Terça-feira, 20 de Maio de 2014

o autor da « Enfermaria do Idioma », com a autoridade de quem mostrou, no muito que escreveu, cuidados tamanhos com a Língua da Pátria Grande, vem nesse seu escrito zurzir, em acto premonitório, já se disse, o que houveram por bem designar acordo ortográfico, em dia de falha inspiração; aborto, veio depois a correcção.

Certeiro, quando escreve: " Letras aparentemente ociosas campeiam em qualquer Língua aparentada com o Português. Alguém convencerá o Espanhol a suprimir o d de soledad? Alguém convencerá o Francês a suprimir o de gilet? Dirá o espanhol que o d lhe abre o a. E o Francês que o t lhe abre o e.

Antes o " gilet " fique sem botões do que sem e aberto - diria o Francês com aborrecida graça, a quem lhe propusesse a supressão do " t ".

            Nós, se nos quiserem tirar o c de espectador, somos capazes de concordar. Não diremos que o abre o que tem às costas, não diremos que é preciso distinguir espectador de espetador, não diremos nada. Nem sequer diremos que o , em muitos casos, deve subsistir para nos não divorciarmos de civilizações latinas, próximas da nossa civilização. Haja em vista o de actor e outros. "

 

Como estava longe, João de Araújo Correia, dos Malaca Casteleiros. Mas previu que eles nos pudessem surgir pela frente. E disse-nos para resistirmos.



publicado por Cristina Ribeiro às 22:10
Quarta-feira, 14 de Maio de 2014
 
Estávamos na região da Beira Interior, em terras de Riba-Côa.
No distrito da Guarda, depois de visitarmos Castelo Mendo, e antes de chegarmos a Almeida, sede do município, uma encantadora aldeia, de granito também. É Castelo Bom, que, no século XIII, e após ser assinado o Tratado de Alcanizes por Fernando IV de Leão e Castela e D. Dinis, passa a integrar o território português, tornando-se, consequentemente, e tal como todas as praças daquela zona, num importante baluarte de defesa contra futuras invasões do estrangeiro - primeiro do castelhano, depois fazendo frente ao francês.


publicado por Cristina Ribeiro às 23:01
Segunda-feira, 12 de Maio de 2014
 
 
 

" Canta o « Suão » p'la força da estiagem
e, á caustica vertigem de a abrazar,
em crispações de luz cai na paisagem,
ébrio de raiva, o sol canicular.

 

 

Do saibro vivo que arde entre a folhagem
ao largo uma cegonha ergue-se ao ar
e contra o vento as asas mal reagem,
cansadas já de tanto se exforçar.

 

 

Na farta ondulação da cor, os olhos
recolhem da impressão mordente e vasta
só traços discordantes de arabesco.

 

 

Perdidos por alqueives e restolhos,
em torno deles tudo o mais se empasta
como um borrão violento ainda fresco. "

 

                 António de Monforte

                 ( António Sardinha )

 


publicado por Cristina Ribeiro às 22:18
Quarta-feira, 07 de Maio de 2014

Camilo versus Eça: um confronto que só existe na cabeça dos incondicionais de cada um dos escritores. Certo que, genericamente, gosto mais da tão castiça escrita do homem de Seide, mas tenho como obras-primas, indispensáveis, alguns dos livros de Eça: aí estão, nomeadamente,  A Ilustre Casa de Ramires ou Os Maias.

 Vem tal a propósito de texto lido na Revista Gil Vicente - um excerto do livro « No Saguão do Liberalismo », de Fernando Campos.

" É ponto assente que o romancista da Ilustre Casa de Ramires nunca foi esse desnacionalizador sistemático, apontado às turbas inconscientes por certa crítica leviana.
Acusaram-no de francês, de estrangeirado, de autor rebelde às disciplinas tradicionais da linguagem - que teria maculado por desconhecer os clássicos - e de mau português, que desdenhava a sua terra. ( ... )
Diferente é o parecer de Agostinho de Campos, crítico autorizado da obra queirosiana, o qual sustentava que ' Eça provou que era, ao contrário, portuguesíssimo, num Portugal que abdicara todo da sua velha individualidade nacional ' "
O próprio Eça defendera-se dessa acusação no artigo « O Francesismo », acrescenta Fernando Campos. Com efeito, aí o autor d'A Cidade e as Serras diz que aos homens de 1820 devia Portugal o estar curvado aos ditames que sopravam de França; que embora o assacassem de afrancesado, a verdade é que « em lugar de ser culpado da nossa desnacionalização fui uma das melancholicas obras d'ella », ele que « ainda com sapatinhos de crochet » " começara a respirar a França, e a ver só a França à sua volta."
Este livro, em que nos apresenta um Jacinto cansado do cosmopolitismo parisiense mas também, antes, na Ilustre Casa, um Gonçalo que em tudo faz lembrar Portugal, acabaria de vez com tais calúnias?



publicado por Cristina Ribeiro às 20:12
Terça-feira, 06 de Maio de 2014

 
" O primeiro documento que alude a uma fortificação data de 960, ano em que Numão aparece integrada na lista de fortalezas doadas por D. Flâmula ao Mosteiro de Guimarães. Por essa altura, é já claro que o topo do monte albergava uma estrutura militar, ainda que se desconheça, por completo, quais as suas características.
No século XII, a vila integrou o primeiro momento de organização portuguesa, passando pouco depois (1130) para a posse de Fernão Mendes de Bragança, principal nobre vinculado à autoridade de D. Afonso Henriques no nordeste do reino. Nos reinados seguintes, multiplicam-se os novos forais e as sugestões de obras no conjunto. O principal diploma data de 1291 e foi passado por D. Dinis, atribuindo-se às décadas imediatamente seguintes a redefinição do sistema militar. ( ... ) Durante o século XIV, Numão desfrutou de alguma importância, certamente motivada pela posição estratégica face ao rio Douro e à recentemente consolidada fronteira com Leão. No entanto, logo no início do século XV, existem indícios de dificuldades de povoamento, a ponto de D. Duarte ter determinado a instituição de um couto de homiziados. Em 1527, a vila muralhada possuía apenas 15 moradores e, pouco depois, há a referência à habitação permanente do alcaide em Freixo de Numão e não no castelo. Os séculos da Idade Moderna assinalam a progressiva decadência da fortaleza medieval, processo parcialmente invertido pela acção da DGEMN na década de 40 do século XX, que logrou estancar a ruína do conjunto. "
 
 
 
 
O Verão estava no fim e mais uma vez estávamos na sub-região do Douro. Nas cores dos vinhedos o Outono já se fazia sentir, mas o calor era o mesmo de Agosto.
Terras de Foz Côa. Da quinta do Vesúvio, bem lá no cimo do monte fronteiro, uma torre, umas ruínas; " - É o castelo de Numão ", disseram quando perguntámos. E fomos. 
Logo à entrada da aldeia, o busto do nobre Fernão Mendes, a quem todas as terras em redor haviam sido confiadas pelo primeiro Rei de Portugal, e que tem na mão a carta de foral que vai conceder a esta vila.
Um cenário grandioso, não obstante o aspecto arruinado. Velhas amendoeiras ladeavam os velhos caminhos que conduziam ao castelo, que, adivinhava-se, terá sido imponente nos seus tempos áureos. Dentro das muralhas, uma igreja românica, a que foram acrescentados alguns arcos em estilo gótico: é a Igreja de Santa Maria. Ali perto, várias colunas que terão, talvez, pertencido a romano forum.
O silêncio, a sensação de paz são indescritíveis, num lugar que parou no tempo, para dar maior protagonismo à vizinha Freixo de Numão
Mais uma boa surpresa nestas deambulações por pátrias terras.
 


publicado por Cristina Ribeiro às 22:06
Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...
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