Sexta-feira, 04 de Junho de 2010

 

 

Quando, há 57 anos, nasceu o meu irmão mais velho, a madrinha, que fora também a da minha mãe, disse-lhe para não se preocupar, que ela mesma compraria o vestido do futuro neófito.

Sabendo tratar-se de pessoa económicamente remediada, a mãe não se preocupou: o primeiro filho por certo teria um vestido-de-ver-a-Deus com a dignidade que uma mãe sonha para essa cerimónia, que o iria tornar cristão, como ela mesma,  os seus pais, e marido.

Na véspera do acontecimento, à noite, apareceu a dita senhora com o vestido; quando o viu, a minha mãe foi a correr refugiar-se no quarto a chorar - nunca lhe passara pela cabeça que o vestido pudesse ser tão feio!

Mas já nada podia fazer: o baptismo estava marcado para a manhã seguinte. Apenas uma ideia a consolou - quando tivesse o segundo filho não deixaria que ninguém comprasse o vestido: ela, e só ela, o faria.

         O que aconteceu logo no ano seguinte. Contou-nos que os dois, ela e o meu pai tiveram de fazer um grande esforço económico para comprar um vestido a gosto, mas disso não abdicavam.

O vestido que depois serviu para todos os sete filhos que se seguiram, para os muitos netos, e há-de vestir os bisnetos, atendendo ao bom estado de conservação. Só se reformará desse trabalho no dia em que, por escapar à vigilância de todos nós, pois que já o consideramos património familiar, alguma traça mais atrevida nele encontre repasto.



publicado por Cristina Ribeiro às 20:47
Quarta-feira, 21 de Abril de 2010

 

 

Duas a três horas sem electricidade, numa noite de muito vento e chuva, naquele tempo que se segue ao jantar, passado a ver televisão, a ler ou a navegar pela internet. De repente ficámos sem saber o que fazer.

Juntámo-nos na sala, mudos e quedos, até que o silêncio foi quebrado pela minha mãe: que até os 15/16 anos ( não soube precisar ), os seus serões eram assim- no Inverno, em que escurecia mais cedo, a minha avó cozinhava à luz de uma candeia presa num gancho que pendia do tecto. A mesma luz que alumiava o jantar e o arrumar da cozinha, enquanto os homens jogavam à sueca.

No final, o meu avô tirava a candeia e, à frente de todos, ia abrindo caminho até aos quartos. No móvel de cada um deles havia um castiçal de latão, com uma vela e fósforos que cada um acendia à luz da candeia, que o avô levava. Dava-lhes um tempo determinado para terem a vela acesa, até que ia de quarto em quarto verificar se todos a tinham apagado.

Até que um dia a electricidade chegou. Parece que a inauguração foi de arromba, com discurso do regedor, muito aplaudido.

A  primeira compra dos avós foi um rádio, grande, que ainda cheguei a conhecer. Os vizinhos iam todos ouvir, principalmente quando havia jogos de hóquei em patins, desporto que parece ter gozado de muita popularidade naquela altura.

No momento em que a minha mãe contava que a avó quase colava o ouvido ao aparelho, antes d'o avô, mais viajado, lhe dizer não ser necessário, acenderam-se as luzes, e cada um de nós retomou a rotina de todas as noites, mas contente por ter ouvido mais uma das histórias que a minha mãe conta.



publicado por Cristina Ribeiro às 22:12
Quinta-feira, 18 de Março de 2010

 

 

madrugada ainda, alumiado o caminho pela candeia a petróleo, a tia avó Maria a caminho da igreja, longe que ela ficava. A essa hora, já a irmã, minha avó, havia muito tratava de cozer o pão, a tempo de quem ia trabalhar o ter já pronto para, lá na Venda, acompanhar a aguardente mata-bicho com que cada um começava o dia. De cada vez a tia Maria batia na janela da casa do forno, a dar os Bons Dias, e quando a irmã dizia ser ela tola, que àquela hora deveria estar em casa, que deveria estar a fazer companhia à mãe , respondia: vou rezar por vós, já que não podeis ir.



publicado por Cristina Ribeiro às 14:55
Sábado, 27 de Fevereiro de 2010

 

diz o Diogo, na caixa de comentários. Não tenho dúvidas, face ao que vou ouvindo de pessoas que viveram nesses anos muito difíceis. Há dias, íamos a passar por um local cheio de casas- tipo-maison, e disse a minha mãe- " - Olha, aqui era onde nos Domingos à tarde fazíamos os nossos bailaricos; juntávamo-nos algumas raparigas e rapazes, alguns deles lançavam mão dos cavaquinhos, e era uma alegria pegada...". Passava-se isto nos princípios dos anos cinquenta, quando por aqui a pobreza era mais do que muita, e o que valia era que a palavra solidariedade não era " dita da boca para fora". Hoje, honestamente, não sei se teríamos o valor que tinham então.



publicado por Cristina Ribeiro às 00:11
Domingo, 14 de Fevereiro de 2010

 

Falo-lhe, por exemplo, das tardes em que ia, com as amigas, lavar no rio, e como as aproveitavam bem. Pergunta-me se me lembro do grande tanque de granito no quintal dos avós; que sim, e como gostava de dar à manivela na grande roda que fazia trabalhar a bomba da água para o encher... " - Pois foi o teu avô que o mandou fazer, quando descobriu a maroteira ".



publicado por Cristina Ribeiro às 21:49
Sábado, 28 de Novembro de 2009

 

                                  ( A casa do Arturinho )

 

cedo me habituei a conviver com toda a gente; todos nos conhecíamos, e foi nessa altura que conheci pessoas boas, almas simples e amigas; refiro-me concretamente a pessoas que já não estão entre nós, e que eram família, não pelo sangue, mas no carinho e amizade com que sempre nos brindaram . Hoje pensei muito em três dessas pessoas, e falei delas com a minha mãe, que acrescentou pormenores comoventes dessas vidas.- por exemplo fiquei a saber que o Luizinho, uma pessoa de quem todos gostavam, que vivia do que lhe davam - roupa, comida...- , e cujo sorriso tão sincero e inocente- sempre a dizer " É vida! É vida! ", era nele o espelho de uma alma pura, com o dinheiro que lhe iam dando juntou o necessário para mandar dizer uma missa quando morreu outra pessoa filha de um deus ainda menor- Está no céu! - concluiu a minha mãe.

 

Outra pessoa boa, de quem já falei aqui, era o SrArmindo. Como gostava de descer aquelas escadas de madeira tosca para falar com o SrArmindo!

 

A terceira pessoa era o Arturinho: a viver com uma irmã também já idosa, numa casinha muito perto da minha avó materna, todas as crianças que frequentavam a , muito próxima, Escola Primária o adoravam. Presenteava-nos muitas vezes com sacholinhas ( pequeninas enxadas ) que fazia com bocados de aço que usava para fazer os garfos que vendia na feira.



publicado por Cristina Ribeiro às 20:30

 

A ver se lhe comprava rifas para ajudar na reconstrução da igreja de S. Martinho de Sande. Pela idade aparente e forma como falou, imaginei tratar-se de uma amiga de infância. Depois foi o assistir, e nela participar também, pois que queria satisfazer a curiosidade, à conversa entre amigas que andaram juntas na Escola Primária há mais de sessenta anos, e continuaram essa amizade na juventude. Separadas geograficamente pelos respectivos casamentos Amiga de quem ouvira falar muitas vezes, mas não conhecia. Fiquei a saber que era uma das muitas que, feita a 3ª Classe, se dedicaram à tecelagem de peças de tecido de algodão, em tear manual, na casa de cada uma delas, mas para uma fábrica da cidade, que lhes fornecia a linha de algodão. -" Lembras-te de quando fugias à tua mãe, para ires enrolar fio nas canelas para minha casa? " -" E quando íamos para o monte da Senhora da Saúde, apanhar os picos dos pinheiros para acendermos o lume? ".

 

E por momentos foi como se tivesse vivido " o tempo delas ".



publicado por Cristina Ribeiro às 20:25

 

madrugada ainda, alumiado o caminho pela candeia alimentada por petróleo, a tia avó Maria a caminho da igreja, longe que ela ficava. A essa hora, já a irmã, minha avó, havia muito tratava de cozer o pão, a tempo de quem ia trabalhar o ter já pronto para, lá na Venda, acompanhar a aguardente mata-bicho com que cada um começava o dia. De cada vez a tia Maria batia na janela da casa do forno, a dar os Bons Dias, e quando a irmã dizia ser ela tola, que àquela hora deveria estar em casa, que deveria estar a fazer companhia à mãe , respondia: vou rezar por vós, já que não podeis ir.



publicado por Cristina Ribeiro às 20:19

 

venta. Quando em noites assim, de vento forte, a minha avó sempre contava à minha mãe e tios, pequenos que eram, histórias que os punham com os cabelos em pé, e com medo de irem dormir sozinhos: era a altura preferida pelo lobisomem para sair à rua, ou para o também lendário corredor vaguear sem destino pela aldeia, tornando seu escravo todo o ser humano que lhe aparecesse. O melhor mesmo seria pôr traves nas portas, náo fosse o diabo teçê-las. E, no fim, iam dormir todos juntos, por via dos pesadelos.



publicado por Cristina Ribeiro às 20:14
Terça-feira, 27 de Outubro de 2009

 

 com as folhas de tília caídas- que as noites têm sido ventosas-, não para se aquecer, que frio não fazia, mas para tornar " mais limpo " o paul. Distraí-me do facto de achar encanto neste tapete castanho, para lembrar ( que seria de mim sem as minhas memórias? ) as vezes que fui, com as irmãs e primas mais velhas, apanhar folha para amaciar a cama dos porcos, evitando-lhes assim o contacto, doloroso, com o tojo, aquela planta espinhosa de flor amarela. A tornar mais rica esta evocação, juntam-se então as memórias da minha mãe: " Chegávamos a pegar-nos à bulha, porque cada uma de nós queria ajuntar a maior quantidade de folha possível ". Sabia agora da importância que estes quadrados irregulares, que o vento lançava ao chão, tiveram no passado; tanta, que podia ser motivo de peqquenas desavenças.

 

Novembro de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 18:53
Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...
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