pouco diz, Miguel. Sinto que é mau, porque afinal é este o meu tempo, mas, à parte o que me é próximo, seja em termos humanos ou não, não consigo vislumbrar a mais pequena réstia de algo que faça por ele interessar-me. Nem sempre foi assim, e tempos houve que vivi o presente com interesse; tempos houve em que esperei muito dos meus contemporâneos.E envolvi-me .Muito. Vencida pelo cansaço, na actualidade vejo só motivos de desencanto e indiferença. Refugiar-me no passado, esperando nele ver reflectido o futuro, é o que me anima, enquanto, a par desse refúgio,vou driblando o malfadado presente, ao embrenhar-me nas palavras escritas, muito no papel, um bom bocado neste suporte que foi criando afinidades mais ou menos virtuais.
Janeiro de 2009

Vem à baila o nevão de Sexta-Feira. Os mais velhos contamos aos mais novos que esse era um cenário de todos os Invernos, frequentávamos nós a Escola Primária, fins de anos sessenta, inícios dos setenta. Manhãs muito frias, oitocentos a novecentos metros de caminho de terra batida, atapetado de gelo, em que se transformara a neve, com a chuva que entretanto caíra; charcos onde, contrariando as instruções maternas, molhávamos as nossas botas de cabedal com sola de pau - as chancas- em delícias clandestinas. Sabíamos que na Escola teríamos uma braseira onde as secar.
Janeiro de 2009
sempre sublinhadas com risos, os vários posts que lhe tenho dedicado, levam-me a rever o que disse do " depois " dela: verdadeiramente os " anos dourados " foram os da infância: nunca voltei a ser feliz como era naqueles anos- o tempo das brincadeiras semi-proibidas, mas inocentes.E os recursos materiais eram muito menores. Livros, por exemplo, só os da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian...
Nostalgia? Não! Consciencializar-me de que tenho de seguir a receita de Proust: ir em busca do tempo perdido.
Janeiro de 2009
percorri há tempos este caminho " emparedado de verde", nas palavras da Patti. Havia muito tempo já que me andava a prometer este passeio, este regresso. Palmilhei-o, pelo menos duas vezes por dia, durante anos. Era o caminho até à Escola. Mas como a avó morava paredes meias com aquela, era frequente pisá-lo várias vezes no mesmo dia. Por trás do muro está uma quinta. De uns senhores de Lisboa, agora quase abandonada, na altura era de uma exuberância frondosa, um atractivo tão grande, que nos levava a tentar trepar as velhas pedras, com ervas a sair das gretas, intento conseguido se acaso ia a passar um adulto, que nos pegava ao colo- então, o felizardo que espreitara contava aos outros as maravilhas que vira: a casa com azulejos muito antigos, as pessoas- a grande parte das vezes, só o caseiro e família- , as muitas flores. Encontrei algumas diferenças, que o tempo não passa sem deixar marcas Antes do mais, a terra batida dera lugar a um chão coberto de paralelepípedos, pelo que já não se viam as covas, tão familiares, onde chapinhávamos sempre que chovia. Apesar de ser Primavera, no muro não se viam as flores roxas,e nas bermas não vi as leitugas que, regularmente, alguém cortava com a foicinha para saciar os coelhos.Apenas ervas daninhas, que cresciam desordenadas. Mas nem a falta destes pequenos encantos escamoteava.a beleza do " Caminho da Escola "
Janeiro de 2009
João de Araújo Correia fez-se também apologista da ' pátria pequena '- o Douro que lhe foi berço (...) Mestre da língua pela clareza, a pureza, a correcção, reconhece-se na prosa de João Araújo Correia, a herança clássica de Bernardes e de Camilo, a que veio juntar-se o património da linguagem popular » ( « O Escritor na Cidade », de João Bigotte Chorão )
Ela tem razão: há leituras que nos despertam; há livros que nos fazem vencer o sono
Janeiro de 2009
- Leio umas páginas antes de adormecer; é o meu melhor indutor do sono. Quando tenho de ler uma frase mais do que uma vez, sei que é hora de desligar a luz.
- Mas há leitura que nos desperta totalmente.
- Pois há...; está a suceder-me com « O Escritor na Cidade », de João Bigotte Chorão.
Janeiro de 2009

Domingo foram, com os pais, a uma matiné musical. Na Casa da Música iam ouvir, pela primeira vez, música clássica ao vivo. E vieram encantados. A orquestra residente ia tocar uma sinfonia; a Nona de Dvorak, conhecida como Sinfonia do Novo Mundo. Uma boa iniciação, porque melodiosa e de fácil audição. Acredito que o facto de se juntarem os sons de vários instrumentos terá contribuído para este começo auspicioso. Talvez daqui a uns tempos saibam já apreciar um recital de piano. Foi um bom começo.
Janeiro de 2009
volumes sobre as duas guerras mundiais, fácil se tornou o extrapolar para o que em Portugal se passava à época: recorro à compilação dos fascículos, assinados por Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, publicados pelo Diário de Notícias: « A guerra não desatou o nó górdio. Também não foi a última das guerras. O mundo novo prometido não passou de uma grande ilusão. Os povos europeus, destroçados (...) , foram-se erguendo sobre os seus mortos». A revolução da rotunda acontecera havia pouco tempo, e a participação de Portugal no conflito, através do Corpo Expedicionário Português, apenas visava os interesses dos próceres do Partido Republicano, que assim pretendiam a aceitação internacional, sem olhar a meios.
Janeiro de 2009
viu matarem-se entre si milhões de homens que, ainda na véspera, juravam « guerra à guerra » (...) Após 1918, transformados em antigos combatentes, nem uns nem outros puseram em dúvida a legitimidade do seu sacrifício: haviam combatido pela defesa da pátria e a guerra que tinham feito era uma « guerra justa ». Durante cinquenta anos não pararam de o repetir .Porém, ainda no decorrer das hostilidades, uma dúvida nasceu nalguns deles: teria algum sentido a continuação da guerra? "
" Comparando os efeitos do tratado de Versalhes ( 1919 ) aos do Congresso de Viena ( 1815 ) , Henry Kinssinger, no seu livro« O Mundo Restaurado », observa que este último garantiu à Europa várias décadas de paz, ao passo que, desde o primeiro dia após aquele fez-se sentir um cheiro a guerra, que acabou por deflagrar menos de vinte anos após a sua assinatura(...) porque em 1815 as potências vitoriosas sobre Napoleão souberam poupar a França, país vencido (...) Essas potências tinham combatido e agido em nome da legitimidade, e em seu nome restabelecersam quase todas as fronteiras de 1792, e devolveram o trono ao legítimo herdeiro da monarquia, Luís XVIII. Em 1919, as potências vitoriosas longe de pouparem os vencidos, humilharam-nos." Uma visita à livraria revelou-se deveras frutífera, pois que, entre outras aquisições, estes dois volumes de Marc Ferro prometem algumas horas de proveitosa leitura. São os primeiros que dele leio, mas o que já tinha lido sobre o historiador francês situam-no na linha de Jacques Le Goff e de Fernand Braudel, esses sim, já conhecidos, o que é já uma garantia de honestidade histórica. O que acabo de confirmar após uma rápida leitura das páginas iniciais.
Aditamento: oportuno comentário do João Pedro " Eu não diria que nas décadas após o Congresso de Viena a paz se tenha espalhado: passámos nós, os portugueses, por muitos anos de árdua guerra civil, assim como os espanhois, e em 1848 deu-se o "ano das Revoluções". Depois disso, e tirando a Guerra Franco-Prussiana, é que se pôde dizer que houve uma era de paz, até à explosão que deflagrou em Sarajevo. Marc Ferro é um historiador muito recomendável, e parece-me que agora tem tido mais atenção editorial. No livro "Sete Homens em Guerra", que apenas li em parte, chamo a atenção para as primeiras impressões que Mussolini teve de Hitler ".
Janeiro de 2009
diz-se.
O dia chuvoso faz pensar que o animal encurtou de pernas, razão porque o céu se encheu de azul violáceo, e ainda ontem esse azul era aberto, e àquela hora entrava por entre as árvores, friorentas, uma réstia de sol. O carvalho, nascido entre dois penedos, mantém ainda as cores de Inverno, os ramos sem folhas erguem-se como uma sombra fantasmagórica, mas num fantástico com uma beleza intensa e viva. " Uns meses mais ", cogito, " e as folhas, de um verde muito claro e impreciso, primeiro, mais definido depois, vão começar a cobri-lo. Nessa altura começarei a pensar na sombra que há-de dar a quem dela careça" ; é o renovar da Natureza que antecipo, ainda estamos em Janeiro.
Janeiro de 2009
a televisão do meu contentamento
histórias que a minha mãe conta