Quinta-feira, 12 de Maio de 2016

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bem ao contrário do vosso natural..

. - Tendes razão, meu amigo; estou aqui a perguntar-me se devo ou não levar ao prelo as minhas andanças pelo Oriente, como quer minha pena...

- Bem vos entendo, porquanto mui fantasiosas parecerão, a quem as ler, essas estórias que animam os serões de vossa casa, apesar de as saber eu verdadeiras.

- Vedes, pois, porque duvido do acerto da empresa...; mas, adiante, que delas quero deixar notícia...

 

 

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publicado por Cristina Ribeiro às 16:39
Segunda-feira, 12 de Maio de 2014
 
 
 

" Canta o « Suão » p'la força da estiagem
e, á caustica vertigem de a abrazar,
em crispações de luz cai na paisagem,
ébrio de raiva, o sol canicular.

 

 

Do saibro vivo que arde entre a folhagem
ao largo uma cegonha ergue-se ao ar
e contra o vento as asas mal reagem,
cansadas já de tanto se exforçar.

 

 

Na farta ondulação da cor, os olhos
recolhem da impressão mordente e vasta
só traços discordantes de arabesco.

 

 

Perdidos por alqueives e restolhos,
em torno deles tudo o mais se empasta
como um borrão violento ainda fresco. "

 

                 António de Monforte

                 ( António Sardinha )

 


publicado por Cristina Ribeiro às 22:18
Quarta-feira, 06 de Novembro de 2013
" Como não é possível separar o santo do herói, o homem de Estado do homem de Religião, o monge do paladino, tendo em vista que durante toda a sua vida foi Nun'Álvares o mesmo em santidade, em belicosidade e em acção política, parece estranho, à primeira vista, que elevemos aos altares um guerreiro que desembainhou a espada, não em luta contra os inimigos da Fé, mas contra um povo irmão em cristandade e além do mais aparentado com os portugueses pelos vínculos étnicos e históricos. ( ... ) Eram os de Castela bons cristãos, e no entanto se atiravam contra Portugal numa invasão sob todos os títulos injusta. ( ... ) Ao contrário do que sucedeu com muitos nobres, a intuição popular logo sentiu que se jogava , afinal, com a integridade da própria personalidade política da Pátria, sujeita a ser absorvida e para sempre apagada. E Nun'Álvares, não somente pelo seu génio, como pelo contacto com o povo nos tempos de lavrador nas suas terras de Entre Douro, viu claramente do que se tratava e rompendo laços fraternos, pôs-se a caminho de Lisboa, onde jurou fidelidade ao Mestre de Avis. Vêmo-lo, daí por diante, a batalhar no Alentejo, a comparecer na grande Assembleia de Coimbra, onde se discute o problema da sucessão. ( ... ) Tinha já Nun'Álvares bem feita a ideia de que Portugal era uma Nacionalidade, com marcada missão no mundo e destino muito próprio. 
............................................................................................................... A lição maior de todas as que nos legou Nun'Álvares é, entretanto, a da sua própria santidade. Ele nos ensinou que tudo o que se faz na terra deve ser com os olhos e o coração postos no céu. Sendo rico fez-se pobre, e sendo grande fez-se pequeno. Ensinou-nos que o supremo destino do homem está em Deus. "
Plínio Salgado in Revista « A Nação »


publicado por Cristina Ribeiro às 20:06
Sexta-feira, 20 de Setembro de 2013
" Quando o anno de 1868 pertencia já ao passado, scismavas á meia noite sobre o mau rumo que te pareceu levarem as nossas letras. Eu sou um pouco mais crente, e menos atrabiliario: á entrada de 1869, estendo os olhos ao futuro, e espero e creio muito, porque já não são de pouca monta as primicias que nos offerece o anno litterario de 1869. Falo das Flores do campo de João de Deus. ( ... ) não escolho, para te escrever, a hora lugubre dos phantasmas. Coméço a escrever-te ás horas d’uma esplendida manhã, espalhando os olhos por aquellas duas margens do nosso Mondego: a relva rasteira que as veste, e que me fala de vagas esperanças, ha de desentranhar-se em flores e frutos. Deixa-me crer muito no dia de ámanhã.
E porque não virão as flores da poesia derramar perfumes sob este céu de Portugal, neste jardim da Europa, onde já suspirou melodias Bernardim, Camões, Garrett, Castilho! Não morre a poesia portugueza: a estaturada deusa ainda não tremeu na peanha; e quando os iconoclastas do bello quizessem contra ella erguer braços profanos, a quantos apostolos da arte não teriam de suffocar a voz!
Deixa pois cantar os poetas que levantaram a vista do pó da terra, onde tudo é limitado como a materia, e vil como o gusano das ossadas. Deixa que eu te fale de um poeta, cujo espirito é aguia que raro avisinha a ponta das azas aos marneis da sociedade. A gente pasma da altura a que se eleva aquelle espirito, e acontece ás vezes que a nossa vista não pode acompanhar tão levantados vôos: perde-se elle no vacuo, e, quando divaga em mares de luz, ficamos nós em trevas, sem ver a direcção que elle toma…
João de Deus não canta para a sociedade, canta para si. Quer discorra por vergeis de poesia singela e perfumada, quer se eleve a alturas desmedidas, não se importa de que não lhe oiçam nem entendam o canto sempre harmonioso. É talvez por isso que elle não publicou, nem publicaria as Flores do campo.
Ao amigo que lh’as estampou, muito devemos nós todos os que presamos as nossas boas letras. "

Cândido de Figueiredo," Cartas a J. Simões Dias ", in « A Folha »


                   * « Flores do Campo »


publicado por Cristina Ribeiro às 22:18
Segunda-feira, 03 de Dezembro de 2012



" Eusébio Macário não conseguia refazer-se à existência de Basto. Faltava-lhe a conversa do « Palheiro », a consideração de um auditório atento e de variegada erudição.

Já não se acomodava a lidar com labregos, encodeados, muito broncos, ele ex-indigitado vereador da Cã,mara do Porto.

Atrigava-se de manipular unguentos e pomadas depois que casara a filha com o barão dom Rabaçal ( ... ). É verdade que a baronesa fugira com o cómico, dera em droga, mas nem por isso Eusébio Macário deixara de ser sogro de um titular, e para mais Cavaleiro da Ordem de Cristo.

Sentia-se aborrecido, deslocado. Habituado à moleza das poltronas do genro, já não lhe sabiam, como antes, as largas sestas roncadas à porta, no incómodo mocho de cerdeira.( ... )


           Um dia, porém, soube-se em Basto que falecera em Guimarães um boticário, o Pereira, o último de uma dinastia afamada, cujo representante da época mesinhara o próprio rei D. José na sua visita ao berço da nação. A família de Pereira resolvida a fechar a farmácia, conservava ainda o praticante à espera da liquidação final das pomadas e unguentos.

Isto fez germinar no cérebro da mulher de Macário, a Eufémia Troncha, uma ideia genial: - porque não haviam de ir para Gimarães, boa terra, muito dada a comesainas, terra de soldados e mais civilização? ( ... ) 

Eusébio rendeu-se e escreveu à viúva do Pereira, a saber se a farmácia se alugava.

Veio a resposta pronta: - que sim, que se alugava...; que fosse lá...


Eram 5 horas da tarde de um sábado quando Eusébio Macário entrou no Toural ( ... ). A farmácia era na Porta da Vila ( ... ). A freguesia, segundo Eusébio colheu da boca do praticante, era da melhor. A Casa do Arco, a do Toural, a de Vila Pouca, a do Cano sortiam-se lá. E, antes de entrar em mais ajustes, que lhe não faltaria a dos dois hospitais das Ordens Terceiras... ( ... )

                      Macário voltou a Basto radiante, cheio de projectos, de esperanças de vida regalada, com muito pinto e sonecas tranquilas. ( ... )   "



Já Camilo, o feliz criador da burlesca e interesseira personagem do boticário de Basto, tinha morrido, quando o futuro patrono da minha Escola Preparatória engendrou este seu regresso ao Minho, depois de uma saída pouco airosa da capital nortenha: corria o ano de 1902 quando este livrinho encheu os escaparates das movimentadas livrarias da cidade de Afonso Henriques. Por então o autor tinha já lugar cativo entre uma geração de homens que muito trouxeram às letras e cultura em geral.

Com efeito, podemos ler no " site " do Agrupamento de Escolas João de Meira, entre outras coisas que indiciam um Grande, escolhido para continuar a obra de grande fôlego, iniciada pelo Enorme abade de Tagilde, Vimaranis Monumenta Historica: " Possuidor de larga cultura, a sua vocação literária manifestou-se quando, ainda estudante, principiou a colaborar em jornais académicos e de província, primeiro com versos bem trabalhados e depois em prosa, fácil e de vivo colorido. Em 1902 publicou Influências Estrangeiras em Eça de Queirós, curioso estudo revelando profundo conhecimento da obra do romancista, e mais tarde Eusébio Macário em Guimarães, à guisa de capítulos suplementares à Corja, de Camilo, e ainda Cartas de Camilo Castelo Branco a Francisco Martins Sarmento, com prefácio e notas. Cedo, porém, se manifestou a sua predilecção pelos estudos históricos e escreveu: Subsídios para a História Vimaranense; O Claustro da Colegiada de Guimarães e Estudos da Velha História Pátria - O Livro da Mumadona. "

Mais um vulto de que nos podemos orgulhar; mais um Grande Português.


publicado por Cristina Ribeiro às 22:40
Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2011

 

 

 

 

Por aqui, onde se guarda, contra ventos e marés, e apesar dos pesares, muito do pitoresco da Região, retém-se a memória de um grande Poeta- Poeta do Neiva-, contemporâneo de Bernardes, o Poeta do Lima posto que a este anterior no nascimento, e de Bernardim, de quem foi  amigo dilecto, e que tendo começado o seu versejar à moda antiga, acabaria, também ele, por seguir por caminhos do Renascimento.

Recorda-o, em forma de livro, o aqui nascido, e nosso contemporâneo,  Agostinho Domingues, o filólogo que comemorou em 2008 o 450ºaniversário da sua morte com a « Nova Homenagem a Sá de Miranda ».

É aqui que encontro, inserido numa mais vasta recolha de textos a ele dedicados,  o excerto de um estudo de Carolina Michaelis, que vejo como paradigmático: « A sorte da nação não lhe era indiferente. De longe ( do Minho ) seguia com interesse os menores incidentes políticos. Os favores e as desgraças, que assinalavam a existência dos homens que tinham entre as mãos os destinos do País, comoviam-no profundamente»,  detectando, assim, nesse atento seguir do que na corte sucede « a vigilância do patriota ».





publicado por Cristina Ribeiro às 21:52
Sábado, 04 de Dezembro de 2010

 

de, no Campo de S. Mamede, em Guimarães, se ter desenrolado  a Batalha que abriria as portas ao nascimento de uma nova nação, viesse a nascer, provavelmente em Flor da Rosa, arredores do Crato, aquele que, para mim, personifica, logo depois do nosso primeiro Rei, o mais alto grau de amor à Pátria.

Com efeito, se este, Príncipe ainda, começava ali um longo combate que culminou nessa tão sonhada independência, o testemunho, a manutenção desse sonho, dois séculos depois só não cairia em saco roto porque, à frente de outros patriotas surgiu a figura do Condestável.

               Mas D. Nuno Álvares Pereira não se limitaria a ilustrar a história pátria com esta sua faceta guerreira e patriota. O alto exemplo que nos legou ficaria para sempre marcado pelo lado humano e caritativo que « Com a paz com Castela firmada a 31 de Outubro de 1411 » o permitiria « dedicar-se com maior intensidade às obras de misericórdia, criando casas de abrigo para doentes viúvas e orfãos. O seu amor ao próximo não conhecia raça ou crença, e assim acolheu nas suas terras, mouros e judeus, construindo Mesquitas e Sinagogas » ( « D. Nuno Álvares Pereira - Um Santo Para o Nosso Tempo »,in Boletim da Fundação D. Manuel II .



publicado por Cristina Ribeiro às 20:35
Sábado, 13 de Novembro de 2010

 

lembrados por João Amorim,  e aqui referidos pelo Nuno, denunciando a  forma torpe como foram tratados, a minha esperança está, só, no futuro: somos um povo com memória, e quando esta poeira, que anda no ar há já tempo demasiado, pousar, será a altura de lembrar.

                   Acredito que não se trata de mero wishful thinking: uma Nação antiga como a nossa sempre lembrou os seus maiores; um compasso de espera, apenas. No Futuro, no Futuro...



publicado por Cristina Ribeiro às 14:24
Segunda-feira, 01 de Novembro de 2010

oiço Guilherme de Oliveira Martins dizer na televisão, quando entrevistado no programa « Livraria Ideal », de Paulo Sacadura Cabral, na TVI 24, e dou comigo a acenar a cabeça, em sinal de concordância: uma vida orientada pelo idealismo, mas que, perante a desilusão, ao ver o Portugal que sonhara desmoronar-se, não se coíbe de dizer que " não se envergonha de mudar de opinião, pois que não tem vergonha de raciocinar e de aprender ".

Por isso, por se reconhecer impotente face ao apagamento de uma ideia de Portugalidade, que sempre cultivara,  aquele que disse " se mandarem o Rei embora voltarão a chamá-lo ", acaba por isolar-se na sua quinta de Vale de Lobos, em Santarém.

Mas é o relembrar também o grande Historiador, o homem de cultura que D. Fernando chama para cuidar as bibliotecas dos Palácios da Ajuda e Necessidades, o escritor que nos legou obras inesquecíveis, como « Lendas e Narrativas » ou « O Bobo »



publicado por Cristina Ribeiro às 20:18

" Uma pessoa conhece-se pela consciência como um veleiro pelas velas, e a de Herculano era vasta e de muito vento. O seu temperamento, tipicamente português. Oliveira Martins, que sabia de homens, chamou-lhe um « D.João de Castro do século XIX », e era; (... ) além de um homem de carácter.

Ora aí está o que Herculano foi toda a vida: um homem de vergonha. Essa verdadeira profissão o aparentou com os portugueses mais fortemente belos, e por isso mais duros de roer, que Portugal tem tido, como Sá de Miranda, que se retirou para a Tapada, como Herculano para Vale de Lobos; e digo principalmente Joaquim Mouzinho de Albuquerque, que, se não precisou de lições de ninguém para ser bravo, parece ter aprendido com Herculano o asseio e o estilo do Livro das Campanhas e da carta a D. Luís Filipe. ( ... ) o homem sério que encheu quarenta anos da vida portuguesa de algumas lágrimas bem choradas."

 

Vitorino Nemésio in « Herculano »



publicado por Cristina Ribeiro às 16:42
Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...
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