Sexta-feira, 18 de Outubro de 2013

A mulher bem lançava os olhos ao caminho, e resmungava.

Havia já quase meia hora que o mandara por mor de meia broa...  sim, que era dia em que a vendeira cozia, e o seu Manel não a dispensava na hora da sopa...

Ai dele, quando chegasse! Se a venda não ficava nem a cinco minutos de casa... Decerto algum ninho de pássaro, ou algum catraio a desafiá-lo para uma corrida até ao rio... E ia olhando o carreiro por onde viria o seu homem; devia estar a chegar... dianho de rapaz!...


Estava nisto, quando ouviu um assobio, vindo de lá das bandas da aldeia: - e ainda assobiava, o malandro...


Que estivera à espera que a dona Lucinda tirasse a broa do forno, pois que tivera de ir ao médico e se atrasara.


E já lá chegava o pai, de enxada ao ombro: vinha cheio de fome.

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publicado por Cristina Ribeiro às 23:34
Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012

                                                            

Deus está atento.

É a frase que me vem à cabeça sempre que penso nela: uma mulher jovem, do meu círculo de amizades, engravidou. Até aqui tudo bem.

Acontece que era uma fumadora inveterada, a quem o médico, tinha ela 12 anos, disse para colocar à frente da cama a radiografia dos pulmões para que, todos os dias, se desse conta do mal que estava a fazer-lhes, e que, quando o dentista a pôs perante uma escolha- o cigarro ou os dentes-, não hesitou em optar pelo tabaco, acrescendo ainda o facto de um exagerado apego ao álcool ser causa de vários alertas hepáticos, sempre ignorados.

" Era ", escrevi, porque, e nisso maravilhou toda a gente, pois que  todos disseram " mais nada, nem ninguém, no mundo a faria mudar de comportamento ", logo que soube da gravidez deixou de fumar e de beber, porque se consciencializou de que o filho, com quem passou a falar regularmente, enquanto acaricia a barriga, lho pedia.

 Só " aquela coisinha humana ".


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publicado por Cristina Ribeiro às 15:50
Quarta-feira, 09 de Fevereiro de 2011

Já o escuro da noite, que durante horas a acompanhara naquele estado de vigília, dava lugar à claridade da manhã que agora rompia pela janela semi-aberta, e a lua cedia o lugar ao sol, que prometia iluminar mais um dia frio. Diálogos que guardara de tempos passados misturavam-se com outros imaginários, tão imaginários quanto os seus interlocutores. No corredor o silêncio apenas era cortado a cada meia hora por mais uma badalada do pêndulo do velho relógio de parede.

Não demoraria a ouvir a chilreada dos pássaros que, enganados na Estação, se tinham antecipado à Primavera, e se haviam recolhido no beiral da casa.Nessa altura talvez o sono vencesse, como já tantas e tantas vezes acontecera, e então deixar-se-ia embalar no aconchego, onde continuaria aqueles diálogos antes encetados, agora no mundo, imaginário também ele, do sonho.


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publicado por Cristina Ribeiro às 00:27
Quarta-feira, 01 de Dezembro de 2010

era ilegível, denunciando a passagem do tempo, mas a letra, bem via, era feminina, de uma elegância e leveza como nunca vira.

            Naquele dia, na casa dos avós, e sem nada que fazer naquele tempo por eles reservado à sesta, resolvera subir ao sótão, onde, por certo, encontraria, de entre aquelas velharias todas, algo que lhe distraísse o tédio.

Só depois de muito basculhar encontrou, numa gaveta de um velho contador, sem uma perna, aquele livro de capas vermelhas.

Com ele na mão, olhou pela janela: lá fora o tempo convidava à leitura, logo agora que o carvalho , debaixo do qual o avô instalara, no ano anterior, um banco de granito, começava a expor a nova folhagem.

Mais tarde, quando os avós acordassem, havia de lhes perguntar a quem pertencera...



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publicado por Cristina Ribeiro às 15:40

desde que casara com o António ( Deus o tenha em bô lugar! ), a Ser' Ana olhava suspirando o bando de rapazes e de raparigas que iam naquele dia, ( que naquele ano calhava ser numa Segunda Feira de Páscoa ), em alegre cantoria pelo caminho que levava à Senhora da Saúde.

Veio-lhe à memória aquele dia em que começara o namoro com o avô dos pequeninos que brincavam no terreiro em frente.

Lembrou-se então da toalha que, noite adentro, acabara de bordar: não seria porque tirara a tarde para folgar que a madrinha iria ficar sem ela, e ainda se alembrava bem de como lhe parecia que a agulha ganhara asas...; a toalha que agora estava na arca, que lá isso  a madrinha quisera porque quisera, ( " e não se discute mais! ) que lhe fizesse a mesa bonita aquando do casório, e, depois nos baptizados...



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publicado por Cristina Ribeiro às 15:36

com quem começara a guardar cabras, lá na Serra da Cabreira, e mesmo sabendo que aquele era um parente pobre dos demais instrumentos musicais, vistos de relance no livro do filho do Mestre-Escola, para ele não haveria nunca som mais bonito do que o que arrancava da gaita de beiços. Era então que esquecia os seus numerosos males...
E quando não conseguia adormecer era muito vulgar ouvir-se, e nisso rasgava o silêncio da noite, que até as relas respeitavam, o som da melodia que muitas vezes o acompanhava, noite adentro. Nessas alturas, o velho, que com ele partilhava o leito de folhelho, limitava-se a abanar a cabeça, num gesto de compreensão.E de olhos fechados, na escuridão daquele pequeno quarto sem janelas, pensava que só o tempo o ajudaria. Sabia - já passara pelo mesmo, e ali estava, rijo, pronto para lhe estender a mão, e assim guiá-lo até à claridade que, e ele sabia-o bem, não estava pronto ainda para enxergar.O tempo, a cura de todos os males...

Conhecesse o velho Marguerite Yourcenar, e pensaria, certamente, " O Tempo Esse Grande Escultor "...




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publicado por Cristina Ribeiro às 15:23

 

sem que vislumbrasse estrelas, ou sequer o mais ténue sinal de que a lua fosse aparecer. A escuridão descera como o pano negro de que , pouco antes, a tia falara ter visto cair sobre o palco, quando, uns meses atrás, fora ao Teatro, lá na Capital.

Mas, e antes que as esquecesse, iria escrever, no Diário que mantinha desde que aprendera as primeiras letras, um presente da mãe, que sempre a incentivara nessa escrita intimista, as palavras que ouvira ao padre-cura, em mais um daqueles serões que, periodicamente, aconteciam lá em casa; que eram palavras da Bíblia, tinha dito, e diziam da lealdade que desaparecera de entre os filhos dos homens, e da duplicidade que havia no seu coração.

Só então cerraria as portas à tormenta que se desenrolava lá fora, e apagaria a vela.


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publicado por Cristina Ribeiro às 15:17

Lembrava-se, oh!, como se lembrava, de se sentir quase irmanada à «  Linda Inês  » naquele « engano ledo e cego », e não se cansava de pedir ao Letes o esquecimento que o rio lhe negava, àquele ser que nele vivia, e que todos os dias invocava, nos campos elísios das margens limianas. «Amanhã Será Outro Dia », repetia-se todas as noites, numa quase certeza de que esse dia estava longe ainda.

Mas uma  noite, lá no Olimpo, os deuses condoeram-se, e deliberaram aliviá-la do redemoinho de sentimentos que abrigava no peito, e nessa manhã, quando os primeiros raios de sol, entrando pela janela, a despertaram de um sono que começara por ser revolto, teve a certeza de que  começava então o « Outro Dia ».

Sentiu-se uma fénix, a renascer das cinzas.



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publicado por Cristina Ribeiro às 15:14

 fora cumprir uma Promessa feita a Santa Luzia, fê-la prometer que só as  estrearia naquele dia: fazia vinte anos e  festejava-se a Santa a quem devia o nome. Sim, porque a madrinha, que agora lhe dava as arrecadas, tudo fizera, insistira, porque assim teria de ser, para que os pais lhe dessem esse nome. E estava-lhe agradecida, porque gostava de se chamar Marta...

Mas na gaveta onde as guardara, estava também o cordão de ouro que a avó lhe deixara de herdança, e já se imaginava  no terreiro em frente à capela, assim enfeitada...

A avó gostaria que o usasse , também, pensou...



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publicado por Cristina Ribeiro às 15:10

- tinham saído bem cedo, mal raiava a aurora -e com uma fome de cão, mas contentes.Porque se assim tinham pensado, melhor o fizeram, e o cesto de vime que levava a tiracolo ia agora cheio, com os  peixes que acabara de pescar naquele rio que continuava a conhecer tão bem. Não, não perdera o jeito...

Pelo caminho que levava a casa da tia, e enquanto o primo, num despreocupar muito seu, assobiava a moda da carrasquinha, ia pensando o quanto necessárias lhe eram estas estadias na aldeia, mas na certeza do regresso à cidade grande, onde, quando de lá saíu,  lançara raízes; era aí que estava o seu trabalho, e era aí que encontrava os amigos com quem se reunia para falar de outras coisas para além da pesca e da vida, forçosamente limitada, que ali se desenrolava, num ritmo que não era já o seu.



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publicado por Cristina Ribeiro às 15:08
Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...
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