Quarta-feira, 02 de Julho de 2014

Dela o primeiro livro que li, « Mariazinha em África ».
Gostei, muitos anos depois, de ler-lhe as Memórias - « Ao Fim da Memória » - e encontro agora este livro, que, parece, terá escrito já doente, todo ele preenchido por epístolas que têm por destinatários alguns daqueles que a rodearam desde pequena, como a mãe ou as tias, e outras pessoas que a marcaram ao longo de uma vida cheia, como o marido - António Ferro -, Cecília Meireles ou Carlos Drummond de Andrade...
É também o caso de Mircea Eliade, escritor grandemente amigo de Portugal, ao tempo Adido Cultural da Roménia. Da carta que lhe destina retiro este excerto, revelador de uma vida rica, preenchida, daquelas que nos fazem murmurar - assim, sim!...

" Recuo algumas décadas no tempo, até chegarmos àqueles anos distantes, tão distantes, ai de nós, que com a completa inocência da nossa relativa juventude, afirmávamos tudo, sabíamos tudo. A vida era para nós, então, uma coisa simples. ( ... ) Uma coisa é certa: nenhum de nós era tolo,éramos todos intelectualmente ambiciosos e todos sabíamos já que os valores espirituais eram os únicos que verdadeiramente tinham importância ".

Era uma época em que o romeno organizava tertúlias em sua casa, para " trocar impressões: você, Eliade, escolhia um assunto, que seria estudado e discutido na semana seguinte Os assuntos eram variados, de importância desigual, mas que nos pareciam a todos essenciais. "

Vidas que não souberam nunca o significado de « vazio ».


publicado por Cristina Ribeiro às 09:21
" Esse olhar silencioso
Em que lingua se traduz?
Fala-me, oh astro saudozo
luz do céo, pallida luz!

A encantadora simplicidade dos versos de João de Deus, o seu caracter espontaneo e apaixonado, traduzindo em formas singelas e irreprehensiveis os sentimentos da sua bella alma - eis as qualidades que fizeram do poeta um vulto litterario de primeira grandeza ( ... )
A frescura, a ingenuidade e a vehemencia do seu lyrismo recordam-nos as eclogas de Bernardim Ribeiro, o poeta apaixonado e terno ( ... ) "
Fortunato de Almeida, « Revista Contemporanea »

Mas não é só esta faceta de poeta que vou buscar ao baú do meu Pai, em forma de estantes. Nas estórias que ia contando, a que retenho mais longínqua no tempo é a de ter aprendido ele a juntar as letras pela Cartilha Maternal, ainda antes da entrada na Escola Primária, devendo tais bons ofícios à generosidade do que havia de ser o seu professor durante os quatro anos curriculares, vizinho muito próximo, que nunca esqueceu até ao fim dos Seus dias, indelével foi a marca que deixou na Sua vida, de molde a considerá-lo « o segundo pai ». Basta dizer que, franqueando-lhe a sua biblioteca, O cativou para sempre para o amor aos livros.


publicado por Cristina Ribeiro às 07:50
Quarta-feira, 18 de Junho de 2014
 

                                                    Casa de Aquilino Ribeiro - Carregal, Sernancelhe.

 

Gaste assim as suas economias, não as malbarate em fofas novelas gafadas de galicismos ", escreveu Camilo castelo Branco no livro « Cancioneiro Alegre »

 

Quando leio a boa prosa do escritor beirão, são muitas as vezes que recorro ao dicionário, tantos, mas saborosos, são os regionalismos.

Pouco que fosse, nos anos setenta do século passado havia algum trabalho na divulgação da nossa boa literatura. No caso de Aquilino, logo nos primeiros anos do Ensino Secundário ri com as proezas da Salta-Pocinhas, n« O Romance da Raposa » e do almocreve prodígio no jogo do pau, n« O Malhadinhas ».

Hoje estou certa de que foi esta primeira incursão na escrita riquíssima do homem do Carregal que me abriu o apetite para depois ler outros livros seus. 

 
 


publicado por Cristina Ribeiro às 16:27
Quarta-feira, 07 de Maio de 2014

Camilo versus Eça: um confronto que só existe na cabeça dos incondicionais de cada um dos escritores. Certo que, genericamente, gosto mais da tão castiça escrita do homem de Seide, mas tenho como obras-primas, indispensáveis, alguns dos livros de Eça: aí estão, nomeadamente,  A Ilustre Casa de Ramires ou Os Maias.

 Vem tal a propósito de texto lido na Revista Gil Vicente - um excerto do livro « No Saguão do Liberalismo », de Fernando Campos.

" É ponto assente que o romancista da Ilustre Casa de Ramires nunca foi esse desnacionalizador sistemático, apontado às turbas inconscientes por certa crítica leviana.
Acusaram-no de francês, de estrangeirado, de autor rebelde às disciplinas tradicionais da linguagem - que teria maculado por desconhecer os clássicos - e de mau português, que desdenhava a sua terra. ( ... )
Diferente é o parecer de Agostinho de Campos, crítico autorizado da obra queirosiana, o qual sustentava que ' Eça provou que era, ao contrário, portuguesíssimo, num Portugal que abdicara todo da sua velha individualidade nacional ' "
O próprio Eça defendera-se dessa acusação no artigo « O Francesismo », acrescenta Fernando Campos. Com efeito, aí o autor d'A Cidade e as Serras diz que aos homens de 1820 devia Portugal o estar curvado aos ditames que sopravam de França; que embora o assacassem de afrancesado, a verdade é que « em lugar de ser culpado da nossa desnacionalização fui uma das melancholicas obras d'ella », ele que « ainda com sapatinhos de crochet » " começara a respirar a França, e a ver só a França à sua volta."
Este livro, em que nos apresenta um Jacinto cansado do cosmopolitismo parisiense mas também, antes, na Ilustre Casa, um Gonçalo que em tudo faz lembrar Portugal, acabaria de vez com tais calúnias?



publicado por Cristina Ribeiro às 20:12
Terça-feira, 25 de Fevereiro de 2014


« Licante »?; « Lapador »?; « regateiras-de-Abril »?; « arroz de goldras »?; « comer focinho de porco »?.........................



Livro póstumo, este, publicado em Dezembro de 1970, mas sobre o qual João Araujo Correia havia já escrito dois anos antes, n'O Comércio Do Porto, porque, necessariamente, acompanhara a sua génese, a sua elaboração, fruto do " enamoramento pelo vocabulário regional ainda vivo nos Arcos de Valdevez [ " terra de coração " do escritor bracarense ] e, aqui no Douro, em Aldeia de Cima, donde é oriundo, por qualquer costela, e aonde vem, de tempos a tempos, visitar Fausto José ".


São termos e expressões que colhe junto do povo, e que, por mais que procure a sua origem e sentido, esbarra com o silêncio dos dicionaristas, os quais " por vezes,sabem ainda menos que um - apre, que analfabetos! - e outras, frequentes, dão raia. ..."; é ainda junto desse povo chão que ele busca, e encontra, as tão apetecidas significâncias.



publicado por Cristina Ribeiro às 15:41
Terça-feira, 18 de Fevereiro de 2014
Em tarde de chuva, e olhando os montes quase cobertos por densa neblina, volto, como faço amiúde, ao Diário Quase Completo de João Bigotte Chorão: sei que nele vou encontrar o aconchego que me pede o espírito em dia de tão inclemente clima. Tom confessional, que só fica bem em escritores que possuem o dom, mas também a sabedoria, de o verter em boa literatura.
E, posto que é muito curta a minha incursão por literaturas estrangeiras, penso, cotejando o que numa e noutras me foi dado ler, que é na literatura pátria, mormente na que se fez até ao fim da primeira metade do século findo, com poucas excepções, onde encontro mais e melhores motivos de deleite. Concluo, logo de seguida, que a acalentada Alma Portuguesa não tem como único intérprete o Fado. Os nossos escritores não deixaram que isso acontecesse.
Há muito tempo ouvi a alguém que tinha encontrado, na essência, certa similitude na literatura que se fazia no país dos czares. Lembro de que por então ainda nada dela conhecia, mas quando comecei a ler os livros do autor de Crime e Castigo, não me pesou nada concordar


publicado por Cristina Ribeiro às 12:48
 o escritor não se cansa de zurzir os que à língua pátria dão tratos de polé, a quem, muito justamente, chama ingratos, e não foge João de Araújo Correia de dizer que " uma das causas da degeneração da nossa língua é o descaso que toda a gente faz dos escritores portugueses "; ainda se tal ingratidão " recaísse apenas em escritores maus "...
Mais diz: " O culto dos nossos livros, dignamente escritos, desapareceu. A prosa dum Herculano, dum Garrett, dum Camilo, dum Eça ou dum Ramalho jaz arrumada em prateleiras como corpos mortos em gavetões de jazigo. "

É mesmo de Ingratidão que se trata, esse aleijão que veio para ensombrar a vida em Portugal, e não apenas no que à língua se refere.


publicado por Cristina Ribeiro às 12:37
Segunda-feira, 23 de Dezembro de 2013

Em 1885, ainda o autor do livro que venho de ler, « Coisas Espantosas », vivia em Seide, escrevia Manuel Pinheiro Chagas algo que qualquer leitor de Camilo tem como inatacável: " a opulência da linguagem só tem por igual a riqueza do seu estilo ".

É, porém, em Revista bem posterior, porque vinda a público apenas em 1916 - « Camiliana- Archivo de Materiaes Para Um Monumento Litterario Ao Grande Escriptor » que leio tal apreciação do seu contemporâneo. E mais diz o autor do polémico « Poema da Mocidade »:

" Ao percorrermos rapidamente a lista enorme das obras de Camilo pasmamos! Que espírito fecundíssimo e vário! Que talento tão maleável! ( ... ). Como pode o escritor vigoroso e terrível que descreve os dramas do adultério e do crime traçar ao mesmo tempo as páginas castas e suaves d' « O Bem e o Mal »!

E no meio de tudo isto aparecem livros que só Camilo sabe escrever: são os romances humorísticos no género da « Queda de  um Anjo »...................

E todas estas obras, o romance, o panfleto, o drama, o folhetim..., em que maravilhosa linguagem são escritas. Nunca a Língua Portuguesa se mostrou no nosso tempo mais nervosa, mais rica, mais maleável! "

Por tudo isto, mas também por muito mais do que isto, vimos nos dias de hoje uma escritora que a ele por bastas vezes foi beber - a consagrada Agustina - lapidarmente proclamar: " 

'Quando o coração me falha neste dialecto de escrever livros, volto-me

para Camilo, que é sempre rei mesmo em terra de ciclopes "...



publicado por Cristina Ribeiro às 20:24
Segunda-feira, 28 de Outubro de 2013
Que instinto te acorda e guia,
Da noite com que afliges
Esta tristeza sozinha
E amargurada do vale, 
Para a montanha distante,
Quando,
Como um audaz caminheiro,
Fugindo do cativeiro,
Alegre o sol vem cantando
Em sua estrada real?
...................................
......................................
 

Que era grande amigo de Tomaz de Figueiredo, fez-mo saber um amigo comentarista. Até então não sabia nada de Fausto José.
Acerca de uma visita a Ucanha e a Tarouca, falou-me em Armamar, no Douro, e que teria feito muito bem se tivesse subido um bocado até à Aldeia de Cima, onde o poeta acolhia amiúde o escritor de Valdevez. Fiquei com vontade de a visitar, claro, mas foi sempre um destino adiado até que me propus rever a, certamente - como vim a confirmar - já restaurada ermida de S. Domingos, ali vizinha ( freguesia de Fontelo ), e que se encontrava em obras de restauro.
Procurei os seus poemas e soube que a Câmara de Armamar os reeditou não há muito tempo. Mas não descansei até o encontrar, integrado na antologia « Líricas Portuguesas », coordenada por Cabral do Nascimento. Dela esta « Névoa ».



publicado por Cristina Ribeiro às 19:09
Sexta-feira, 18 de Outubro de 2013

" Li-o duas vezes, que eu desconfio sempre da minha primeira leitura, que é raro coincidir com a segunda: ou me causa uma impressão melhor ou pior. Com a sua admirável novela, na segunda leitura foi melhor a impressão recebida. Feriu-me, sobretudo, no desenho nítido das paisagens, a figura esboçada do personagem principal. Nisto reside o maior merecimento da obra! O ser humano, porque é vivo, é indefinido, perante as cousas mortas ou simplesmente animadas. Este contraste, tão eloquente! no seu livro, porque faz ressaltar a verdade que vislumbramos no panorama do mundo, feriu-me, repito, duma maneira muito especial e original! Trata-se duma escritora de raça, dotada de excepcionais qualidades visionárias, do instinto do real. Sem este instinto, há só literatura, e mais nada. Se os românticos excederam a realidade, caindo na falsidade, os chamados naturalistas cometeram o pecado contrário, e tornaram-se inferiores à Natureza. A autora do « Mundo Fechado » não praticou esses erros. E, por isso, a felicito com o maior entusiasmo! "

 

Carta de Teixeira de Pascoaes, agradecendo a oferta do primeiro romance da escritora amarantina.

 

   * Agustina Bessa-Luís



publicado por Cristina Ribeiro às 23:42
Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...
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