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O Tempo Esse Grande Escultor

Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...

O Tempo Esse Grande Escultor

Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...

O nevoeiro matinal dizia-me que a não veria, mas...

Cristina Ribeiro, 13.05.10
( Lagoa do fogo -Serra de Água de Pau .S.Miguel )

 

 

 

" (...) e o mar largo reflecte a brancura das nuvens até se confundir com a névoa no

horizonte. Isto de repente, lá em baixo, isolado do mundo e perdido no mundo... Parece

um sítio onde ninguém pôs os pés depois que os navegadores aqui abordaram – verdeazulado,

em catadupas de verde-azulado, com as quedas despenhando-se de toda a

altura do paredão entre silêncio e nuvens. É uma paisagem imaculada. Esta água ainda

não trabalhou para ninguém: está aí para completar o quadro virgem que os montes

parecem contemplar em silêncio. É um sonho verde que ameaça fundir-se na grande

nuvem cinzenta que se arrasta nos píncaros – é um sonho que vive numa solidão

integral, ele e as névoas que descem devagar e vão submergi-lo. Às vezes descobre-se o

sol, mas o sol é um acto brutal de impudor, como o de arrancar um véu e desnudar uma

virgem. Aqui só a luz velada, que cheira a água e a bravio, e quase não distingo da

flauta mágica que ouço lá para o fundo, desta música das aves que não cessa – rechio,

bio – rechio, bio – e que nunca ouvi assim. Chego a confundi-la com a voz da paisagem

húmida e verde, da paisagem casta e melancólica, a que só o canto dá vida e cor ".

 

( Raul Brandão, « As Ilhas Desconhecidas » )

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