Segunda-feira, 28 de Outubro de 2013
Que instinto te acorda e guia,
Da noite com que afliges
Esta tristeza sozinha
E amargurada do vale, 
Para a montanha distante,
Quando,
Como um audaz caminheiro,
Fugindo do cativeiro,
Alegre o sol vem cantando
Em sua estrada real?
...................................
......................................
 

Que era grande amigo de Tomaz de Figueiredo, fez-mo saber um amigo comentarista. Até então não sabia nada de Fausto José.
Acerca de uma visita a Ucanha e a Tarouca, falou-me em Armamar, no Douro, e que teria feito muito bem se tivesse subido um bocado até à Aldeia de Cima, onde o poeta acolhia amiúde o escritor de Valdevez. Fiquei com vontade de a visitar, claro, mas foi sempre um destino adiado até que me propus rever a, certamente - como vim a confirmar - já restaurada ermida de S. Domingos, ali vizinha ( freguesia de Fontelo ), e que se encontrava em obras de restauro.
Procurei os seus poemas e soube que a Câmara de Armamar os reeditou não há muito tempo. Mas não descansei até o encontrar, integrado na antologia « Líricas Portuguesas », coordenada por Cabral do Nascimento. Dela esta « Névoa ».



publicado por Cristina Ribeiro às 19:09
Quinta-feira, 03 de Outubro de 2013

" Quando o anno de 1868 pertencia já ao passado, scismavas á meia noite sobre o mau rumo que te pareceu levarem as nossas letras. Eu sou um pouco mais crente, e menos atrabiliario: á entrada de 1869, estendo os olhos ao futuro, e espero e creio muito, porque já não são de pouca monta as primicias que nos offerece o anno litterario de 1869. Falo das Flores do campo de João de Deus. ( ... ) não escolho, para te escrever, a hora lugubre dos phantasmas. Coméço a escrever-te ás horas d’uma esplendida manhã, espalhando os olhos por aquellas duas margens do nosso Mondego: a relva rasteira que as veste, e que me fala de vagas esperanças, ha de desentranhar-se em flores e frutos. Deixa-me crer muito no dia de ámanhã.
E porque não virão as flores da poesia derramar perfumes sob este céu de Portugal, neste jardim da Europa, onde já suspirou melodias Bernardim, Camões, Garrett, Castilho! Não morre a poesia portugueza: a estaturada deusa ainda não tremeu na peanha; e quando os iconoclastas do bello quizessem contra ella erguer braços profanos, a quantos apostolos da arte não teriam de suffocar a voz!
Deixa pois cantar os poetas que levantaram a vista do pó da terra, onde tudo é limitado como a materia, e vil como o gusano das ossadas. Deixa que eu te fale de um poeta, cujo espirito é aguia que raro avisinha a ponta das azas aos marneis da sociedade. A gente pasma da altura a que se eleva aquelle espirito, e acontece ás vezes que a nossa vista não pode acompanhar tão levantados vôos: perde-se elle no vacuo, e, quando divaga em mares de luz, ficamos nós em trevas, sem ver a direcção que elle toma…
João de Deus não canta para a sociedade, canta para si. Quer discorra por vergeis de poesia singela e perfumada, quer se eleve a alturas desmedidas, não se importa de que não lhe oiçam nem entendam o canto sempre harmonioso. É talvez por isso que elle não publicou, nem publicaria as Flores do campo.
Ao amigo que lh’as estampou, muito devemos nós todos os que presamos as nossas boas letras. "

Cândido de Figueiredo," Cartas a J. Simões Dias ", in « A Folha »


                   * « Flores do Campo »


publicado por Cristina Ribeiro às 21:50
Sexta-feira, 20 de Setembro de 2013
" Quando o anno de 1868 pertencia já ao passado, scismavas á meia noite sobre o mau rumo que te pareceu levarem as nossas letras. Eu sou um pouco mais crente, e menos atrabiliario: á entrada de 1869, estendo os olhos ao futuro, e espero e creio muito, porque já não são de pouca monta as primicias que nos offerece o anno litterario de 1869. Falo das Flores do campo de João de Deus. ( ... ) não escolho, para te escrever, a hora lugubre dos phantasmas. Coméço a escrever-te ás horas d’uma esplendida manhã, espalhando os olhos por aquellas duas margens do nosso Mondego: a relva rasteira que as veste, e que me fala de vagas esperanças, ha de desentranhar-se em flores e frutos. Deixa-me crer muito no dia de ámanhã.
E porque não virão as flores da poesia derramar perfumes sob este céu de Portugal, neste jardim da Europa, onde já suspirou melodias Bernardim, Camões, Garrett, Castilho! Não morre a poesia portugueza: a estaturada deusa ainda não tremeu na peanha; e quando os iconoclastas do bello quizessem contra ella erguer braços profanos, a quantos apostolos da arte não teriam de suffocar a voz!
Deixa pois cantar os poetas que levantaram a vista do pó da terra, onde tudo é limitado como a materia, e vil como o gusano das ossadas. Deixa que eu te fale de um poeta, cujo espirito é aguia que raro avisinha a ponta das azas aos marneis da sociedade. A gente pasma da altura a que se eleva aquelle espirito, e acontece ás vezes que a nossa vista não pode acompanhar tão levantados vôos: perde-se elle no vacuo, e, quando divaga em mares de luz, ficamos nós em trevas, sem ver a direcção que elle toma…
João de Deus não canta para a sociedade, canta para si. Quer discorra por vergeis de poesia singela e perfumada, quer se eleve a alturas desmedidas, não se importa de que não lhe oiçam nem entendam o canto sempre harmonioso. É talvez por isso que elle não publicou, nem publicaria as Flores do campo.
Ao amigo que lh’as estampou, muito devemos nós todos os que presamos as nossas boas letras. "

Cândido de Figueiredo," Cartas a J. Simões Dias ", in « A Folha »


                   * « Flores do Campo »


publicado por Cristina Ribeiro às 22:18
Quarta-feira, 18 de Setembro de 2013

Se desejas ser amada,

Ama, não fiques gelada,

Que te foge o trovador,

      Morena;

Amor só vive de amor,

      Helena.



Mas foge d'um amor louco,

Que esse morre ou vive pouco:

Sol ardente seca  a flor,

     Morena;

Muito amor apaga o amor,

    Helena


       João Penha, « Últimas Rimas »


publicado por Cristina Ribeiro às 22:52
Que paisagem tão bela!

Podia um Corot pintá-la!

Vem tu, Carmen, contemplá-la,

Daqui, da minha janela.



Além, perto daquela cancela,

Canta e fia uma zagala;

Ao pé, um cordeiro bala,

É todo o rebanho dela;



Num campo um jumento zurra;

Cantam grilos no montado;

Batem-se cabras à turra.



Tu, dança um sapateado,

Enquanto eu gemo à bandurra

Saudades do meu passado!

      

                         João Penha, « Últimas Rimas »


publicado por Cristina Ribeiro às 00:38
Terça-feira, 17 de Setembro de 2013

A ti invoco: escuta-me do Além!

Quando eu nasci, já ias tu no meio,

Quando morreste, morri eu também!

A ti alongo, oh século romântico,

Meu olhar triste, de saudades cheio!

A ti dedico o derradeiro cântico!


  João Penha, «  Últimas Rimas »


publicado por Cristina Ribeiro às 19:49
Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...
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