
Deus está atento.
É a frase que me vem à cabeça sempre que penso nela: uma mulher jovem, do meu círculo de amizades, engravidou. Até aqui tudo bem.
Acontece que era uma fumadora inveterada, a quem o médico, tinha ela 12 anos, disse para colocar à frente da cama a radiografia dos pulmões para que, todos os dias, se desse conta do mal que estava a fazer-lhes, e que, quando o dentista a pôs perante uma escolha- o cigarro ou os dentes-, não hesitou em optar pelo tabaco, acrescendo ainda o facto de um exagerado apego ao álcool ser causa de vários alertas hepáticos, sempre ignorados.
" Era ", escrevi, porque, e nisso maravilhou toda a gente, pois que todos disseram " mais nada, nem ninguém, no mundo a faria mudar de comportamento ", logo que soube da gravidez deixou de fumar e de beber, porque se consciencializou de que o filho, com quem passou a falar regularmente, enquanto acaricia a barriga, lho pedia.
Só " aquela coisinha humana ".
cortando a serra ladeada de vinhedos em socalcos que quase tocavam o céu, azul que ele estava naquele dia de Primavera. Saira da estação de Campanhã, aonde o pai a levara ainda a lua não dera lugar ao sol, e agora o sono que, por vezes, a mantinha de olhos fechados, apesar do sol bem alto já. Que não se deixasse dormir a pontos de passar pela estação onde o tio a esperava!, recomendara a mãe, quando dela se foi despedir. Pedira, por isso, ao revisor que a acordasse quando chegasse a Tormes, não fosse Morfeu, ou o pai deste, pregar-lhe a partida.
E nesses momentos em que o filho de Hipno a fazia cair nos seus braços era com Jacinto e José Fernandes que sonhava, eles que muito antes tinham feito aquela mesma viagem.
Desejou então que lá em casa dos tios houvesse um arroz de favas à sua espera...
Já o escuro da noite, que durante horas a acompanhara naquele estado de vigília, dava lugar à claridade da manhã que agora rompia pela janela semi-aberta, e a lua cedia o lugar ao sol, que prometia iluminar mais um dia frio. Diálogos que guardara de tempos passados misturavam-se com outros imaginários, tão imaginários quanto os seus interlocutores. No corredor o silêncio apenas era cortado a cada meia hora por mais uma badalada do pêndulo do velho relógio de parede.
Não demoraria a ouvir a chilreada dos pássaros que, enganados na Estação, se tinham antecipado à Primavera, e se haviam recolhido no beiral da casa.Nessa altura talvez o sono vencesse, como já tantas e tantas vezes acontecera, e então deixar-se-ia embalar no aconchego, onde continuaria aqueles diálogos antes encetados, agora no mundo, imaginário também ele, do sonho.
Fialho de Almeida ( que viria a " reconciliar-se com o regime tradicional, depois de um encontro com o ministro de D. Carlos " ) : - " Superior, inteligente, culto, bravo e generoso...enjoado da torpitude dos partidos, e tendo da ideia de pátria um culto inverosívelmente alto e absorvente "
Homem Cristo : -" Tinha defeitos, mas, no meio dos seus defeitos, foi o político mais inteligente do seu tempo "
João Chagas, a propósito das cartas a João Franco : - " Aliviam a memória de D.Carlos de um grande peso "

" À noite, nas Necessidades, o Conselho de Estado reunido persuade o novo Rei, infante D. Manuel, a afastar João Franco e a formar ministério novo. Faz-se a vontade ao inimigo, abatem-se bandeiras perante o crime. « Os regimens sucubem e desaparecem, menos pela força do ataque que pela frouxidão da defesa » - dirá o próprio João Franco. Resume, muito exactamente, um jornal, meses depois: - ' O Rei morreu na tarde de 1 de Fevereiro, no Terreiro do Paço. A Monarquia morreu nessa noite, no Paço das Necessidades ', precisamente quando a Realeza se erguia unida a um governo sério e forte. Eliminado da cena e lançado para o exílio o único homem de pulso, não há em torno de D.Manuel senão os velhos homens dos partidos, sempre envolvidos em querelas de vaidades, sempre obcecados pelo fito de conquistar o mando para si e para os seus amigos " ( João Ameal )
Os partidos que aquele chamara de " rotativos ", aproveitam-se assim da inexperiência bem intencionada do Infante adolescente para voltarem ao mesmo regabofe, depois dos esforços do rei e do seu 1º Ministro para fazerem de Portugal um país decente.
* E aos que o acusam de ter chamado « Piolheira » ao país pelo qual tanto sofreu, melhor fora que lessem este texto.
através das cartas que escreve, o encanto imorredouro dos clássicos, desta feita na forma de uma chamada de atenção a Lucílio, que acusa de volúvel na amizade, no passo em que o diz desconhecedor do que, verdadeiramente, é esse sentimento.
" Dizes-me que entregaste a carta a um amigo teu, para me trazer, mas em seguida aconselhas-me a não trocar impressões com ele sobre quanto te diz respeito, pois nem tu próprio o costumas fazer. Quer dizer, na mesma carta deste-lhe e recusaste-lhe o título de ' amigo '. Ora bem, se tu usaste esta palavra não no seu verdadeiro sentido mas antes em sentido genérico, e lhe chamaste " amigo " tal como a todos os candidatos chamamos " respeitáveis cidadãos ", ainda é aceitável; se consideras, porém, amigo alguém em quem não confias tanto como em ti próprio, então cometes um erro grave e mostras não conhecer o significado da verdadeira amizade . "
É bem o « filósofo da condição humana », como lhe chamou o Padre Manuel Antunes, que nos fala de valores inerentes ao ser moral que habita em cada um de nós.

muito fruto da total inaptidão de um " professor ", daqueles que a confusão que se instalou no ensino no seguimento do 25 de Abril encarregou de leccionar uma disciplina em que, claramente, se sentia como peixe fora d'água, o interesse que mais tarde essa matéria me suscitou foi sempre sendo objecto de um " mais tarde ", até porque consciente da dificuldade do autodidactismo em tal sede. É assim que, nomeadamente do estoicismo apenas retenho, de leituras avulsas e muito superficiais, noções muito vagas, excessivamente vagas. Vem este mal-amanhado arrazoado a talho de foice, pois que entre os livros que ontem me calharam em sorte, um título me atiçou a curiosidade a pontos de com ele iniciar a leitura que uns dias de férias permite; « Cartas a Lucílio », de Séneca, de quem sei apenas ter sido um dos maiores expoentes dessa escola filosófica, de onde retiro este saboroso excerto: " Tanto aquilo que me escreves como o que oiço dizer de ti fazem-me ter boas esperanças a teu respeito: não viajas continuamente nem te deixas agitar por constantes deslocações. Um semelhante deambular é indício de uma alma doente.: eu, de facto, entendo que o primeiro sinal de um espírito bem formado consiste em ser capaz de parar e de coabitar consigo mesmo. " E convenço-me de que esta " amostra " promete belas viagens.
Muita gente pergunta por que motivo os governos ocidentais autorizam representantes de minorias a manifestarem um ódio e uma agressividade,que, noutros tempos teria levado à prisão qualquer britânico ou francês ", escreve Roger Scruton em « O Ocidente e o Resto », numa alusão aos mullahs que, aproveitando a liberdade de expressão que não existe nos seus países de origem, incitam, com o sucesso que se tem visto, nomeadamente nessa Inglaterra que os acolheu, " à violência e à guerra santa " contra um Ocidente manietado pelo politicamente correcto.
E ele mesmo responde: " perda de identidade nacional, e do velho sentido de pertença que a acompanha.

Continua o labor de colocar os livros na estante, mas, uma vez limpo, é mais um livro que não via " há séculos ", de que tenho boas recordações, e lá me sento a folheá-lo, a reler bocados de uma escrita bem conhecida, pois que nele aparece já o Proust que encontrei, e nele me espelhei, mais tarde no « Em Busca do Tempo Perdido »; a melancolia introspectiva que despontava já, as memórias de infância a que então voltaria.
E, como a manta que tecia aquela que nunca deixou de acreditar no regresso de Ulisses, nunca mais a tarefa a que deitei mãos chega ao fim.