Quarta-feira, 25 de Setembro de 2013
 ( Casa do Padre António de Azevedo, em Vilarinho de Samardã, onde Camilo passou " os primeiros e unicos felizes annos " da sua mocidade )

Viu-se já que a personalidade do autor de Novelas do Minho era tudo menos linear: a par de um marcado lado quezilento, rabugento, mal-humorado, que por quase todos é sublinhado, descobre-se, aqui e ali, uma outra faceta mais dulcificada. É dela também exemplo este, cada vez mais raro, sentimento de gratidão, que Silva Pinto não olvida quando escreve sobre aquele a quem chama Mestre.
Refere o escritor que começou por polemizar com o homem de Seide: " No seu livro « Duas Horas de Leitura » diz Camilo: «  Fui educado n'uma aldêa, onde tenho uma irmã casada com um médico, irmão de um padre que foi meu mestre. O mestre podia ensinar-me muita cousa que me falta; mas eu era refractário à luz da gorda sciencia do meu padre prior. ( ... ) A aldêa chama-se Villarinho da Samardan. Demora em Tras-os-Montes, na comarca de Villa-Real, sobranceira ao rio Corrego, no desfiladeiro de uma serra sulcada de barrocaes. ( ... ) O prior era o padre Antonio d'Azevedo. » "
  Mas já esse mesmo sentimennto não passara despercebido a quem leu « O Bem e o Mal », que Camilo dedica ao seu " professor ": 
                            " Meu amigo
                                            Ha vinte e tres annos que eu vivi em sua companhia.
Lembra-se d'aquelle incorrigivel rapaz de quatorze annos que ia á venda da Serra do Musio jogar a bisca com os carvoeiros, e a bordoada, muitas vezes?
Esse rapaz sou eu; é este velho que lhe escreve aqui do cubiculo de um hospital, muito vizinho do cemiterio dos Prazeres.
Eu sou aquelle a quem padre Antonio de Azevedo ensinou principios de solpha, e as declinações da arte franceza.
Sou aquelle que leu em sua casa as « Viagens de Cyro », o « Theatro dos Deuzes », os « Luziadas », « As Peregrinações de Fernão Mendes Pinto », e outros livros, que foram os primeiros.
Sou aquelle que, sem saber latim, resava matinas e laudas com o padre Antonio.
Sou, finalmente, aquelle a quem o padre Antonio disse: - « o tempo ha de fazer de você alguna cousa. »
Passados vinte e tres annos lembrou-me dedicar este livro ao meu venerando amigo, e rogar-lhe que peça a Deus por mim. "


publicado por Cristina Ribeiro às 20:49
Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...
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