Sexta-feira, 09 de Outubro de 2009

 

 

"Será chuva, será gente?"; é mesmo chuva! Um dia para não sair de casa, acender a lareira, ler um livro (qual há-de ser?) e ouvir uns fados de Coimbra, ou a sempre boa música que a Luísa põe no Nocturno. Ao meu lado, o gato dorme, enroscado, o sono dos justos. Esperemos que no próximo fim-de-semana esteja um tempo que nos permita ver como tudo ficou mais bonito depois desta chuva. Afinal, está quase no fim o mês das águas mil, se bem que em Maio come a velha as cerejas ao borralho...

 

 

 

Abril de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 23:55

 

Não será esta chuva que me vai impedir de aceitar o convite da Editora Caixotim para viajar até à vila de Mogadouro, em Trás-os-Montes. A primeira paragem , porém´será na cidade do Porto, onde o escritor estudou- " Parti, não havia remédio; e nunca me há-de esquecer aquela viagem de barco pelo Douro abaixo, uns poucos de dias, desde a foz do Sabor até ao Porto"-, e começou a escrever- " um dia pus-me a fazer um romance". É no Mogadouro, porém, onde passa as férias escolares, que começa por escrever artigos curtos, para jornais locais, seguidos de contos, feitos a partir da tradição oral que ia buscar junto do povo. Passamos depois a Coimbra, onde cursou Direito, tendo encontrado aí um ambiente que exacerbou o seu natural pendor literário, e, posteriormente, a Lisboa, para onde fora transferido em 1889, depois de ter exercido no Sabugal e em Portalegre o cargo de Procurador Régio. Os seus escritos denunciam então claramente a nostalgia do seu Mogadouro - " Mas o que são os meus contos?! Não sei. Talvez saudades, e tenho a certeza de que se vivesse na minha terra não os teria feito". É pois dentro deste espírito que, em 1891, publica aquele que seria o seu livro mais difundido: «Os Meus Amores», em que o contista mergulha na" alma do povo", e dá conta da vida pacata que se desenrola na sua terra natal- "Eram as sete. Àquela hora é que os "figuros" da terra, quase todos funcionários públicos, vinham para o largo, à fresca.(...) Nas escadas do pelourinho, sentados, outros do mesmo feitio, cavaqueavam". Como diz a um amigo, tudo na sua escrita era emoção: " Eu escrevo do pescoço para baixo, do pescoço para cima não sei escrever". É costume dizer-se que o ar livre abre o apetite. A mim, esta viagem deu-me vontade de conhecer a obra deste transmontano.

 

 

Abril de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 23:48

 

 

Dizer-se que o mundo se tornou um lugar muito perigoso é a maior das verdades. Ontem, como doutras vezes, veio à baila o tema da insegurança, concretamente dos perigos a que estão sujeitas as crianças. E então lembrei-me da despreocupação que marcou a minha infância : quando tinha dez anos, saía de casa para as aulas ainda escuro como breu, e percorria, sozinha, um quilómetro de monte, sem que encontrasse vivalma, para apanhar a camioneta que me levaria à cidade. Nunca tive medo, nem os meus pais se preocupavam, como acontece nos dias de hoje...

 

 

Abril de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 23:40

 

"Aqui está o seu Bernardino Ribeiro, o seu Bernardes, o seu António Ferreira... É verdade- respondeu o conde-Todos amigos velhos e d'aquelles de quem se não receberam nem esperam senão bellos officios".

                  «Herança de Lágrimas», de Ana Plácido.

 

Voltei há alguns meses a casa de Camilo, mas agora marcara encontro com Ana Plácido. Tinha adquirido, havia pouco tempo, os dois romances que publicara com o seu nome- por vezes terá recorrido a pseudónimos-, este e «Luz Coada por Ferros»- e fiquei curiosa por saber mais. Foi assim que fiquei a saber, primeiro pela guia, depois procurando noutros lugares, tratar-se de uma senhora de razoável cultura literária, cimentada no conhecimento efectivo de autores clássicos, mas também românticos, que traduziu vários romances franceses, e manteve colaboração regular em vários jornais e revistas. Terá, ainda, sido o braço direito de Camilo, ao prestar-lhe vários serviços na feitura dos seus livros, como a revisão dos textos. Isto para além de lhe ter emprestado os olhos, quando os do escritor começaram a ceder.

 

 

Abril de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 23:35

 

"A respeito do último discurso de Calisto Elói, as gazetas governamentais estamparam que a sala da representação nacional nunca tinha sido testemunha de insolências de tamanha rudeza e tão audaciosa ignorância" («A Queda dum Anjo», de Camilo Castelo Branco).

 

Era muito pequena ainda quando meu pai me levou a casa de Camilo. Dessa visita guardo uma memória muito esbatida, tendo-me ficado na retina aquela cadeira de baloiço, muito provavelmente porque fiquei impressionada quando o guia disse que terá sido aí que o escritor se suicidou. Cresci ouvindo falar nele com uma grande admiração: o seu busto estava num lugar de destaque, na estante que continha a camiliana. Quando, timidamente, e com relativa desconfiança sobre o acerto de tal veneração, me aventurei na sua obra- creio que o primeiro livro que li foi «A Brasileira de Prazins», o qual só mais tarde abarquei no seu justo valor-, confesso que não fiquei logo cativada. Foi fora do tempo. O encantamento viria mais tarde, com «A Queda dum Anjo», seguido de »Eusébio Macário» e «A Corja»: a escrita escorreita, a riqueza do vocabulário e a fina ironia, iriam fazer com que , de quando em quando, volte a eles, nem que seja para ler um trecho ou outro...

 

 

Abril de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 23:26

Acabo de assistir, na televisão, à discussão das vantagens e desvantagens da projectada reforma da Língua Portuguesa. Admiradora que sou da Literatura Brasileira- li desde José Mauro de Vasconcelos até Machado de Assis-, sou frontalmente contrária à sua entrada em vigor ( faltam ainda vários países ratificá-la, como por exemplo Moçambique e Angola), antes do mais porque, como disse o Linguista e Filólogo Professor António Emiliano, não há um único argumento linguístico-científico a favor de tal acordo. Tal como está, a Língua Portuguesa é falada e escrita por duzentos milhões de pessoas, sem que haja quaisquer problemas de comunicação, e, pelo contrário, as variantes que existem dentro dela só a enriquecem- todos nós nos entendemos na sua diversidade...

 

 



publicado por Cristina Ribeiro às 23:09

"Que, no alto do principal de seus livros, confessasse Stendhal havê-lo escrito para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará, é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal..." Inicia assim o primeiro livro que li de Machado de Assis: «Memórias Póstumas de Brás Cubas»; o outro foi «Quincas Borba», e o Paulo Cunha Porto já me aconselhou vivamente a leitura do «Memorial de Aires». Sobre o escritor brasileiro escreveu José Osório de Oliveira: " Foi um autodidacta, que se formou na Biblioteca do Gabinete Português de Leitura(...), viveu sempre longe dos grandes centros de civilização literária, prodigalizou-se em colaborações jornalísticas, e, já na fase de maturidade, passou a ser, e ainda hoje é, o mais original escritor do seu país. tendo a sua obra sido marcada pela quase ferina análise da alma humana." Autor de vários títulos, universalmente reconhecidos, como atestam as numerosas traduções das suas obras mais representativas, " por dois factos- além daquele, primordial, que é a pureza da linguagem-, está Machado de Assis indissoluvelmente ligado à literatura portuguesa: a influência que sofreu de Garrett, do qual colheu a lição de sobriedade, clareza e ática elegância, e a que, como crítico, exerceu sobre Eça de Queirós, pois que, moralista e com uma, embora contida, concepção dramática da vida, ao analisar «O Crime de Padre Amaro», apontou-lhe como grande defeito, o facto de parecer comprazer-se na pintura de um caso de amoralidade". Esta opinião terá calado fundo no espírito do escritor português, como resulta da sua obra posterior.

 

 

Abril de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 22:56

 

Não conseguira adormecer até chegar ao fim do livro; sorrindo de si para si, pensou: ainda bem que os avós não são como a Tia Doroteia do Henrique de Souselas...; com efeito, só apagara a luz já a madrugada se havia instalado há muito... Depois adormecera, e não fazia a menor ideia que horas seriam agora... Até que ouviu a voz da avó: -Menina, já te chamei várias vezes para tomares o Pequeno-almoço! -Já vou avó, respondeu, enquanto se espreguiçava. Daí a pouco, voltou a ouvir a voz da velha senhora: -Vens ou não vens? Quero levantar a mesa.

 

Sorriu de novo, enquanto descia as escadas, e pensou: afinal as avós não são diferentes das tias Doroteias...

 

 

   Abril de 2008


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publicado por Cristina Ribeiro às 22:18

 

Esperava ansiosa que chegasse o fim-de-semana; iria para a quinta dos avós, e, debaixo daquela oliveira que tanto amava, com o fidelíssimo Félix, o cão, ao lado, leria aquele romance que a trazia empolgada, e já tinha posto no saco. Sabia que, ao fim de umas páginas, o livro lhe escorregaria das mãos, e os dois acabariam por adormecer. Mas era Sábado e podia dar-se a esse luxo. Recomeçaria quando acordasse...

 

  Abril 2008


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publicado por Cristina Ribeiro às 21:56

 

Este, muito provavelmente um terreno alagadiço em tempos muito remotos, era o lugar das brincadeiras. A cada dia, mal acabavam as aulas na Escola Primária, era para aqui que nos dirigíamos: os rapazes, para jogar ao botão, antecessor do berlinde, com que brincam os sobrinhos, as raparigas entretínhamo-nos a fazer o nosso "flower power", enfeitando-nos com grinaldas de heras, que pendiam dos muros da quinta ao lado, pertença de uns senhores de Lisboa. Era também aí que, uma vez por mês, parava a carrinha Biblioteca Itinerante da Gulbenkian: era uma festa- cada uma de nós a chamar as amigas, aos berros, literalmente, porque tínhamos encontro marcado com as personagens de Enid Blyton, o Noddy, primeiro, os Cinco e os Sete, depois... Hoje, o Paul continua lá, mas já não é o mesmo: os muros da quinta (tão linda! ), já não têm aquele arvoredo todo, que fazia as nossas delícias; as crianças da Escola deram lugar aos reformados, que aí vão jogar às cartas. Hoje resolvi ir tirar algumas fotografias, antes que o "meu" Paul desapareça para sempre.

 

Abril de 2008


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publicado por Cristina Ribeiro às 21:51

 

De outra vez, pusemo-nos a caminho de Vila Real de Trás-os-Montes: o objectivo da excursão familiar era visitar a casa onde Camilo vivera com sua irmã e cunhado, e onde recebera sólida educação literária, ministrada pelo irmão deste- o Padre António de Azevedo, a quem sempre acarinhou como o Mestre-, em Vilarinho de Samardã, lugar de romagem obrigatória para um tão grande admirador da obra camiliana, como o meu pai é. Por circunstâncias várias, nomeadamente a dificuldade em achar a casa, chegámos a hora tardia, num momento em que os mais pequenos barafustavam, com fome: havia muito já que passara a hora do almoço... Foi assim que um deles, vendo a porta fechada (a chave tinha-a uma vizinha) , se saiu com esta: -"Podemos ir almoçar, porque ele não está em casa."...

 

 

 

 Abril de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 21:41

"Três meses depois, quando o exército dos Sete Povos já havia sido completamente desbaratado numa batalha campal, e os habitantes do povo de Alonzo, desesperados, prendiam fogo à catedral e às casas, para que elas não caíssem inatas nas mãos do inimigo vitorioso que se aproximava, Pedro montou num cavalo baio e, levando consigo apenas a roupa do corpo e o punhal de prata, fugiu a todo o galope na direcção do grande rio". Passo do segundo livro, «O Continente», da Trilogia «O Tempo e o Vento», de Érico Veríssimo- os outros dois são «O Retrato» e «O Arquipélago»-, da qual escreveu José Aderaldo Castelo, Professor da Universidade de S. Paulo: "Obra cíclica sobre a formação social do Rio Grande do Sul, (...) monumental, de grande força épica , beleza lírica e intensidade dramática, inicia uma nova fase do romancista do Modernismo", ele que nos seus primeiros romances:«Clarissa», «Olhai os Lírios do Campo» e «O Resto é Silêncio» tivera "a preocupação de discutir aspectos da crise moral e espiritual do homem ou da sociedade contemporânea, guiado por uma certa maneira de ver os factos, já identificada como expressão do cristianismo primitivo do Autor".

 

 

 Abril de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 21:38

"Sem sono, Clarissa debruça-se à janela. A noite está clara. Refrescou. Uma lua enorme, cheia, muito clara. Os quintais estão raiados de sombra e de luz, parece que o disco da lua se enredou entre a ramagem folhuda do plátano grande no quintal onde D. Tatá morava. O relógio na sala bate onze horas." Foi no primeiro ano do Secundário que pela primeira vez contactei com a escrita deste autor, num texto que se intitularia- é essa a lembrança que tenho-"Clarissa e o raio de sol", e que me levou a adquirir o que, soube depois, foi o primeiro romance desse escritor brasileiro. Era uma prosa poética e de um enredo atraente, que me fez devorá-lo num ápice... Mais tarde viriam outros livros seus...

 

 

 

 Abril de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 21:08

 

 

 

"Ó sino da minha aldeia Dolente na tarde calma

                                           Cada tua badalada Soa dentro da minha alma"

 

 

 Abril de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 21:01

Volto a ele, porque encontrei, adormecido na estante, um livro de António Manuel Couto Viana que se debruça sobre vários escritores, entre os quais Figueiredo: «Coração Arquivista». Lido há alguns anos já, mas mal lido, passou-me despercebido este pedaço: "Ao lê-lo («A Toca do Lobo»), senti que tinha encontrado o romancista que melhor se identificava com a minha sensibilidade; esse que eu gostaria de ser, se tivesse qualidades de ficcionista. Aliás, aqueles climas, aquelas personagens, conhecia-os eu de sempre; encontrara-os por toda a Ribeira-Lima, em minha casa, ou nas que frequentava, nas ruas e nas feiras ou quintas de lavoura e recreio- exactos, vivos, com a nobreza e o pitoresco que o Tomaz poderosamente retratava.(...) Também não escapava à lupa bem focada do discípulo de Camilo o português de certos discursos de eminências políticas."

 

 

  Abril de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 20:39

Tenho-o por cima da lareira. Debaixo de um céu muito azul, uma menina de cabelo castanho-dourado, contempla a paisagem que alcança da janela, no fim de um rio de águas calmas. Aparentemente, tudo é paz e há uma grande harmonia no conjunto... Paz aparente, porque no céu surge um avião torpedeiro a lançar bombas, nesse cenário idílico... O Nuno ( Castelo-Branco ) deu-lhe o título «Momento de Civilização»...

 

 

Abril de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 20:33

 

Hoje, na Feira do Livro, de Braga, encontrei, num alfarrabista, um Livro de Leitura da 3ª Classe, igual ao que um dos meus irmãos tinha. Foi com alegria que nele encontrei uma lengalenga que, fiquei agora a saber, é a adaptação de um Romance popular, e que o ouvi declamar muitas vezes: - À guerra, à guerra, mourinhos! Quero uma cristã cativa! Uns vão pelo mar abaixo Outros pela terra acima. - Venha uma cristã cativa Que é para a nossa rainha. Uns vão pelo mar abaixo, Outros pela terra acima. Os que foram mar abaixo Não encontraram cativa; Tiveram melhor fortuna Os que foram terra acima: Deram com o conde Flores Que vinha da romaria Vinha lá de Santiago, Santiago da Galiza Mataram o conde Flores, A condessa foi cativa A rainha mal que o soube, Ao caminho lhe saía: -Em boa hora venha a escrava, Boa seja a sua vinda! Aqui lhe entrego estas chaves Da despensa e da cozinha, Que me não fio de mouras Não me dêem feitiçaria. -Aceito suas chaves, senhora Por grande desdita minha... Ontem condessa jurada, Hoje moça de cozinha Duas irmãs que nós éramos. Ambas de mouros cativas! -Dize-me tu, minha escrava. Tua irmã que nome tinha? -Chamava-se Branca Rosa Branca Flor de Alexandria Foi cativada de mouros Dia de Páscoa Florida Andava apanhando rosas Num rosal que meu pai tinha -Ai triste de mim, coitada Ai triste de mim, mofina Mandei buscar uma escrava, E trazem-me uma irmã minha! Deram beijos e abraços, E uma à outra dizia: Quem se vira em Portugal Terra que Deus bendizia! Juntaram muita riqueza De ouro e pedraria; Uma noite abençoada Fugiram da Mouraria Foram ter à sua terra Terra de Santa Maria Meteram-se num mosteiro, Ambas professaram num dia.

 

 

 Abril de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 20:23

 

Santa Cristina de Longos- Guimarães

 

Só um bocadinho do poema de Camões, " Verdes São Os Campos "

 

 

 Abril de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 20:17

 

"Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como S. Petersburgo- entende-se. Mas com este clima, com esse ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ia ao menos até o quintal." Já Almeida Garret sabia "porque não ficava em casa".Com este sol de Primavera, com a Natureza de braços abertos.

 

Abril de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 20:09

 

Acordara bem cedo e , a cada minuto, urgia a mãe : era mister porem-se a caminho de Belém, pois que ouvira dizer que a largada seria bem cedo, e queria arranjar um lugar de onde abarcasse toda a movimentação dos homens que se faziam ao mar... Chegaram ao Alto do Restelo quando já lá se encontrava muita gente, num bulício que denotava ansiedade. Lá em baixo, na Barra do Tejo, a azáfama era grande. De repente, um velho que se encontrava ao seu lado começou a vociferar negros vaticínios para aquela empreitada. Assustada, apertou mais a mão da mãe, cruzou os dedos, e rezou para que ele não tivesse razão.

 

 

 Abril de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 19:59

 

As minhas últimas férias foram enriquecidas pela leitura de um livro, da autoria de Manuel Tavares Telles, que trata da paixão platónica que por Camilo Castelo Branco manteve, três anos antes do encontro deste com Ana Plácido, em 1856, uma poetisa portuense, a qual viria a traduzir-se numa razoável quantidade de cartas de amor e num diário íntimo, reunidos em «Os Manuscritos Gertrudes». Começou Gertrudes por se dirigir ao escritor, solicitando a publicação de duas poesias, no jornal em que este trabalhava à época, 1853,- «O portuense». Seria a partir deste primeiro contacto que se iria desenvolver a dita paixão. "Que sentes?" é o título do segundo desses poemas. "Que sentes por mim? amor extremoso Ou fria indif'ença tua alma gelar?... E, quando meus olhos teus olhos encontram, Não sentes mil chamas teu peito escaldar? Se um brando sorriso de meiga ternura Meus lábios agita, que sentes então? Não sentes de orgulho, prazer e ventura No peito agitado profunda emoção? Se vai revelar-te furtivo suspiro Esta ânsia d'amar-te, em vão reprimida, Não sentes...oh! Dize...não sentes, qual sinto, De amar um desejo, uma ânsia insofrida? Se rápida foge uma hora a olhar-te, Em êxtase ardente, em vago ansiar De mil corações não sentes a vida Nessa hora em delírio viver e gozar? Se, às vezes,ao peso de mágoas ocultas, Eu pendo a cabeça febril e cansada Quiseras que eu fosse, buscando refúgio Poisar-te no ombro a fronte abrasada? Se, alegre me rio, se, triste, suspiro, Não sentes, qual sinto, pesar ou ventura? Se enfado, ou amor meus olhos revelam Não sentes, não sofres, , enfado ou ternura? Se olhando das nuvens as formas aéreas Contemplo, absorta, do espaço a amplidão Seguindo esse olhar, não sentes, qual sinto, A mente confusa, turvada a razão? E, quando se escuta do bronze a pancada, Que à prece nos chama, e as mãos ergo aos céus, Não sentes também de impulso suave Tua alma elevar-se aos tronos de Deus? Que sentes ao ver-me...que sentes oh! dize... Por mim o que sentes?...não queiras calar... Preciso que o digas...preciso...compreendes?... Que a vida ou a morte me dês n'um olhar!

 

 

 Abril de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 19:34

 

 

Desde bem cedo o meu pai incutiu em todos nós o gosto pelas visitas ao nosso património histórico e a museus. Esse gosto passou, depois, para os sobrinhos, pelo que todos os fins-de-semana e "pontes" lá íamos conhecer mais um bocado de Portugal. Num desses fins-de-semana prolongados foi a vez de rumarmos até Almeida, onde ficámos na Pousada Senhora das Neves, para, partindo dali, visitarmos a região: vimos todas as praças fortificadas da raia, desde Figueira de Castelo Rodrigo, Castelo Bom, Castelo Mendo, Castelo Melhor No dia em que preparámos o regresso, um dos sobrinhos mais pequenos perguntou ao avô qual seria o castelo a visitar nesse dia, de tal maneira lhe estava a agradar o programa...

 

 

 Abril de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 19:29

 

Das duas vezes que viajei nesse comboio fiquei na Pousada de Alijó. Na primeira, nos fins de Setembro de há uns anos, fomos- toda a numerosa família- do Pinhão até Mirandela, num daqueles dias dourados de começo de Outono. Tinha acabado a azáfama das vindimas, mas a alegria que a faina acarreta ainda era evidente nas gentes que viajavam connosco. Dia de feira , viam-se as mulheres com açafates cheios de frangos e coelhos. Voltei lá em Novembro do mesmo ano, por altura do Dia -de -Todos- os- Santos, e agora já caía uma chuva fraca, mas não suficiente para nos impedir de irmos até ao Pocinho. A paisagem, sendo a mesma era outra- nas cores e na quantidade de folhagem, mas o encanto não era menor. O fascínio do Douro é eterno. A Linha do Tua é que não vai estar lá muito tempo.

 

 

 



publicado por Cristina Ribeiro às 19:02

 

A ler o primeiro romance de Camilo, «Anátema», que escreveu na verdura dos vinte e cinco anos (ou terá sido na dos vinte e dois, como diz no prefácio da segunda edição  ? ), deparo, a dado passo, com a frase " Não pulsa,  debaixo do céu, um coração que não sofra "; e dou comigo a sair do universo da ficção para o da realidade crua que nos cabe viver: será que o mesmo se pode dizer - e para não irmos mais longe - com a mãe e o tio da pequena Joana, ou do pai e da avó da pequena Vanessa?

Ninguém me convence de que em certos indivíduos, no lado esquerdo do peito existe mais do que um músculo que apenas bombeia o sangue.Não; debaixo deste nosso céu há corações que não sentem nada

.

 

 Março de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 14:40

 

Interrompo a leitura de um livro de Camilo para olhar pela janela. O meu é um quarto com vista, embora não vislumbre nenhum Arno; vista para o Bom Jesus do Monte. Está tudo iluminado e, forçando um bocadinho a vista, consigo ver aquela escadaria monumental. Está uma noite calma, as muitas árvores que me rodeiam não acusam qualquer vestígio de vento. Ao mesmo tempo lembro que este foi um cenário muito glosado pelo homem de Seide. É quase tão linda como a vista que tenho quando fico em casa de uma minha irmã em Guimarães, de onde quase posso tocar o belíssimo Mosteiro de Santa Marinha da Costa. E nesta apreciação não entra a tradicional rivalidade entre os dois Municípios(se assim fosse não viveria em Braga, não é? :)

 

 

 Março de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 14:27

 

E, por momentos Braga (onde passo os fins-de-semana) encheu-se de sol... Sentada na esplanada da Arcada, vejo os passantes relaxados, de sorriso a condizer com o tempo que faz.Vê-se que vão sem pressa, que para isso basta o resto da semana. Os mais pequenos brincam no jardim em frente, e ouvem-se as suas gargalhadas... Há que aproveitar, porque está um tempo de luzernas, e , de um momento para o outro, uma nuvem pode muito bem tapar o sol...; será o suficiente para que tudo mude...

 

 

 Março de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 14:13

 

No passado mês de Agosto, o Paulo Cunha Porto, do blogue As Afinidades Efectivas, lançou um repto muito interessante aos seus leitores: se pudéssemos falar com personagens do passado, com quem quereríamos dialogar- respondi que uma dessas pessoas seria Vitorino Nemésio, e a outra era Fernanda de Castro, autora do primeiro livro que li, nas minhas primeiras férias escolares, acabada a primeira classe, numa altura em que ainda era o meu pai quem me seleccionava as leituras- «Mariazinha em África». E lembrei-me agora dela porque, ao fazer uma busca no Google deparei com um seu poema, num blogue que lhe é dedicado

 

 Asa no espaço, vai pensamento! Na noite azul, minha alma flutua! Quero voar nos braços do vento Quero vogar nos barcos da Lua! Vai minha alma, branco veleiro Vai sem destino, a bússola tonta Por oceanos de nevoeiro Corre o impossível, de ponta a ponta Quebra a gaiola, pássaro louco Não mais fronteiras, foge de mim Que a terra é curta, que o mar é pouco Que tudo é perto, princípio e fim. Castelos fluidos, jardins de espuma Ilhas de gelo, névoas, cristais Palácios de ondas, terras de bruma Asa, mais alta, mais alta mais

 

 

 Março de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 13:10

 

É o que me apetece cantar hoje, como Camões! Mas o verde destes campos é mais da cor da lima, do que do limão, resultado da chuva que tem caído nos últimos dias. Aqui, juntinho da Falperra, no termo do concelho de Guimarães, onde, no interior da aldeia, longe da Estrada Municipal, ainda se encontram pedaços daquele "Minho Pitoresco", os carvalhos já se cobriram de folhas nos mais variados tons desse verde. Tão lindo que é o caminho onde outrora se acoitava Zé do Telhado... Pena é que os nossos autarcas, mancomunados com os depredadores da construção civil, estejam apostados, numa luta desigual, em destruir esta generosidade da Natureza...

 

 

Março de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 12:59

 

"Morro de amor pelo meu pátrio Minho, pela vila dos Arcos, pela Casa de Cazares, onde a minha infância dorme, onde esperei, feliz envelhecer, escrevendo mais livros, sempre livros, onde cuidei morrer e, como Goethe, pedindo luz e luz, sempre mais luz, de janelas rasgadas sobre o Vez, sobre a fonte que jorra da carranca, sobre as minhas amadas laranjeiras. Fausto, morro de amor pelos meus livros, pelos romances que pensei, fugidos, perdidos e sumidos... («Viagens no meu Reino» )

Dele diz João Bigotte Chorão: "Não era Tomaz de Figueiredo, como Raul Machado, um gramático, um filólogo, um erudito, um especialista- era um escritor, um cavador de palavras, um servidor do idioma. O que lhe faltaria em ciência académica, sobejava-lhe em intuição e amor..." e, no «Dicionário de Literatura», acrescenta David Mourão Ferreira: "Prodigioso evocador do passado, em verso e prosa, grande poeta da memória, Tomaz de Figueiredo consegue aliar a muitos rasgos temperamentais de raiz romântica uma disciplina clássica (...). Integra-se numa tradição tipicamente portuguesa da qual terá sido Camilo, antes dele, o mais alto expoente. Pois bem, é este quase conterrâneo- nasceu em Braga, a 6 de Julho de 1902, embora bem cedo tivesse ido viver para Arcos de Valdevez-, que até há bem pouco tempo desconhecia. Foi-me apresentado pelo blogue Futuro Presente e, na resposta a um comentário, o autor do post aconselhou-me a começar a leitura da sua obra por «A Toca do Lobo»...; descobri então um escritor de mão-cheia, a quem, ainda nas palavras de Bigotte Chorão, "O instinto da língua, por um lado, e o seu trato com o falar do povo e a obra dos clássicos, por outro, deram um raro conhecimento do português, nas suas expressões mais populares e mais eruditas..."



publicado por Cristina Ribeiro às 11:53

A minha primeira referência blogosférica foi o Combustões, de Miguel Castelo-Branco, cuja excelência, tanto no que escreve, como na forma como escreve, desde logo me prendeu. Mas seria com a leitura do post Nacionalismo e Monarquia, que me iria identificar com o pensamento daquele que fundou e dirigiu, durante anos, a revigorante "Nova Monarquia"; nutria, desde há muito, um sentimento pouco definido acerca da superioridade do regime monárquico, tendo sido essa leitura, depois complementada por outras aqui na blogosfera, que viria a cimentá-lo, adquirindo assim uma certeza fundamentada de que era este o regime que mais nos convinha, pois que a não ligação do Rei a um partido político era, indubitavelmente, a maior garantia de independência na prossecução do único objectivo que deve nortear a acção do Chefe de Estado: o interesse nacional, sem dever nada a qualquer ideologia... Ora, o total esclarecimento dos portugueses, que lhes permitirá escolher, em consciência, o regime que melhor lhes pode servir, só será alcançado com debates sérios, na linha daquele a que assistimos há dias na televisão pública, o qual se distinguiu pela serenidade e elevação, indispensáveis a uma suficiente elucidação, permitindo assim o desfazer d'alguns mitos bolorentos, como seja o de que a Monarquia é incompatível com a Democracia e a Liberdade: tudo o que uma moderna Monarquia Constitucional não é, claramente... E, quem sabe, talvez um dia não muito longínquo, possamos ter entre nós um novo D, Pedro V, Rei reconhecidamente empenhado na modernização e desenvolvimento da Nação, como Chefe d'este Estado, que tão vilipendiado tem sido...

 

 

Quarta-feira, 26 de Março de 2008



publicado por Cristina Ribeiro às 11:32
Um arquivo dos postais que vou deixando no Estado Sentido, mas também um sítio onde escrever outras coisas minhas..Sem Sitemeter, porque pretende ser apenas um Diário, um registo de pequenas memórias...
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