Quarta-feira, 01 de Dezembro de 2010

 

 

 

Como todos os cachorrinhos, o Gauguin era muito brincalhão e roía tudo o que lhe aparecia pela frente, Meigo, muito meigo, como muitos dos da sua espécie, especialmente os Labradores.
Foi crescendo, sempre muito acarinhado por todos, até atingir o porte que hoje é o dele: um cão imponente, com um olhar aquoso que desperta a ternura do humano mais indiferente. Foi por essa altura que uma companheira se lhe veio juntar: a Siena. Encontrada na rua, uma bela cadela castanha -cor - de - pinhão, que contrastava com o branco - marfim do Gauguin. Foi amizade ao primeiro olhar e logo se tornaram inseparáveis: onde estava um, era certo encontrarmos a outra.
Faziam as delícias dos condutores, quando, logo de manhã, iam para um lugar sobranceiro à estrada, de onde viam os carros passar. E era como se estivessem a ver um jogo de ténis, olhando ora para um lado, ora para outro,observando o movimento nos dois sentidos. O tempo ia decorrendo, num contentamento partilhado, até que a tragédia veio, abruptamente, pôr um fim a tão perfeita comunhão: gostavam de vez em quando, de atravessar o portão e andar pelos montes, mas sempre voltavam, muitas das vezes esfomeados, depois de incursões cansativas, Mas um dia não foi assim, e a Siena foi atropelada.Tristeza de nós todos e profunda solidão do Gauguin, que passou dias sem comer, ele que come tudo o que lhe aparece pela frente: não podia saber o que se tinha passado com a amiga...

 

Outros cães e cadelas vieram depois, atenuando a perda, mas nunca aquela amizade se repetiu.
Hoje, com 13 anos, o Gauguin está velho e surdo. Mas continua aquele cão muito meigo, que, assim que vê algum de nós, se deita com as patas para o ar, para que façamos carícias na barriga.Quando, de manhã, uma irmã vai correr, o Gauguin vai sempre atrás dela. Acompanha-o a Gorki, uma cadelinha preta, que por ser mais nova o provoca constantemente para a brincadeira; por vezes o Gauguin alinha, mas, sentindo o peso dos anos, nem sempre está para a aturar.



publicado por Cristina Ribeiro às 16:23

 

- Jogar a pinhões...; temos de jogar a pinhões na noite de Natal. Os mais pequenos não conhecem essa tradição, de que tanto gostávamos na idade deles...

- Precisamos então de comprar um Rapa, e arranjar pinhas.

 

Enquanto saboreávamos as batatas com bacalhau, as pinhas, bem no meio do borralho, na lareira, aqueciam até se abrirem, e delas podermos, depois da ceia,tirar os pinhões, que submergíamos na água de um alguidar: só os que iam ao fundo entravam no jogo- os outros eram lançados ao fogo.

               Reuníamos os pinhões e lançávamos um dado de madeira, com as letras R, T,D e P- sorte a daquele que Rapava os pinhões todos e azar daquele a quem só saía a letra P, de " põe".

Fosse qual fosse o resultado, o saldo era sempre divertimento certo.



publicado por Cristina Ribeiro às 16:11

 

Já todos em férias escolares, primeiro os mais velhos, que já frequentavam o Secundário, em Guimarães, depois nós os que ainda éramos alunos da D. Maria ou da D.Laurinha, na Escola Primária de Sande. Nesse dia, que é também o do aniversário duma irmã, a programação televisiva, até ao cair da tarde, era preenchida pelo " Natal dos Hospitais ".

Bem agasalhados, lá nos dirigíamos para o Souto, aqui perto, para apanharmos musgo, o melhor das redondezas: rasteiro e muito verde, era difícil arrancá-lo dos penedos onde crescera- lembro-me de uma vez ter dito ao irmão mais velho que " aquele " era realmente o mais bonito, mas o  quão dificultoso ele era, e ele me ter respondido, com o saber de rapaz que já estudava na Cidade, " tudo o que é bom, é difícil"-

             Musgo  na caixa de papelão, chegara a hora de começar o Presépio: primeiro, desembrulhar as figuras, que a mãe tinha guardado no ano anterior, e eram muitas- além da Sagrada Família, havia os Reis-Magos, os pastores, as ovelhas...

A cabana, sempre muito elaborada, feita com canhotas, era o pai que a fazia.Depois podíamos dar asas à imaginação: lagos com papel de prata, caminhos  demarcados com serrim...

 

                   Com o passar dos anos, o Presépio foi-se simplificando, até chegar à forma actual, em que só a Sagrada Família, o burrinho e a vaquinha aparecem, mas à volta dela os pequeninos ainda  se extasiam.




publicado por Cristina Ribeiro às 15:44

era ilegível, denunciando a passagem do tempo, mas a letra, bem via, era feminina, de uma elegância e leveza como nunca vira.

            Naquele dia, na casa dos avós, e sem nada que fazer naquele tempo por eles reservado à sesta, resolvera subir ao sótão, onde, por certo, encontraria, de entre aquelas velharias todas, algo que lhe distraísse o tédio.

Só depois de muito basculhar encontrou, numa gaveta de um velho contador, sem uma perna, aquele livro de capas vermelhas.

Com ele na mão, olhou pela janela: lá fora o tempo convidava à leitura, logo agora que o carvalho , debaixo do qual o avô instalara, no ano anterior, um banco de granito, começava a expor a nova folhagem.

Mais tarde, quando os avós acordassem, havia de lhes perguntar a quem pertencera...



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publicado por Cristina Ribeiro às 15:40

desde que casara com o António ( Deus o tenha em bô lugar! ), a Ser' Ana olhava suspirando o bando de rapazes e de raparigas que iam naquele dia, ( que naquele ano calhava ser numa Segunda Feira de Páscoa ), em alegre cantoria pelo caminho que levava à Senhora da Saúde.

Veio-lhe à memória aquele dia em que começara o namoro com o avô dos pequeninos que brincavam no terreiro em frente.

Lembrou-se então da toalha que, noite adentro, acabara de bordar: não seria porque tirara a tarde para folgar que a madrinha iria ficar sem ela, e ainda se alembrava bem de como lhe parecia que a agulha ganhara asas...; a toalha que agora estava na arca, que lá isso  a madrinha quisera porque quisera, ( " e não se discute mais! ) que lhe fizesse a mesa bonita aquando do casório, e, depois nos baptizados...



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publicado por Cristina Ribeiro às 15:36

com quem começara a guardar cabras, lá na Serra da Cabreira, e mesmo sabendo que aquele era um parente pobre dos demais instrumentos musicais, vistos de relance no livro do filho do Mestre-Escola, para ele não haveria nunca som mais bonito do que o que arrancava da gaita de beiços. Era então que esquecia os seus numerosos males...
E quando não conseguia adormecer era muito vulgar ouvir-se, e nisso rasgava o silêncio da noite, que até as relas respeitavam, o som da melodia que muitas vezes o acompanhava, noite adentro. Nessas alturas, o velho, que com ele partilhava o leito de folhelho, limitava-se a abanar a cabeça, num gesto de compreensão.E de olhos fechados, na escuridão daquele pequeno quarto sem janelas, pensava que só o tempo o ajudaria. Sabia - já passara pelo mesmo, e ali estava, rijo, pronto para lhe estender a mão, e assim guiá-lo até à claridade que, e ele sabia-o bem, não estava pronto ainda para enxergar.O tempo, a cura de todos os males...

Conhecesse o velho Marguerite Yourcenar, e pensaria, certamente, " O Tempo Esse Grande Escultor "...




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publicado por Cristina Ribeiro às 15:23

 

sem que vislumbrasse estrelas, ou sequer o mais ténue sinal de que a lua fosse aparecer. A escuridão descera como o pano negro de que , pouco antes, a tia falara ter visto cair sobre o palco, quando, uns meses atrás, fora ao Teatro, lá na Capital.

Mas, e antes que as esquecesse, iria escrever, no Diário que mantinha desde que aprendera as primeiras letras, um presente da mãe, que sempre a incentivara nessa escrita intimista, as palavras que ouvira ao padre-cura, em mais um daqueles serões que, periodicamente, aconteciam lá em casa; que eram palavras da Bíblia, tinha dito, e diziam da lealdade que desaparecera de entre os filhos dos homens, e da duplicidade que havia no seu coração.

Só então cerraria as portas à tormenta que se desenrolava lá fora, e apagaria a vela.


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publicado por Cristina Ribeiro às 15:17

Lembrava-se, oh!, como se lembrava, de se sentir quase irmanada à «  Linda Inês  » naquele « engano ledo e cego », e não se cansava de pedir ao Letes o esquecimento que o rio lhe negava, àquele ser que nele vivia, e que todos os dias invocava, nos campos elísios das margens limianas. «Amanhã Será Outro Dia », repetia-se todas as noites, numa quase certeza de que esse dia estava longe ainda.

Mas uma  noite, lá no Olimpo, os deuses condoeram-se, e deliberaram aliviá-la do redemoinho de sentimentos que abrigava no peito, e nessa manhã, quando os primeiros raios de sol, entrando pela janela, a despertaram de um sono que começara por ser revolto, teve a certeza de que  começava então o « Outro Dia ».

Sentiu-se uma fénix, a renascer das cinzas.



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publicado por Cristina Ribeiro às 15:14

 fora cumprir uma Promessa feita a Santa Luzia, fê-la prometer que só as  estrearia naquele dia: fazia vinte anos e  festejava-se a Santa a quem devia o nome. Sim, porque a madrinha, que agora lhe dava as arrecadas, tudo fizera, insistira, porque assim teria de ser, para que os pais lhe dessem esse nome. E estava-lhe agradecida, porque gostava de se chamar Marta...

Mas na gaveta onde as guardara, estava também o cordão de ouro que a avó lhe deixara de herdança, e já se imaginava  no terreiro em frente à capela, assim enfeitada...

A avó gostaria que o usasse , também, pensou...



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publicado por Cristina Ribeiro às 15:10

- tinham saído bem cedo, mal raiava a aurora -e com uma fome de cão, mas contentes.Porque se assim tinham pensado, melhor o fizeram, e o cesto de vime que levava a tiracolo ia agora cheio, com os  peixes que acabara de pescar naquele rio que continuava a conhecer tão bem. Não, não perdera o jeito...

Pelo caminho que levava a casa da tia, e enquanto o primo, num despreocupar muito seu, assobiava a moda da carrasquinha, ia pensando o quanto necessárias lhe eram estas estadias na aldeia, mas na certeza do regresso à cidade grande, onde, quando de lá saíu,  lançara raízes; era aí que estava o seu trabalho, e era aí que encontrava os amigos com quem se reunia para falar de outras coisas para além da pesca e da vida, forçosamente limitada, que ali se desenrolava, num ritmo que não era já o seu.



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publicado por Cristina Ribeiro às 15:08

 

cortava a mudez da noite. Pedira-lhe um cigarro, ele que pouco antes lhe dissera andar a lutar contra o vício.

Não quis interromper o monólogo interior que, adivinhava-o, começara logo que deixaram para trás a povoação, aonde tinham ido encontrar os amigos . Há quanto tempo não os via ele? Quinze anos? Vinte?

Deixara a aldeia para ir estudar na cidade grande, e nunca mais voltara. Era verdade que ainda o via amiúde, pois que com frequência tinha papelada a tratar por lá, mas ele...; ele não reconhecera ninguém;  teve de lhe reavivar a memória lembras-te? é o Tónio Melro, que andava sempre à cata dos ninhos..., e acabava por se lembrar de todos.

Por lá ficara, e até tinha montado banca de advogado, por sinal muito concorrida, tinha-lho dito a tia, quando os foi visitar havia pouco tempo...

E agora, de um momento para o outro, aparecia-lhe ali em casa... ; que precisava de férias...

 

Quando entravam em casa, virou-se o primo: prepara as canas; amanhã vamos pescar. A ver se ainda lhe não perdi o jeito...


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publicado por Cristina Ribeiro às 15:02

 

As horas custavam a passar, e o sol demorava a romper por entre a escuridão. Calma! há-de chegar! dizia-se a cada momento. E, como a Primavera, que se segue sempre ao Inverno, ele acabou por surgir, bem luminoso, e com a promessa de tudo aquecer.

E começou por lhe iluminar o  coração, que até aí só enxergava o lado negro da vida.

Sentia-se agora com forças para escolher, naquela encruzilhada que o fizera hesitar, o caminho a seguir, seguro e esperançoso.

Era bem verdade que o amanhã é sempre outro dia!



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publicado por Cristina Ribeiro às 14:56

Saíra de casa para espairecer. Tentar, consultando os seus botões, encontrar uma saída airosa para o buraco negro que se tornara a sua vidinha, tão sem raios de sol a aquecê-la. As nuvens negras tinham vindo do nada, sem grandes avisos prévios, ou então eles tinham surgido, mas, na grande distracção em que mergulhara nos últimos tempos, não parara para os ouvir; e agora sentia-se assim, um traste. Naquela manhã levantara-se com mais ânimo: tinha de sair daquele beco escuro, e, assim pensando, meteu os pés ao caminho.

À sua frente, uma encruzilhada; que caminho seguir, dos quatro possíveis, interrogava-se.

Enquanto assim cogitava, sentava-se numa pedra que lhe pareceu um bom sítio para descansar, depois da grande  caminhada. E olhou o horizonte, sem que nele encontrasse a resposta que esperava. Ficou por ali, enquanto o sol ia declinando, até que se fez noite.

Hoje já não vou adiante. Amanhã será outro dia!

E voltou para casa, mesmo sabendo que a solidão que nela ia encontrar seria mais negra que a própria noite sem luar.



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publicado por Cristina Ribeiro às 14:53

 

 

e, enchendo-se de coragem, aproximaram-se, dizendo-lhe que o seu homem não voltava, que o mar o guardara para sempre. Olhou-as, com um olhar alucinado, e chamou-as de loucas; que tinha de  pôr-se bonita porque  o barco devia estar a chegar, e a areia, onde passara a noite à espera, colara-se-lhe ao corpo - não queria que ele a visse assim.



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publicado por Cristina Ribeiro às 14:47

Mas então acontecera aquela tragédia. Esperar que o tempo aliviasse a dor...

Agora, três anos depois, dissera à mãe: ia ser pescador; o tio arranjara-lhe um lugar no seu barco...

Cheia de receios, a viúva do Tónio Mestre acatava a vontade do filho. Fazer o quê? rezar para que tudo corresse bem...

   Chegada a madrugada da primeira largada, as mulheres, como sempre, acompanhavam os seus homens à praia, e dentre elas destacava-se o vulto negro da mãe, que tratava, sabe-se lá a que custos, de mostrar um semblante calmo e encorajador.

Enquanto o barco se afastava ergueu os olhos ao céu, numa preçe -  Que volte cedo, e bem! - para logo os fixar de novo no mar, onde só se via já, ao longe, um pequenino ponto,como que a suplicar-lhe se mantivesse calmo, como calmo estava agora...


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publicado por Cristina Ribeiro às 14:43

 

 

nem por isso se impediu de confessar à árvore, que sempre a ouvira em silêncio, quase um ombro onde podia chorar as mágoas, a causa da tristeza que a afligia. Estava, ao fazê-lo, ciente de que quando o vento viesse abanar as folhas, estas não conseguiriam esconder-lhe o que lhes segredara; que quando este fosse agitar as águas do rio, também  este ficaria a saber do seu estado de espírito, e que  quando as andorinhas nele fossem beber, partilhariam do seu segredo.

Mas até se sentia menos só, porque sabia de antemão que o ombro a que se confiara se multiplicaria por muitos, todos eles confiáveis.



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publicado por Cristina Ribeiro às 14:39

 

 

Parou o carro e, descalçando-se, foi em direcção ao mar, o qual se divertia naquele fazer e desfazer de ondas que vinham morrer na areia. Há tanto tempo que  não enterrava nela os pés....

Uma vontade súbita de volltar à infância, e procurar as conchinhas que ficavam dessas idas e vindas da espuma branca. Um sorriso, ao lembrar-se da alegria então sentida, sempre que encontrava um beijinho de amor, raros que eram...

E  foi agachada que repetiu os gestos de outrora; a mão que revolve a areia  molhada, como molhado ficou o  vestido, quando até ela chegou uma onda mais forte, num exame minucioso, onde não faltava a expectativa; como dantes.


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publicado por Cristina Ribeiro às 14:32

 

Ia passá-lo a casa dos avós. Lembrou a última vez que lá fora, com a Primavera a anunciar a sua chegada nas folhas verdes, pequenos rebentos ainda, do centenário carvalho plantado por um antepassado ( a avó dissera-lhe o seu nome, mas não o retivera - havia de lho perguntar... ), à sombra do qual lera aquele livro que tanto a intrigara...; tinha pertencido a esse avô longínquo, oferta de uma noiva que tivera antes de casar, e que morrera quando ambos preparavam o casamento. Não chegara, pois, a fazer parte da família, mas, depois que a avó lhe contou esta história, lido já o livro e decifrada a dedicatória, sentiu-a tão próxima...



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publicado por Cristina Ribeiro às 14:23

 

se divertia a pisar, bem forte, aquele tapete de folhas caídas. De mãos dadas, lembrava-se, a sensação era melhor ainda. Escutar o crepitar. Começaram aí a sulcar juntos as estradas da vida.

Mas agora o Nelo estava longe; que não demoraria, prometera-lhe.

Apeteceu-lhe escrever um poema para quando voltasse, mas tudo lhe parecia tão prosaico: a única rima de que se lembrava era " amores " e " flores - as flores que ele lhe prendia no cabelo... Não, a poesia estava no que sentia, não nas palavras, e isso saberia comunicar ao Nelo. Quando ele viesse; logo que ele viesse.



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publicado por Cristina Ribeiro às 03:28

 

Havia muito já que Luís se levantara. Casados há poucos meses, era a primeira vez que  passava o Natal na aldeia, lá no alto da serra.

Gostara de tudo.  Tão diferente do que estava habituada: a grande lareira acesa todo o dia, os preparativos para a ceia, a alegria à mesa tão grande...; mas mais do que tudo, aquela tradição de os aldeões irem, alumiado o caminho escuro por uma lanterna, de casa em casa chamar os vizinhos para a missa do galo.

Que fosse bem agasalhada : lá fora o vento cortava. Que bebesse um cálice de vinho do Porto, para aquecer...



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publicado por Cristina Ribeiro às 03:24

 

Não era a primeira vez que o genro vinha de Lisboa, com a sua filha, com quem casara havia já cinco anos, passar aquele dia e noite de 31 de Dezembro à aldeia trasmontana. Mas este ano a excitação era maior, porque com eles vinha o seu neto de três anos; decerto que nunca vira neve, e tudo estava tão lindo! Estava frio, mas toda a tarde do dia anterior o seu homem estivera a rachar canhotas para alimentar a lareira durante todo o dia e toda a noite. E já verificara um sem número de vezes se nada faltava para fazer daquela passagem de ano uma noite inesquecível, que não os fizesse arrepender de terem aceitado o convite.



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publicado por Cristina Ribeiro às 03:19

 

Quando olhou a fotografia, recuou um tempo e foi buscar ao fundo da memória aquelas tardes de doce vaguear, em que, depois dos trabalhos escolares feitos, tinha todo o tempo do mundo, e nele encontrava tempo para fazer tudo de que gostava.

No campo cheio de florinhas brancas e amarelas encontrava sempre o sítio ideal para se entregar à leitura, até que o cantar de um pássaro a fazia fechar o livro, para o olhar entre os ramos de uma árvore ou junto ao rio que por ali passava.

Pouco depois era uma borboleta que lhe distraía o olhar: uma daquelas borboletas muito coloridas, que nunca mais vira.

Agora a Primavera estava à porta, mas passava as tardes enfiada no escritório.

Não podia esquecer-se de mandar ampliar a fotografia: tê-la na parede, em frente, seria a forma de estar sempre entre as flores, e junto ao rio.



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publicado por Cristina Ribeiro às 03:10

 

 

Era a frase que ajuntava à imagem de um homem a segurar numa mão, fora da água, por mor de o não molhar, um rolo de papéis, enquanto que com o outro braço nadava, e enfrentava as ondas que ameaçavam engoli-lo.

             Esta uma das capas dos cadernos pautados, azuis, verdes ou laranja onde ia desenhando as letras que, esforçadamente, a D. Maria nos ia revelando, e que adquiria na Venda da avó.


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publicado por Cristina Ribeiro às 03:01

 

 

«Noite de agonia. Sofrimento moral e sofrimento físico conjugaram-se para castigar-me a alma e o corpo. O demónio da solidão veio visitar-me e tive de acender a luz para expulsá-lo.  Manhã abominável como a noite. Mas bastou uma palavra tua para deter-me no caminho a que regressava. Foi como se a clara luz dos teus olhos dissipasse as minhas sombras»

(João Bigotte Chorão, in « Diário Quase Completo)



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publicado por Cristina Ribeiro às 02:57

     

 ( Tomás de Figueiredo, in « A Toca do Lobo » )

 

 

 

 

       Uma  simples alusão ao ramo de cheiros fez com que o pensamento voasse até Évora Monte, até junto de umas senhoras vestidas de preto, sentadas no degrau da casa branca, com quem há anos mantive um a animada conversa, num  Domingo de Páscoa; em frente da casa, um jardim, pequeno, cheio de flores de muitas cores, mas com lugar para as ervas aromáticas; os cheiros que delas emanavam.



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publicado por Cristina Ribeiro às 02:38

 

 

que, de tão meiga, me lembra  a Susana de que fala Tomaz de Figueiredo: « A cadela encostou-lhe a cabeça aos joelhos, levantou uma das patas, maneira de pedir licença de se atirar por ele acima, no seu jeito de abraçar. Os olhos húmidos perguntavam-lho ».



publicado por Cristina Ribeiro às 02:30

a sobrinha de quatro anos, a graciosidade em pessoa pequenina, de beleza difícil de descrever, tanto na fisionomia como nos gestos, de uma meiguice que rapidamente se transforma em teimosia- já tinha dito que também é Touro? :) -, foi ao " Senhor Doutor Simpático", numa consulta de rotina: que estava " óptima, uma futura top-model "...; não, Senhor Doutor: fosse Botticelli vivo e teria nela a mais formosa das Musas, com um rosto e uns cabelos que fariam a própria Vénus ficar pálida de inveja.

Uma " Boticelli" de lágrima fácil, como hoje, durante o almoço, mais uma vez confirmámos- vale a solícita presença do irmão, o Zé João, sempre pronto a consolá-la, a protegê-la dos   grandes males que já a atormentam.




publicado por Cristina Ribeiro às 02:20

 

 

em que do azul cinzento e frio do céu caíam farrapos brancos e frios, aos quais se vinha agora juntar uma chuva miudinha, que o  Zé Miguel, pequenino ainda, nos mostrou que já sabia ler.

                 Devidamente couraçados contra o frio, que por esta altura é muito intenso na cidade mais alta de Portugal, deambulávamos 'preguiçosamente pelo centro, quando começou a juntar as letras abaixo da estátua d'«O Povoador». Que aprendera com « A Rua Sésamo». Era a estreia em público.




publicado por Cristina Ribeiro às 02:11
Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...
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