos de criança as " casinhas" distribuíam-se pela encharcada Rotunda da Boavista. Era uma alegria enorme quando, sempre ao Domingo à tarde, o meu pai dizia: "-vamos à Feira do Livro": que importava que chovesse a potes? O primeiro livro que de lá trouxe, foi-me oferecido por um senhor de uma editora, que me deu a escolher entre dois livros, grandes e verdes- "Heidi" e "O Gnomo"; optei por este, mas lembro-me de ter chegado a casa a pensar que escolhera mal... Seguiram-se, noutros anos, os livros da Condessa de Ségur. "Memórias de um Burro", para mim, "Os Desatres de Sofia", para a minha irmã... Só muitos anos mais tarde iria conhecer a Feira do Parque Eduardo VII.

 

Maio de 2008


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publicado por Cristina Ribeiro às 23:44

 

Marialva foi, talvez, de entre as várias Aldeias Históricas visitadas, a mais impressiva. Lembro que quando lá chegámos, depois de percorridos caminhos invadidos pelas silvas e ervas daninhas, termos tido a sensação de que chegáramos a um lugar encantado, que o tempo adormecera, mas sem lhe quebrar nunca o dom de enfeitiçar, e onde, a cada esquina, tropeçávamos com o passado. Mas um lugar abandonado... Tinha lido em «Aldeias Históricas», das Edições Inapa, que " andando por aqui D. Afonso II, se tomou de amores por uma linda senhora de nome Maria Alva. Como não lhe podia oferecer o coração, o rei doou-lhe a terra onde vivia, baptizando-a Marialva. Perpetuava, assim, o monarca enamorado o nome da sua amada". Pode-se ficar indiferente a uma lenda tão bela?

 

 

Maio de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 23:40

 

 

 

"Ainda que meu pai me bata

E minha mãe me tire a vida

Minha palavra está dada,

Minha mão está prometida"

 

Não seria muito diferente o cantar da roda de amigas, entre as quais se encontrava a minha mãe,que acompanhava o esfregar da roupa nas pedras do ribeiro que atravessa a aldeia, enquanto os moços as olhavam do cimo da pequena ponte.

 

Maio de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 20:22

 

" Não dávamos ponto sem nó; vocês agora não sabem divertir-se", diz a minha mãe quando recorda o tempo em que, com as amigas, ia lavar roupa ao rio. Era a ocasião sempre esperada, pois que era então que, já depois da roupa lavada, e estendida na erva para corar ao sol, os rapazes vinham ter com elas e aí namoravam até começar a escurecer...

 

Maio de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 20:16

 

 

 

 

 

É de todos conhecido o mau feitio de Camilo, mas por muitos ignorada uma outra faceta do seu carácter, trazida até nós pelo camilianista, seu contemporâneo, António Cabral. Tinha este acto abonatório de uma índole generosa vindo a público nas páginas d'«O Primeiro de Janeiro» de 3 de Junho de 1890, pouco tempo, portanto, após a morte do escritor. "Foi há muitos anos, na Póvoa de Varzim. Camilo achava-se naquela praia, para onde fora com os filhos, que iam fazer uso dos banhos do mar. No mesmo hotel em que estava Camilo, achava-se um medíocre pintor espanhol, que perdera no jogo da roleta o dinheiro que levava. Havia três semanas que o pintor não pagava a conta do hotel, e a dona, uma talo Ernestina, ex-actriz, pouco satisfeita com o procedimento do hóspede, escolheu um dia a hora do jantar para o despedir, explicando ali, sem nenhum género de reservas, o motivo que a obrigava a proceder assim. Camilo ouviu o mandado de despejo, brutalmente dirigido ao pintor. Quando a inflexível hospedeira acabou de falar, levantou-se, no meio dos outros hóspedes, e disse: - a D. Ernestina é injusta. Eu trouxe do Porto cem mil réis que me mandaram entregar a esse senhor e ainda não o tinha feito por esquecimento. Desempenho-me agora da minha missão. E puxando por cem mil réis em notas entregou-as ao pintor. O Espanhol, surpreendido com aquela intervenção que estava longe de esperar, não achou uma palavra para responder. Duas lágrimas, porém, lhe deslizaram silenciosas pela faces, como única demonstração de reconhecimento".

 

 

Maio de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 20:11

 

 

 

 

Tínhamos vários dias pela frente, e iríamos aproveitar para visitar as várias Aldeias Históricas do distrito da Guarda. Linhares, no concelho de Celorico da Beira seria a primeira paragem. Lera já que a sua fundação, atribuída aos Túrdulos, remontava, muito provavelmente, ao século VI A. C., mas que fora durante a Reconquista que sobressaíra, dada uma situação geográfica privilegiada, propícia à defesa de toda aquela região, e já no século XII o Castelo de Linhares é referido como uma significativa barreira face às forças de Leão, razão pela qual D. Afonso Henriques lhe veio a conceder foral. Seria, porém, durante o reinado de D. Manuel I que Linhares viria a conhecer os seus tempos áureos, e disso são testemunho, além do Pelourinho encimado pela esfera armilar, as muitas casas onde são visíveis sinais da arquitectura que marcou esse período, como as muitas janelas manuelinas que pudemos admirar. Alguns desses solares encontravam-se em ruínas, como o belíssimo Palácio dos Corte-Real. Uma construção que logo se impõe é o Castelo, no alto de um maciço granítico, esse sim, bem preservado. Era, porém, gritante o pouquíssimo movimento que encontrámos nas ruas medievais, ladeadas de graciosas casa de granito, e calcetadas com a mesma pedra. Apenas alguns idosos, ávidos de companhia, a quem relatar as muitas histórias que envolvem Linhares da Beira, o que fizeram com notório orgulho.

 

 

Maio de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 20:00

 

É na Serra do Açor, que encontramos esta povoação que, devido ao seu isolamento, o qual lhe permitia fugir à justiça, foi durante muito tempo o couto do «Terror das Beiras», o salteador João Brandão. Depois de ter integrado o concelho de Avô, esta aldeia onde se salientam as casas de xisto, dispostas em socalcos, com muitas das suas janelas e portas debruadas a azul, passou, já em finais do século XIX, a fazer parte do de Arganil. O que ditou a sua classificação como Aldeia Histórica não terá sido, ao contrário de outras, o seu passado de lutas bélicas, mas antes a beleza natural das suas paisagens, a qual,porém, pelas dificuldades que opunham aos homens que nela habitavam não os isentou doutro tipo de guerra; seria esta aliás que iria encorajar os mais novos a emigrarem para as cidades, em busca de uma vida mais fácil. Não estive lá na melhor das alturas, por certo, mas mesmo no Inverno Piódão fascina.

 

 

Maio de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 19:55

 

"A Cantarinha maior significa a abundância perene que se deseja ao futuro casal, semeada de esperanças rutilantes... A Cantarinha menor, despida de enfeites, significa a vida real, as incertezas do amanhã. Quando um rapaz escolhia aquela que deveria ser a sua companheira, e se dispunha a fazer o pedido oficial aos pais da " futura", oferecia à namorada uma Cantarinha das Prendas. Se esta era aceite, ficavam, a partir desse momento, comprometidos. A Cantarinha seria, então, para guardar as " prendas" que o noivo e os pais da noiva ofereciam, em ouro, como cordões, tranceletes, corações, cruzes, borboletas, arrecadas..." («Oficina» da olaria, Guimarães)

 

 

Maio de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 19:46

 

 

 

 

Maio de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 19:37

 

Esta a frase, retirada d'«A Relíquia», que inspirou Teixeira Lopes na concepção da estátua sita no Largo do Quintela, em Lisboa. Aquando da inauguração do monumento, oferecido à cidade pelos amigos e admiradores de Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, tomou da palavra para dizer: " Não é um retrato literário do insigne escritor que me proponho traçar- o meu fim é unicamente fazer notar a Lisboa que Eça é, como romancista, o mais fundamental e genuinamente lisboeta de todos os escritores nacionais(...). Lisboa foi o seu laboratório de arte, o seu material de estudo, a sua preocupação de crítico, o seu mundo de escritor(...)e, a pouco e pouco, se tornou ele próprio enraizadamente lisboeta. Os seus contos e as suas novelas são o espelho desse consórcio do seu espírito com o espírito da vida lisbonense(...). E nesse vasto cenário toda uma densa população pulula, ama, pensa, estuda, combate, intriga, devora ou boceja...; contemplando o enigmático vulto de mulher olímpica, agora aqui colocado, junto do vulto do meu saudoso amigo, eu concluo perguntando-me se essa gloriosa figura, em vez de personificar uma pura e etérea abstracção estética, não é antes a estátua mesma de Lisboa".

 

 

Maio de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 18:53

 

 

2. Alexandre da Conceição

 

Este poeta e ensaísta foi uma das muitas pessoas com quem Camilo travou acesas polémicas, género em que era temido, dados o seu agudo sarcasmo e não menos violenta agressividade. Mas tal como aconteceu com outros alvos da sua verve polemista, também Alexandre da Conceição se tornou num grande admirador do autor de « A Queda de Um Anjo», como nos dá conta José Viale Moutinho, o qual coligiu vários textos de contemporâneos do escritor. "Camilo Castelo Branco é para nós um dos primeiros romancistas da Europa contemporânea. Não conhecemos em Nação nenhuma individualidade literária mais original, mais profundamente acentuada, escritor mais correcto, fantasia mais finamente engraçada, espírito mais vivo e sarcástico. (...) tem personagens cuja criação Balzac invejaria, Cherbuliez, Droz e Zola não seriam capazes de reproduzir mais vivos nem com mais relevo "

 

Maio de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 18:47

 

1. Ramalho Ortigão Nas últimas noites, antes de adormecer, tenho-me deliciado com a leitura de uns escritos de Ramalho sobre o homem de Seide: "Pelo conjunto total das exuberâncias e das deficiências da sua natureza de escritor, pelas suas qualidades e pelos seus defeitos, pelo seu temperamento, pela sua educação, pela sua obra, que é a imagem da sua vida, o nome de Camilo Castelo Branco representará para sempre na história da literatura pátria o mais vivo, o mais característico, o mais glorioso documento da actividade artística peculiar da nossa raça, porque ele é, sem dúvida alguma, entre todos os escritores do nosso século, o mais genuinamente peninsular, o mais tipicamente português."

 

 

Maio de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 18:42

 

 

Sabia que faria o possível para , logo que pudesse, lá ir. O que sabia sobre Baden- Baden, a estância termal termal da Floresta Negra, no sul da Alemanha era de modo a fazer sonhar passar aí um tempo, por pouco que fosse. A oportunidade surgiu o ano passado, nas férias. Para chegar àquela que é uma região fadada pelos deuses, atravessei campo e cidades de beleza ímpar, com destaque, no que às cidades respeita, para Freiburgo , que alia à monumentalidade dos edifícios uma riqueza histórica invejável. Mas o melhor estava para vir, quando vi estender-se à minha frente aquela prodigalidade da natureza, e logo entendi o fascínio que Baden-Baden exercia na burguesia e aristocracia do século XIX, fosse para aí se curarem com as águas sulfurosas, fosse simplesmente para desfrutarem daqueles ares puríssimos, ao mesmo tempo que os olhos mergulhavam naquele milagre terreno

 

Maio de 2008.

 

 


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publicado por Cristina Ribeiro às 18:24

 

"Havia um reflexo claro sobre a baía do Porto Pim. Percorri o golfo como quando, num sonho te encontras de repente do outro lado da paisagem. Não pensei em nada porque não queria pensar." «Mulher de Porto Pim», de António Tabucchi

 

Fazia muito vento, nessa manhã pintada de azul e cinzento, num registo habitual, dizem-me, mas talvez por isso o encanto fosse maior ainda, porque as ondas mais se agitavam.

 

Maio de 2008


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publicado por Cristina Ribeiro às 18:15

 

 

Há uns anos estive na Quinta de Vila-Nova, em Stª Cruz do Douro, na casa que pertencera a Emília de Castro, mulher de Eça de Queirós, depois de a receber em herança de sua mãe, a Condessa de Resende, já então transformada num museu dedicado ao escritor: a Fundação Eça de Queiroz. Seria este lugar imortalizado no romance «A Cidade e as Serras», como a Quinta de Tormes, aonde Jacinto "regressa", depois de sempre ter vivido no nº 202 dos Campos Elísios, em Paris, a fim de assistir à trasladação dos ossos dos antepassados para a Capela de Família. Uma vez chegado à estação de caminho de ferro que servia o local, o dono da Quinta teve de subir a serra numa égua, seguido pelo amigo José Fernandes, montado num jumento, por um caminho "íngreme e alpestre"; mas em breve os seus males "esqueceram ante a incomparável beleza daquela serra bendita", onde "para os vales, poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, tão copados e redondos, de um verde tão moço"; "Jacinto, adiante, na sua égua ruça, murmurava: - Que beleza!" e José Fernandes, " atrás, no burro de Sancho, murmurava: - que beleza!". De tal forma que o "Príncipe da Civilização" irá trocar definitivamente a Cidade Cosmopolita pelo "Castelo da Grã-Ventura", que é afinal a Serra do Douro, depois de uma primeira impressão negativa, quando encontrou um casarão "inabitável", o que faz com que logo manifeste vontade de partir para Lisboa no primeiro comboio. É esta mesma impressão que Eça faz chegar a sua mulher, numa carta endereçada da Quinta de Vila Nova, aquando de uma segunda visita, em 1898, após lá ter ido com a cunhada Benedita, seis anos antes, e ter afirmado o quão maravilhoso era o caminho percorrido a cavalo: achava agora a serra " um pouco banal e mesquinha", mas tratava-se, também aqui, de "impressão pouco duradoura", tendo bastado dois ou três passeios para o fazer experimentar"l'ancien charme".

 

Maio de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 17:58

 

Num dia claramente dividido em parte da manhã, passada fora de casa, e da tarde, no aconchego do sofá, o ronronar do bichano lembrou-me que tinha na estante, algures, as «Histórias Verdadeiras de Gatos». Detive-me no episódio protagonizado por Nelson, o gato de Winston Churchill: parece que , sempre que havia ataques aéreos sobre Londres, durante a guerra, o animal corria em busca do seu abrigo, por causa do ruído provocado pelo fogo antiaéreo, debaixo de uma cómoda. Numa dessas ocasiões, quando o secretário do primeiro-ministro foi, mais uma vez tentar convencer Churchill a refugiar-se no abrigo, deparou com este, de gatas, a espreitar para debaixo da cómoda, enquanto dizia: - Devias ter vergonha. Com um nome como o teu, a esconderes-te aí debaixo enquanto todos aqueles jovens valentes da RAF lutam tão corajosamente para salvar o país. Sorri ao lembrar um episódio muito mais prosaico, quando tentei convencer o Klaus a sair debaixo da cama, quando se assustou com a música barulhenta que uma minha irmã pôs a tocar.

 

Maio de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 17:54

 

Uma amiga oferece-me «O Mundo Encantado de Beatrix Potter». Sabe do meu fascínio pela escritora e ilustradora inglesa, desde que há oito anos estive na sua casa do Norte de Inglaterra, em Lake District. Identifiquei-me com o muito que gostava daquelas paragens, palpável nos seus escritos e ilustrações. Lá comprei aquele que foi a sua grande criação, o coelho Pedro, para a sobrinha que iria nascer daí a poucos meses, e, há dois anos, quando aprendeu a ler ofereci-lhe vários daqueles livrinhos, profusamente ilustrados, que relatam as aventuras de Peter Rabbit e seus amigos; mas antes de lhos dar, não resisti, e comprazi-me com a sua leitura encantatória. É bom sentirmos que ainda temos capacidade para sermos crianças nestas alturas.

 

Maio de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 17:26

 

Olhando este, não muito agitado, é inevitável a tentação de imaginar a ousadia daqueles portugueses de antanho, que, intrepidamente, se lançaram nos " mares nunca dantes navegados", porque, mais do que tudo, ambicionavam ir " ainda além da Taprobana". E não posso deixar de imaginar os perigos que enfrentavam naquelas frágeis embarcações, face a um mar hostil, tão assustador que " o Homem do Leme" teve de se lhe impor, dizendo com voz grossa que ali mandava a vontade de todo um povo, e do seu Rei, D. João II. Por tudo isto, vejo tanta verdade nas palavras do Poeta, quando diz que muito do sal desse mar são lágrimas de Portugal. Mas, porque esses Homens nunca tiveram alma pequena, terão sentido que valeu a pena...

 

Maio de 2008


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publicado por Cristina Ribeiro às 17:19

 

"Arvores copadas, de uma doce tonalidade fresca, enchem o grande largo. Há uma indefinida simplicidade, um ar íntimo, quasi de família, na população, assim mergulhada no seio d'aquella natureza poderosa e boa. As thermas,chegam a ser verdadeiramente um remedio, por se não parecerem em nada com o pretexto frivolo, que se chama ' ir fazer uma estação balnear', onde se ostentam as primeiras ' toilettes' de Verão. O banhista das Taipas toma a serio o seu papel de doente, e por isso ha quem diga que são tristes as Caldas. Eu achei que eram apenas d'essa vaga melancholia pantheista com que a natureza perfuma o coração do homem, dando-lhe a sensação inexplicavel da sua absorção ao suave contacto dos beijos da terra-mater. Nada mais bello como paysagem, nada mais ameno como vegetação. O Ave que vae ali tão perto, quasi não ri, murmura; dir-se-ia que vae, em meio d'este silencio, cantando uma canção ossianica de uma tristeza dolente(...). Estas aguas mineraes foram já conhecidas dos romanos, do que é confirmação a famosa ' ara de Trajano' ou ' ara de Minerva' , que o povo conhece pelo nome de ' Penedo da Moura'.(...) Preciosas thermas, umas das primeiras do paiz. A estrada que nos leva até Guimarães, corre das Taipas em tão suave planície e vae debruada de tão feiticeira paysagem que instintivamente se recommenda ao cocheiro para caminhar lentamente..."

in « O Minho Pittoresco »

 

As Caldas das Taipas eram assim em 1886. De lá para cá muita coisa mudou, mas se procurarmos bem, e com tempo, o essencial permanece; basta estarmos com os sentidos bem alerta, para o enxergarmos. Até porque a grande metamorfose é muito recente e ainda conheci muito do que aqui é retratado. Não é um tempo longínquo, aquele de que falo, mas já posso dizer- "no meu tempo...".

 

 

Maio de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 17:09

 

Entre este cone vulcânico ( Ilha do Pico ), que vi com neve no cimo, e a casa com lareira e muitos livros na estante, muitos dos quais sobre as várias ilhas dos Açores, e que pude desfrutar, só mar, muitas das vezes semeado de velas e mastros.

 

 

 

Maio de 2008

 


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publicado por Cristina Ribeiro às 16:41

 

Mas algumas resultam em beleza a fruir por todos. Leio que quando compôs «Tristão e Isolda», Wagner andava perdido de amor por Mathilde Wesendonk, e que as cartas a ela dirigidas foram testemunhas privilegiadas desse sentir. Compreende-se assim melhor a profundidade daquela Abertura...

 

 

Maio 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 16:14

 

... mas dos quais já tenho saudades.

 

 

Maio de 2008


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publicado por Cristina Ribeiro às 16:06

 

 

 

Aclamado no dia 6 de Maio de 1908, no Palácio das Cortes, o jovem D. Manuel II, que não fora educado para reinar, por ser filho segundo, mas que nem por isso descurara a sua instrução, como ficou bem patente na sua grande cultura, tudo fez para tornar um facto a preparação para melhor prosseguir o que considerava ser o dever de um monarca: o bem do País. Sem olhar a sacrifícios pessoais: tivera nisso o maior dos exemplos- o de sua mãe! Pensando ser esse o caminho para apaziguar os espíritos, propôs-se encetar uma política de acalmação, respeitando estritamente os limites do poder moderador, não intervindo nas lutas entre políticos; mas estes, tal como agora, sempre puseram os interesses pessoais à frente de tudo, coisa que D. Manuel nem concebia sequer... Escreveu a José Luciano, chefe dos Progressistas: "Tenho trabalhado com a máxima sinceridade e dedicação para o bem do meu Paíz e das Instituições que me cumpre defender", e quando ascendeu ao trono disse aos portugueses: "(...) Nesta desventurada conjuntura sou chamado, pela Constituição da monarquia, a presidir aos destinos do reino: na sua conformidade e no desempenho dessa elevada missão empenharei todos os meus esforços pelo bem da Pátria, e por merecer a afeição do povo português". Quando viu o caminho por que enveredavam esses políticos, o mesmo que , cem anos depois, Portugal viria a conhecer, alertou-os para a tempestade que se avizinhava. Também «O Desventurado» previu que "faltava cumprir Portugal"!

 



publicado por Cristina Ribeiro às 15:58

 

Sábado: Bom tempo no canal (2)

"Só aqueles que viram os Açores do convés de um barco conhecem a beleza da imagem no meio do Oceano" Joshua Slocum in « Navegador Solitário» Depois de uma travessia, num mar anormalmente calmo, segundo os que a ele estão acostumados, e num dia cheio de sol, até à Ilha de S. Jorge, terminei o dia em beleza, no bar da marina a ver as difíceis manobras de atracagem de um luxuoso paquete de grandes dimensões...

 

Domingo:pela Ilha Azul adentro

Vulcão dos Capelinhos, Capelo, Varadouro, Praia do Norte, Feiteira...; uma beleza só, numa tarde radiosa de um dia que começara nublado, o que me permitira acabar as poucas páginas do « A Mulher de Porto Pim», de António Tabucchi, uma praia táo luminosa... E penso: "´não poderia ter-me oferecido melhor presente de aniversário..."

 

 

Maio de 2008


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publicado por Cristina Ribeiro às 14:52

 

 

Depois do dia chuvoso de ontem, passado frente à lareira, a ler «As Ilhas Desconhecidas», de Raul Brandão, dispus-me a atravessar, hoje bem cedo, o canal que separa as Ilhas do Faial e do Pico, tendo comprovado a veracidade da sua ideia de que "o que as ilhas têm de mais belo e as completa é a ilha que está em frente", pois que chegar de barco ao Pico, ou, no regresso,depois de ter visto , ainda nas suas palavras "a mais extraordinária ilha dos Açores", ao Faial, onde me espera um gin tónico,no inevitável Peter's, é uma experiência que ultrapassa todas as expectativas, mesmo quando elas são grandes, como era o caso...

 

 

2 de Maio de 2008


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publicado por Cristina Ribeiro às 14:41

 

 

 

Como estas ainda estão assim, vou em demanda de outras paragens, onde possam já ter florido... Se pudesse, mandava um Gin Tónico do Peter's. Fica a intenção.

 

 

Abril de 2008


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publicado por Cristina Ribeiro às 14:36

 

Não sei se o facto de ter nascido numa vila termal, banhada pelo Rio Ave, onde são notáveis os vestígios de balneários romanos, datados de, pelo menos, o tempo do imperador Trajano Augusto, o qual deu nome a um monumento nacional, o Penedo de Trajano, dito da Moura, viria a influenciar neste fascínio que sinto pelos lugares termais. Vidago, por exemplo, é um lugar mágico, e percorrer os vastos jardins do Palace Hotel, abertos ao público- quando lá fui, ainda o hotel estava em obras- é, por si só, a melhor das terapias. Mais perto, são famosas as Termas de Vizela e as de Caldelas; a todas elas é comum, além da calma que lhes é, justamente, associada, uma atmosfera da "Belle-Époque", que, também, marcou Portugal.

 

 

Abril de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 14:26

 

Lê as terríveis notícias que vêm no jornal. Os Piemonteses desembarcaram. Estamos todos perdidos. Esta mesma noite, eu e a família toda vamos refugiar-nos nos barcos ingleses. Decerto quererás fazer o mesmo." («O Leopardo», de Giusepe Tomasi di Lampedusa) Sentada no sofá, muitas foram as vezes em que os olhos paravam neste título, na lombada de um livro fininho, há muito tempo na estante, sem vontade de o abrir, com receio de me decepcionar, tanto gosto do filme protagonizado por Burt Lancaster. O normal é o contrário: decepção com a adaptação cinematográfica da obra literária; mas este filme de Visconti está num pedestal tão alto...; acontecera uma coisa assim com «Despojos do Dia», em que tive medo de o livro não ser digno das interpretações de Anthony Hopkins e Emma Thompson... Até que ontem o livrinho venceu esses receios, e já vou a meio, sem que tivesse ainda vontade de o pôr de lado.

 

 



publicado por Cristina Ribeiro às 14:12

 

 

Em Portugal, o desprezo pelo outro tornou-se de tal sorte que suspeitamos ser norma consagrada constitucionalmente.

 

 

Abril de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 13:12

 

Acabara a Quarta Classe da Escola Primária, quando, nas férias grandes, o meu pai nos meteu- a mim e aos meus quatro irmãos mais velhos, todos rapazes, - num velhinho Vauxhall Victor, e fomos, um bocado sem destino, apenas com a ideia de ir até França. Levávamos uma tenda connosco, provisões, e os utensílios necessários para prepararmos as nossas refeições. Uma grande aventura. Foi um grande périplo, que nos levou até a Normandia, vale do Loire, e Paris. Da Normandia lembro bem, além do Mont Saint Michel, o termos visitado o Museu do Desembarque Aliado; recordo ter visto, projectado num grande ecrã, o lançamento de centenas de pára-quedistas, e a reconstituição , em maquete, do desembarque dos tanques. Foi nessa altura que pela primeira vez ouvi falar no soldado Milhões, não sei bem porquê, pois que aquele é um museu dedicado à Segunda Guerra: mas o meu pai aproveitava sempre para fazer associações históricas... Do Vale do Loire lembro, claro, os castelos que pareciam ter saído direitinhos de um conto de fadas, e de Paris lembro todos aqueles museus e monumentos. Recordo Versailles, o Palácio e os jardins fabulosos. Já lá voltei várias vezes, mas esta imagem é a que permaneceu, indelével...

 

 

Abril de 2008


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publicado por Cristina Ribeiro às 12:45

 

 

 

Comecei por socorrer-me do arquivo do Combustões, pois que tinha uma vaga ideia de um post em que versa esta matéria. Depois de uma busca, encontrei-o:" O Brasil de D. Pedro II e o Brasil de Lula", de 4 de Outubro de 2006; - aí diz o Miguel ser aquele "Homem de grande dimensão moral e intelectual(...)que sempre viveu de forma discreta" tendo sido grande amigo de Portugal e das letras portuguesas", referindo as visitas do Imperador a Camilo Castelo Branco. Mas os dois homens terão, além disso, mantido uma correspondência regular, como me dei conta ao consultar, entre outros, o «Boletim da Casa de Camilo. Tê-lo-á visitado, também, na casa do escritor no Porto, na Rua de S. Lázaro, em 1872, quando este já se encontrava doente: "Tornou-se assunto de conversação a analyse de uns quadros que o senhor Camillo Castello Branco tinha na sala, mostrando o soberano vastos conhecimentos sobre pintura". Depois de o escritor ter oferecido a D. Pedro um quadro com os vinte e um primeiros reis portugueses, tendo-se ele" comprazido de possuir umas lembrança de Camillo (...), fallaram de literatura, tanto portuguesa como brasileira, matéria sobre a qual o monarcha discursou largamente, com perfeito conhecimento de causa". Finalmente, num dos volumes de "Dispersos de Camilo" , coligidos por Júlio Dias da Costa, encontrei uma carta dirigida a Tomás Ribeiro, na qual diz Camilo: "No « Livro de Consolação», pagina primeira, está impresso um documento que eu desejo fazer-te conhecido. É uma carta escripta a S. Magestade o Imperador do Brasil, dedicando-lhe affoitamente e audaciosamente, o meu livro. Essa carta manifesta o meu grande respeito e a minha profunda gratidão áquelle magnanimo homem, que não carecia de diadema para ser um dos mais veneraveis cultores das letras, e amigo dos operarios que vivem acorrentados á galé dos trabalhos do espírito, em que a alma, alando-se para altas regiões, vai deixando cahir em terra o corpo despedaçado».



publicado por Cristina Ribeiro às 01:16

 

 

 

 

É ainda por muito ter querido à terra onde nascera, que o Padre Ferreira Caldas, membro da Associação dos Arqueólogos Portugueses e da Sociedade de Geografia "se passava dias inteiros a passear na Costa, na Penha ou ainda na Citânia de Briteiros" dedicava-se a estudar aturadamente tudo o que a ela respeitava, nomeadamente as suas origens, começando por constatar o quão nebulosas elas eram: que esta povoação, situada na confluência dos rios Ave e Vizela, tenha sido a Araduca- a Cidade das Letras- mencionada por Ptolomeu, é apenas uma das hipóteses, com bastante acolhimento na Tradição, embora. Tudo se tornaria mais claro a partir do século X, quando a viúva Condessa Mumadona vem de Tui fundar um mosteiro na sua quinta de Vimaranes, onde hoje se situa a Colegiada, começando a formar-se uma povoação, que, mais tarde, com a vinda do Conde D. Henrique, iria salientar-se no seio do território governado por Afonso VI de Castela e Leão, dado o importante contributo deste Príncipe na luta de Reconquista, o qual viria a ser reforçado quando seu filho, Afonso Henriques, toma nas suas mãos o combate aos sarracenos, ganhando , deste modo, e após a decisiva Batalha de Ourique, travada em 1139, legitimidade para se proclamar Primeiro Rei do novo Reino que agora nascia. E mesmo quando a corte se desloca mais para Sul, para Coimbra, Guimarães irá continuar a prosperar, culminando no "estabelecimento da corte dos Duques de Bragança, a família mais nobre e opulenta do Reino".

 

 

Abril de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 01:11

 

 

Encontrando-se de há muito esgotada a primeira edição, datada de 1881, entenderam por bem, e para bem de todos nós, a Câmara Municipal de Guimarães e a Sociedade Martins Sarmento, reeditar a obra máxima do Padre António José Ferreira Caldas, «Guimarães, Apontamentos Para a Sua História». Nascido em 1843, foi este "Este espírito ilustrado, aprimorado cultor das letras(...) , um escritor esmerado e jornalista vigoroso", nas palavras do prefaciador da actual edição, Francisco Martins, num texto datado de 1923. Nele, "o sentimento de amor à Pátria" foi uma realidade de todos os dias. Sobre Guimarães, escreve: "Guimarães, cúria augusta do primeiro Afonso, berço nobilíssimo da monarquia portuguesa, assenta em prados verdejantes, que se alastram nas fraldas ocidentais da serra pitoresca de Santa Catarina(...). É tão aprazível e bela a sua estância que um dos nossos antigos infantes, ao contemplar Guimarães da vertente da montanha, dissera enleado por tão formoso quadro: quem te deu, não te viu, se te vira, não te dera. Aludia, diz Frei Leão de S. Tomás, aos reis antepassados, que doaram a vila à Casa de Bragança, o que decerto não fariam, se a vissem tão bem assentada, tão bem murada, coroada de tanta frescura e arvoredo, e tão formosa em si. (...) Daqui nasce, que, sendo tão pequena esta região, é sumamente fértil, e a benignidade dos seus ares, a afluência dos seus rios, as abundâncias e delícias dos seus campos comprovam a fama do seu admirável temperamento, donde se animou a dizer Manuel de Faria que se no Mundo houve Campos Elísios, existiam nesta Província, e se os não houve, merecia que somente os houvesse nela..."

 

 

Abril de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 01:05

 

de uma forma aleatória e intervalada, por sentir assim mais proveitosa a leitura de um livro recheado de sabedoria empírica, deparo no escrito no dia do mês correspondente ao de hoje, mas de 1965, com a frase "Céu nublado. Chuva. Como estas nuvens hostis, assim os homens- certos homens- nos ocultam a límpida face do céu." Até no clima a tradição se mantém...



publicado por Cristina Ribeiro às 01:01

 

 

Santa Maria Madalena da Falperra- Guimarães

 

Situada no alto da serra da Falperra, na freguesia de Santa Cristina de Longos, rodeada de frondosos carvalhos e sobreiros, é a jóia da coroa de um dos lugares mais idílicos da região, muito procurado pelas gentes daqui, principalmente em tempos de calor, pois que aí vão encontrar a sombra que buscam. A igreja do mesmo nome foi mandada edificar no século XVIII, pelo arcebispo de Braga, e antigo reitor da Universidade de Coimbra, D. Rodrigo de Moura Teles, e projectada pelo arquitecto bracarense André Soares, num estilo barroco rococó. Foi, em tempos antigos, o valhacouto de salteadores, como o conhecido Zé do Telhado, que se cruzou com Camilo Castelo Branco na Cadeia da Relação do Porto, como este relata nas «Memórias do Cárcere», e com quem o bisavô de minha mãe privou muitas vezes, a caminho de Braga.

 

 

Abril de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 00:41

 

É nestas tardes cinzentas que é maior a nostalgia daquelas "Tardes-de-Cinema" com que a RTP nos brindava aos Domingos. Aconchegada numa manta, não tirava os olhos do ecrã, onde passeavam toda a sua classe actores como Audrey Hepburn, Cary Grant, Katharine Hepburn ou James Stewart. Nessa altura, a qualidade sobrepunha-se à quantidade...

 

 

Abril de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 00:11
Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...
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